Chapter 2
A primeira garfada desceu devagar, quase com medo de si mesma.
Eu esperei o gosto de sangue chegar. Esperei o metal, a náusea, o rosto dos homens que eu tinha matado aparecendo atrás dos olhos fechados.
Não veio nada disso.
Só tomate. Alho. Sal. Uma simplicidade tão honesta que quase doeu.
Engoli. Esperei o corpo rejeitar, como tinha rejeitado tudo nos últimos quarenta e dois dias.
Meu estômago não reagiu com náusea.
Reagiu pedindo mais.
Levei a segunda garfada à boca antes mesmo de decidir conscientemente que ia comer de novo. Depois a terceira. A quarta.
Dominic ficou parado na porta da cozinha, boca entreaberta, olhando pra cena como se estivesse vendo um fantasma comer.
“Arthur…”
“Não fala nada”, eu disse, sem tirar os olhos da tigela. “Só… não fala nada agora.”
Terminei o prato inteiro. Pela primeira vez em seis semanas, meu estômago não doía de vazio nem de rejeição. Doía de satisfação, uma sensação que eu tinha praticamente esquecido que existia.
Nora me observava com os braços cruzados, sem nenhum sinal de orgulho ou surpresa no rosto — como se alimentar um chefão da máfia que não conseguia comer há semanas fosse só mais uma tarefa qualquer do turno dela.
“Precisa de mais?”, ela perguntou, num tom que não tinha absolutamente nada de subserviente.
“Quem é você?”, perguntei, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
“A empregada que limpa o chão embaixo do fogão”, ela respondeu, tirando o avental. “Meu turno acabou há vinte minutos.”
Ela saiu da cozinha sem esperar dispensa, sem se curvar, sem sequer olhar pra trás — algo que ninguém, absolutamente ninguém, fazia na minha presença havia anos.
Dominic esperou ela sumir no corredor antes de falar.
“Isso não faz sentido nenhum, Arthur. Passamos seis semanas trazendo os melhores chefs do país, exames em três hospitais diferentes, e você come um prato de macarrão feito por uma empregada nova de três dias?”
“Eu sei que não faz sentido, Dominic. Mas aconteceu.”
Chef Pascal apareceu na porta, o rosto vermelho de indignação. “Sr. Vale, se o problema era a simplicidade do prato, eu posso preparar algo mais rústico amanhã mesmo, com ingredientes de primeira—”
“Não”, eu cortei. “Quero que a Nora cozinhe pra mim a partir de agora.”
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente pra sentir na pele.
“Ela nem é cozinheira”, Pascal protestou. “Ela foi contratada pra limpeza.”
“A partir de amanhã, ela é minha cozinheira pessoal. Ajuste o salário dela de acordo. E, Pascal — continue cuidando do resto da cozinha. Só não toque no que é preparado pra mim.”
Pascal saiu batendo a porta baixinho, tentando controlar a raiva.
Naquela noite, pela primeira vez em quarenta e dois dias, eu dormi seis horas seguidas sem acordar suando frio.
Na manhã seguinte, encontrei Nora na cozinha antes mesmo do sol nascer, já fatiando legumes com a concentração de quem não tinha tempo a perder com conversa.
“Você não parece surpresa com a promoção”, eu disse.
“Eu não vim aqui atrás de promoção”, ela respondeu, sem parar de cortar. “Vim atrás de dinheiro. Se cozinhar paga mais que esfregar chão, eu cozinho.”
“A maioria das pessoas nessa casa tentaria me agradar. Sorrir mais. Falar menos assim comigo.”
Ela finalmente parou e olhou pra mim.
“Sr. Vale, eu tenho três dias de casa e um irmão de dezenove anos em Boston que deve dinheiro pra gente que não perdoa prazo. Eu não tenho tempo nem energia pra fingir que acho o senhor assustador.”
A resposta dela me pegou de um jeito que nenhuma bala jamais tinha conseguido.
“Um agiota?”, perguntei, mais interessado do que devia estar.
“Não é da sua conta”, ela respondeu, voltando pros legumes.
Mas era. De alguma forma, sem eu entender exatamente por quê, aquilo já tinha se tornado da minha conta.
Naquela tarde, chamei Dominic ao meu escritório.
“Quero saber tudo sobre o irmão da Nora Reed. Nome, dívida, pra quem ele deve.”
Dominic ergueu uma sobrancelha. “Arthur, faz três dias que você não conseguia nem olhar pra comida sem vomitar. Agora você quer investigar a vida pessoal da empregada nova?”
“Só faça, Dominic.”
Ele saiu sem discutir mais, mas eu vi a dúvida nos olhos dele — a mesma dúvida que eu sentia crescendo dentro de mim, sem conseguir explicar por que aquela mulher, que não demonstrava nenhum medo de mim, tinha conseguido fazer o que ninguém mais tinha conseguido em seis semanas.
