Chapter 4
Salvatore Greco entrou na sala com o tipo de calma que só homens perigosos de verdade conseguem manter.
Ele era mais velho do que eu esperava, o cabelo grisalho impecavelmente penteado, o terno tão bem cortado quanto qualquer um dos de Adrian, mas havia algo nos olhos dele — frios, calculistas — que me fez entender, instantaneamente, por que Adrian tinha insistido tanto em estar ao meu lado.
— Adrian — Salvatore cumprimentou, a voz suave, quase amigável. — E a famosa noiva. Elena, certo?
— Certo — respondi, mantendo a voz mais firme do que eu me sentia por dentro.
— Que surpresa você ter aparecido tão… repentinamente na vida dele.
— A vida tem dessas surpresas — Adrian respondeu no meu lugar, o braço passando pelas minhas costas num gesto que parecia protetor e possessivo ao mesmo tempo.
Salvatore sorriu, sentando-se do outro lado da mesa sem ser convidado.
— Sabe, Elena, eu conheço bastante gente em Boston. E é curioso como ninguém, absolutamente ninguém, tinha ouvido falar de uma noiva na vida do Adrian Moretti até essa semana.
— Nós preferimos manter as coisas privadas — falei, tentando manter a voz neutra.
— Privadas, ou inexistentes até três dias atrás?
O silêncio que se seguiu foi cortante.
Adrian se inclinou para frente, a expressão perdendo qualquer traço de cordialidade.
— Diz logo o que você veio dizer, Salvatore. Nenhum de nós tem paciência para joguinhos hoje.
— Tudo bem. — Salvatore juntou as mãos sobre a mesa. — Vim propor um acordo. Vocês cedem os territórios do porto que discutiremos na reunião da próxima semana, e eu… esqueço completamente que essa “noiva” apareceu do nada, na noite exata em que meu homem estava observando sua propriedade.
— Isso é chantagem — falei, sem conseguir me conter.
— É negócio, querida. No meu mundo, a diferença é só uma questão de quem tem mais a perder.
Adrian ficou tão parado, tão controlado, que aquilo era mais assustador do que se ele tivesse gritado.
— E se eu recusar? — ele perguntou, a voz baixa.
Salvatore olhou para mim, devagar, deliberadamente.
— Então eu deixo todo mundo em Boston saber exatamente quem é Elena Brooks. De onde ela veio. Onde mora sua família. E deixo que eles tirem suas próprias conclusões sobre o quanto ela realmente significa para você — ou não.
Meu estômago revirou.
Adrian se levantou tão rápido que a cadeira dele quase caiu para trás.
— Você está ameaçando a vida da minha família, Salvatore.
— Estou ameaçando revelar uma mentira, Adrian. Se ela for mentira mesmo.
Os dois se encararam por um momento que pareceu durar uma eternidade inteira.
Foi então que eu fiz algo que nem eu mesma esperava.
Levantei, coloquei minha mão sobre o braço de Adrian, e olhei diretamente para Salvatore.
— Não é mentira.
Os dois homens me olharam, surpresos.
— Eu não vim desse mundo, Sr. Greco. Não cresci cercada de negócios como os seus, nem sei metade das regras que vocês dois seguem. Mas sei reconhecer quando um homem está disposto a colocar tudo em risco para proteger alguém. E foi exatamente isso que Adrian fez por mim, três dias atrás, na frente da própria família dele.
Salvatore me estudou, os olhos calculistas tentando decifrar se eu estava blefando ou não.
— Bonito discurso.
— Não veio para impressionar o senhor. Veio porque é verdade.
Ele se levantou, ajustando o paletó devagar.
— Vamos ver quanto tempo essa verdade dura sob pressão de verdade, Elena Brooks.
E, sem mais nenhuma palavra, ele saiu da sala, deixando atrás de si um silêncio pesado o suficiente para sufocar qualquer um.
Assim que a porta se fechou, Adrian se virou para mim, os olhos cheios de uma mistura de choque e algo mais profundo.
— Por que você fez isso? Você nem sabia se eu ia proteger você de verdade quando aquele homem começasse a agir de verdade, não só ameaçar.
Olhei para ele, sentindo o peso de uma decisão que, de alguma forma, já não parecia mais uma mentira para mim.
— Porque, nesses três dias, você não agiu como um homem fingindo um noivado, Adrian. Você agiu como um homem protegendo alguém que já importa de verdade para ele.
Ele ficou em silêncio, e pela primeira vez desde que eu tinha acordado naquele quarto proibido, vi algo genuinamente vulnerável atravessar o rosto dele.
Mas antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, um dos guardas entrou correndo na sala, sem nem bater.
— Chefe! O carro do Sr. Greco… ele não está indo embora. Está indo direto para o apartamento da Srta. Brooks.
