Chapter 2
Adrian soltou minha mão só o tempo suficiente para se levantar da cama e vestir a camisa que estava jogada numa cadeira ao lado da janela.
A senhora de bengala prateada não se moveu do lugar, os olhos passeando entre nós dois com uma curiosidade que parecia perigosamente aguçada.
— Nonna — Adrian disse, a voz carregando um respeito que eu nunca tinha imaginado ouvir na boca de um homem tão temido. — Isso não é hora.
— Ah, mas é exatamente a hora — ela respondeu, avançando devagar com a ajuda da bengala. — Você me disse, há três meses, que jamais se casaria por conveniência de novo. E agora encontro você na cama com uma mulher que nunca vi antes, anunciando um noivado?
Meu coração disparou.
— Com todo respeito — comecei, tentando levantar da cama sem revelar que só estava usando a camisa dele —, eu acho que existe um mal-entendido…
— Elena — Adrian me interrompeu, os olhos me avisando sem palavras que eu precisava confiar nele naquele momento, por mais estranho que parecesse.
A avó dele riu, um som seco, cheio de décadas de experiência lendo mentiras.
— Menina, eu tenho oitenta e três anos. Já vi todo tipo de mentira que um Moretti pode inventar. Mas essa aqui — ela apontou para mim com a bengala — não parece estar mentindo. Parece apavorada.
— Estou apavorada — admiti, sem conseguir segurar. — Mas não pelo motivo que a senhora imagina.
Isso pareceu genuinamente interessar a ela.
O homem que tinha anunciado a notícia sobre “eles saberem que ela estava ali” ainda esperava na porta, trocando olhares nervosos com os seguranças.
— Chefe — ele insistiu —, precisamos conversar. Agora. Em particular.
Adrian olhou para a avó, depois para mim, calculando alguma coisa atrás daqueles olhos cinza-claros.
— Nonna, me dá cinco minutos com Elena. Depois eu explico tudo que a senhora quiser saber.
A avó estudou meu rosto por mais um instante, então assentiu, batendo a bengala no chão de mármore como se selasse um acordo.
— Cinco minutos. Mas, Adrian — a voz dela ficou séria de repente —, se você colocou essa moça no meio de alguma guerra sua sem ela saber de nada, isso não vai terminar bem. Nem para ela, nem para você.
Ela saiu, os seguranças seguindo atrás, e a porta se fechou com um clique que pareceu ecoar pelo quarto inteiro.
Assim que ficamos sozinhos, me virei para Adrian, a raiva finalmente superando o medo.
— Você vai me explicar agora mesmo por que eu virei sua noiva enquanto eu ainda estava dormindo.
Ele passou a mão pelo cabelo, o primeiro gesto de real hesitação que eu via nele.
— Existe um homem chamado Salvatore Greco. Ele e minha família têm uma história que remonta a duas gerações atrás — um conflito que nunca foi resolvido de verdade, só… pausado.
— O que isso tem a ver comigo?
— Salvatore descobriu, há alguns dias, informações sobre uma reunião importante que vai acontecer aqui na propriedade, na próxima semana. Uma reunião que decide o controle de vários territórios em Boston.
— Ainda não entendi minha parte nisso.
Adrian se aproximou, a voz baixando, como se as próprias paredes pudessem estar ouvindo.
— Um dos guardas dele foi visto observando a propriedade essa madrugada, Elena. E o único motivo para alguém do Salvatore aparecer justamente na noite do meu evento é se ele já sabe de alguma fraqueza que pode explorar.
— E você acha que essa fraqueza sou eu?
— Eu acho — ele disse, devagar — que, se alguém te viu saindo do meu quarto essa manhã, ou te associou a mim de qualquer forma, você já virou um alvo, quer eu tivesse anunciado esse noivado ou não. A diferença é que, como minha noiva, você tem toda a proteção que meu nome carrega. Como uma funcionária qualquer encontrada no meu quarto, você é só… uma vulnerabilidade fácil de explorar.
Aquilo fez um frio diferente descer pela minha espinha.
— Então você me colocou numa mentira gigante para… me proteger?
— Eu coloquei você numa mentira gigante — ele corrigiu — porque a alternativa era muito pior.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com isso, o celular dele vibrou na mesa de cabeceira.
Ele leu a mensagem, e o rosto dele ficou tenso de um jeito que eu ainda não tinha visto naquela manhã cheia de sustos.
— O que foi? — perguntei.
Ele virou o celular para mim.
Era uma foto. De mim, saindo da propriedade Belladonna na noite anterior, tirada de um ângulo que só alguém observando de perto, escondido, poderia ter conseguido.
E embaixo da foto, uma única linha de texto, em italiano, que Adrian traduziu com a voz completamente sem emoção:
— “Sei exatamente quem ela é agora.”
