Cinco anos depois que meu marido pediu o divórcio, finalmente tomei coragem para usar aquele cartão de banco de 3 mil dólares que ele jogou na minha mão como se fosse esmola

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Chapter 4

Levei três dias para conseguir dirigir até a casa de repouso.

Três dias em que quase desisti umas dez vezes.

Minha filha, Emília, insistiu em me acompanhar.

— Mãe, você não precisa fazer isso sozinha — disse ela, segurando meu braço enquanto caminhávamos pelo corredor claro e silencioso do lugar.

O quarto de Ricardo ficava no fim do corredor, com a porta entreaberta.

Quando entrei, quase não o reconheci.

O homem que um dia foi tão firme, tão seguro de si, agora parecia pequeno na cama, os braços finos, o rosto marcado pelo tempo e pela doença.

Ele abriu os olhos devagar quando ouviu meus passos.

— Você veio — sussurrou, a voz rouca.

— Achei que não teria coragem — respondi, parada na porta, sem conseguir me aproximar mais.

— Nem eu tinha coragem de esperar por isso — disse ele, tentando um sorriso fraco.

Fiquei ali, encarando aquele homem que tinha destruído meus últimos cinco anos sem nem saber que estava, ao mesmo tempo, tentando salvar minha vida.

— Por que você fez aquilo comigo, Ricardo? — perguntei, a voz tremendo de raiva contida. — Por que me entregou aquele cartão como se eu fosse mendiga? Por que nunca me contou?

Ele fechou os olhos por um instante, como se cada palavra custasse energia que ele não tinha mais.

— Porque eu conhecia você — disse, finalmente. — Sabia que, se você soubesse da doença, ia largar tudo pra cuidar de mim. De novo. Do jeito que sempre cuidou de todo mundo, menos de você mesma.

— Isso não te dava o direito de decidir por mim — respondi, e as lágrimas finalmente vieram.

— Eu sei — admitiu ele. — Foi egoísmo disfarçado de sacrifício. Eu queria te ver livre. Longe de hospitais, de remédios, de mais uma pessoa pra enterrar. Eu já tinha te roubado tempo demais da sua própria vida.

Emília, atrás de mim, segurava a própria respiração.

— E o dinheiro? — perguntei. — Por que não simplesmente me dar tudo de uma vez, com uma explicação?

— Porque você teria recusado — ele disse, com um fio de certeza na voz. — Você é orgulhosa demais pra aceitar caridade, principalmente minha. Então eu fiz do meu jeito. Deixei que o tempo, e a necessidade, fizessem o que minhas palavras nunca conseguiriam.

Aquilo doeu mais do que qualquer grosseria que ele pudesse ter dito.

Porque era verdade.

— Eu tive fome, Ricardo — falei, a voz quebrando. — Tive frio. Vendi meu anel de casamento pra pagar aluguel. E o tempo todo, você tinha uma fortuna esperando, e eu não fazia ideia.

— Eu sei — ele disse, e uma lágrima escorreu pelo canto do olho, perdendo-se no travesseiro. — E não existe desculpa que apague isso. Só existe o resto do tempo que eu ainda tenho, se você quiser usá-lo pra alguma coisa.

Fiquei em silêncio, sentindo a raiva e a dor se misturarem com algo que eu não esperava sentir: pena.

Pena de um homem que passou os últimos anos da própria vida tentando, do jeito mais errado possível, fazer a única coisa certa que conseguiu pensar.

— Eu não sei se consigo te perdoar agora — falei, por fim. — Mas eu não vou embora.

Ricardo fechou os olhos, e, pela primeira vez desde que entrei naquele quarto, pareceu, de verdade, aliviado.

Emília se aproximou e segurou minha mão.

— Vamos ficar, mãe — disse ela, baixinho. — Um dia de cada vez.

Do lado de fora da janela, o sol da tarde começava a descer sobre o lago, e, pela primeira vez em cinco anos, eu não sabia mais o que sentir por aquele homem.

Só sabia que precisava descobrir.

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