Chapter 4
Victor Marsh não era homem de deixar dinheiro na mesa sem lutar.
Três dias depois da visita que quitou a dívida de Caleb, ele começou a fazer perguntas em Boston — quem era o homem que tinha mandado alguém até a porta dele de madrugada, e por que um chefão de Chicago se importaria com um garoto de dezenove anos que devia doze mil dólares.
Não demorou muito pra ele descobrir o nome Arthur Vale.
E, junto com o nome, uma informação que valia muito mais do que a dívida original: o homem mais perigoso de Chicago parecia ter desenvolvido um ponto fraco, e esse ponto fraco tinha nome — Nora Reed.
A ligação chegou pro celular de Nora numa tarde de quinta-feira, enquanto ela temperava um assado na cozinha da mansão.
“Sua dívida sumiu”, a voz de Victor Marsh disse, sem se apresentar. “Isso foi bonito da parte do seu novo patrão. Mas eu não gosto de perder dinheiro, Nora. E agora eu sei exatamente onde encontrar as duas coisas que eu quero.”
“Do que você está falando?”
“Você tem até sexta-feira pra mandar cinco mil dólares pra mim. Se não mandar, eu vou explicar pro Sr. Vale, bem detalhadamente, o quanto pode ser perigoso ter alguém como você tão perto dele. Informações vazam fácil, Nora. Principalmente quando envolvem rotinas, horários, entradas de serviço…”
Ela sentiu o sangue gelar. “Eu nunca disse nada sobre a rotina daqui pra você.”
“Eu sei que não. Mas ele não sabe disso, sabe? E, no mundo dele, dúvida já é motivo suficiente.”
A ligação terminou antes dela conseguir responder.
Nora ficou parada na cozinha por um longo minuto, a colher de pau esquecida na mão, o coração disparado.
Ela sabia exatamente o que Victor estava fazendo: usando o medo dela de perder a única coisa boa que tinha acontecido em meses pra extorquir mais dinheiro, sem nem precisar chegar perto da mansão.
Ela não contou a Arthur naquela noite. Nem na seguinte.
Mas Arthur percebeu.
Tinha aprendido, nas últimas semanas, a notar cada pequena mudança em Nora — e a tensão nos ombros dela, o silêncio mais pesado que o normal, não passaram despercebidos.
“O que está acontecendo?”, ele perguntou, numa noite, encontrando ela sentada sozinha na cozinha depois do jantar, olhando pro celular sem realmente vê-lo.
“Nada.”
“Nora.”
Ela suspirou, finalmente derrotada pelo cansaço de carregar aquilo sozinha.
“Victor Marsh está me ameaçando. Ele quer mais dinheiro, ou ele diz que vai plantar dúvida na sua cabeça sobre mim. Sobre eu estar passando informação, rotina da casa, essas coisas.”
Alguma coisa mudou no rosto de Arthur — não raiva explosiva, mas algo mais frio, mais controlado, o tipo de calma que Dominic reconhecia como o momento mais perigoso do patrão.
“Ele te ameaçou diretamente.”
“Sim.”
“E você não me contou porque…?”
“Porque eu não queria que você pensasse que eu trouxe esse problema pra dentro da sua casa.”
Arthur balançou a cabeça devagar. “Nora, você não trouxe problema nenhum. Você me devolveu minha vida com um prato de macarrão. O problema é meu agora.”
Ele chamou Dominic na mesma hora.
“Quero Victor Marsh aqui em Chicago até amanhã à noite. Não machucado. Só aqui.”
Dominic assentiu sem perguntar mais nada.
Vinte e quatro horas depois, Victor Marsh estava sentado numa cadeira no meio do porão da mansão, sem saber exatamente como tinha ido parar ali tão rápido, o rosto suado de medo.
Arthur entrou devagar, as mãos nos bolsos, olhando pro homem que tinha ousado ameaçar a única pessoa que tinha conseguido devolver algo de humano pra ele em anos.
“Você ameaçou a mulher errada, Victor.”
“Sr. Vale, eu juro que não sabia que ela era importante pro senhor, eu só—”
“Você sabia exatamente o que estava fazendo. Só não sabia que eu ia descobrir tão rápido.”
Victor engoliu em seco. “O que o senhor quer?”
“Quero que você suma. De Boston, de qualquer lugar que tenha conexão com a família Reed. E quero que espalhe, discretamente, pra qualquer outro agiota que ouse pensar em fazer o mesmo: a família Reed está sob minha proteção. Permanentemente.”
“E se eu não sumir?”
Arthur se aproximou, a voz baixando ainda mais.
“Então você vai descobrir exatamente por que eu passei seis semanas sem conseguir comer. E, dessa vez, não vai ser culpa.”
Victor não precisou de mais nenhuma explicação.
