Chapter 3
O escritório do Dr. Robert Sanders ficava no décimo oitavo andar de um prédio no centro de Chicago.
Fiquei parada na calçada por quase dez minutos antes de conseguir entrar.
A secretária me reconheceu antes mesmo de eu dizer meu nome.
— A senhora deve ser a esposa do senhor Ricardo — falou, gentil. — Ele está esperando por essa visita há muito tempo.
Aquilo me confundiu ainda mais.
Fui levada até uma sala com estantes cheias de livros de direito e uma vista larga da cidade.
Robert se levantou assim que me viu, os olhos já marejados.
— Eu pensei que esse dia nunca fosse chegar — disse ele, apertando minha mão com as duas dele.
— Por favor — falei, sem paciência para rodeios —, me diga o que está acontecendo. Por que Ricardo escondeu esse dinheiro? Por que ele me tratou daquele jeito no dia do divórcio?
Robert respirou fundo, como quem carrega um peso há anos.
— Sente-se — pediu.
Sentei-me na beirada da cadeira, o corpo inteiro tenso.
— Quatro meses antes do divórcio ser assinado — começou ele —, Ricardo foi diagnosticado com um câncer no pâncreas.
O ar saiu dos meus pulmões de uma vez.
— O quê?
— Estágio avançado — continuou Robert. — Os médicos deram, na época, entre um e três anos de vida.
Fiquei olhando para ele sem conseguir formar nenhuma palavra.
— Ele não te contou porque tinha medo — disse Robert. — Medo de que você ficasse com ele por obrigação, não por escolha. Depois de trinta e sete anos cuidando da casa, dos filhos, dele… Ricardo tinha pavor de te transformar, de novo, em enfermeira de um homem moribundo.
— Isso não fazia sentido nenhum pra mim, então — sussurrei, sentindo a raiva subir pela garganta. — Ele preferiu me deixar sozinha, na miséria, para me “proteger”?
— Ele achou que estava fazendo o contrário — Robert falou, com cuidado. — Ele vendeu a parte dele na firma. Vendeu o apartamento que tinha comprado sozinho depois do divórcio. Vendeu até o relógio que o pai dele tinha deixado de herança.
— E colocou tudo naquela conta.
— Cada centavo — confirmou Robert. — Ele fez questão de nunca aparecer, nunca ligar, porque tinha medo de que, se você soubesse da doença, recusaria o dinheiro só para ficar do lado dele até o fim. E ele não queria isso. Ele queria te dar segurança, não um fardo.
Levei a mão à boca, tentando conter o choro.
— Onde ele está agora? — perguntei, com a voz quase inaudível.
Robert hesitou.
— Ainda vivo. Mais fraco a cada mês. Ele está numa casa de repouso particular, perto do lago.
— Ele sabe que eu vim aqui hoje?
— Ele está esperando essa ligação desde o dia em que abriu aquela conta — respondeu Robert, os olhos cheios d’água. — Ele nunca teve coragem de ligar primeiro. Achou que não merecia.
Fiquei em silêncio por um longo tempo, encarando as próprias mãos.
Cinco anos de raiva.
Cinco anos guardando rancor de um homem que, no fim das contas, tinha se apagado da minha vida por medo de ser um peso.
E agora, ali, um novo peso caía sobre mim: decidir se eu tinha coragem de vê-lo de novo.
— Eu preciso de um tempo — falei, finalmente, levantando-me. — Preciso… digerir tudo isso.
Robert assentiu, compreensivo.
— Ele não vai cobrar nada de você — disse ele. — Mas, se quiser vê-lo, é melhor não esperar muito.
Saí daquele escritório com o mundo inteiro virado do avesso.
