Chapter 5
Nas semanas seguintes, minha rotina virou de cabeça para baixo.
Comecei o tratamento no mesmo hospital onde, cinco anos antes, eu tinha certeza de que nunca teria dinheiro para entrar.
Os médicos ficaram surpresos com a rapidez da minha resposta ao tratamento.
— A senhora chegou bem a tempo — disse um deles, revisando meus exames. — Mais alguns meses e a história poderia ter sido bem diferente.
Fiquei calada, pensando em como um envelope quase ficou esquecido dentro de uma bolsa velha.
Entre uma sessão e outra, eu ia visitar Ricardo.
No começo, as visitas eram curtas, tensas, cheias de silêncios incômodos.
Aos poucos, foram virando conversas.
Depois, viraram memórias.
Ele me contou sobre os primeiros meses depois do diagnóstico, sobre o medo que sentiu ao ver o próprio corpo enfraquecer, sobre as noites em que ligava para o meu número antigo só para ouvir minha voz na caixa postal, sem nunca deixar mensagem.
— Eu tinha medo de te ouvir chorar por mim — ele confessou um dia. — Achei que não merecia isso.
Daniel, meu filho, descobriu a verdade numa dessas visitas, e a reação dele foi bem diferente da minha.
— Você sabia? — perguntou ele para Ricardo, a voz cheia de raiva. — Sabia que a mamãe estava passando fome, enquanto você guardava uma fortuna?
— Eu sabia — respondeu Ricardo, sem desviar o olhar. — E vou carregar essa culpa até o fim.
Daniel saiu do quarto sem dizer mais nada, e levou quase duas semanas para voltar.
Emília, por outro lado, encontrou uma forma estranha de paz.
— Ele estava errado no como — disse ela, uma tarde, enquanto tomávamos café no corredor do hospital —, mas não estava errado em querer proteger você, mãe.
Eu ainda não sabia em qual dos dois filhos eu me reconhecia mais.
Enquanto isso, Karen, a gerente do banco, me ligou para dizer que o restante do dinheiro já estava totalmente liberado.
— O senhor Ricardo deixou instruções para que, se a senhora quisesse, uma parte fosse destinada a um fundo de apoio para mulheres em situação parecida com a sua — ela contou. — Ele pediu que a decisão final fosse sempre sua.
Aquilo me pegou de surpresa.
Um homem que, cinco anos atrás, mal olhou para trás ao me deixar num corredor de fórum, agora tentava, à distância, transformar a própria culpa em algo que pudesse ajudar outras mulheres como eu.
Decidi aceitar.
Criamos, com uma pequena parte do dinheiro, um fundo simples, silencioso, para ajudar mulheres mais velhas que passavam por divórcios tardios e ficavam sem nenhum apoio financeiro.
Chamamos de “Segunda Chance”.
Quando contei a Ricardo, ele sorriu como eu não via há anos.
— Isso é mais do que eu jamais mereci ver acontecer — disse ele, a voz fraca, mas firme.
Eu segurei a mão dele, e, pela primeira vez desde o divórcio, não senti raiva.
Senti só o peso de trinta e sete anos de casamento, cinco anos de dor, e um punhado de meses que ainda restavam para tentarmos entender um ao outro antes que fosse tarde demais.
