Chapter 4
Às seis da manhã, a notícia já dominava três canais financeiros diferentes.
“WHITMORE HOLDINGS SOB INVESTIGAÇÃO FEDERAL — CEO ENVOLVIDO EM ESCÂNDALO DE DESVIO DE FUNDOS E SUBORNO A AGENTE PÚBLICO.”
Kyle assistia sozinho, sentado na mesma cadeira onde tinha desabado horas antes, o terno amassado, os olhos vermelhos de quem não tinha dormido nem um minuto.
Isabella entrou na sala vestida com roupas simples, os cabelos presos, um curativo discreto cobrindo o corte acima da sobrancelha. Não era mais a esposa quieta de gala e sorriso ensaiado. Era outra pessoa — ou talvez fosse quem ela sempre tinha sido, escondida atrás de um papel que nunca lhe pertenceu de verdade.
— Ainda está aqui — ela observou, sem surpresa nem raiva na voz.
— Para onde eu iria? — Kyle perguntou, sem erguer os olhos da tela. — Meu passaporte foi apreendido essa madrugada. Minhas contas foram congeladas. Até meu cartão de crédito pessoal parou de funcionar.
— Bem-vindo à vida sem dinheiro suficiente para comprar silêncio — Isabella disse, sem nenhuma pena na voz.
Kyle finalmente olhou para ela.
— Você planejou isso. Desde o início. Não foi?
— Não — Isabella respondeu, sinceramente. — Eu só nunca escondi quem eu era por fraqueza, Kyle. Escondi porque queria descobrir se você me amaria mesmo sem saber quem era meu pai. — Ela fez uma pausa, a voz baixando. — Você nunca soube. E, no fim, nem precisou saber para me machucar.
Ele engoliu em seco, algo próximo do arrependimento cruzando o rosto pela primeira vez.
— Isabella, eu—
— Não — ela cortou, sem levantar a voz. — Você não tem mais o direito de terminar essa frase.
Do corredor, passos se aproximaram. Victor entrou, já vestido para o dia, um tablet na mão.
— As ações da Whitmore Holdings caíram sessenta e três por cento na abertura do mercado — ele informou, sem rodeios. — O conselho votou sua remoção há vinte minutos, Kyle. Unânime.
Kyle fechou os olhos como se aquilo fosse o golpe final que faltava.
— E Thalia? — Isabella perguntou.
— Já deixou o país — Victor respondeu. — Um voo particular, pago, ironicamente, pelo próprio Marcus, o sócio que ela estava vendo escondido. Parece que ele decidiu que era hora de assumir a responsabilidade que evitou por meses.
Isabella sentiu algo estranho: não era satisfação exatamente, mas um tipo de paz que ela não sentia há anos.
— O que vai acontecer com ele agora? — ela perguntou, olhando para Kyle, mas a pergunta era dirigida ao pai.
— Isso depende de quanto você quer que aconteça — Victor respondeu, olhando para a filha com atenção. — Eu já derrubei o império dele. O resto — processo criminal, prisão, ruína completa — é uma escolha sua, Bella. Não minha.
Todos os olhos se voltaram para Isabella.
Ela olhou para Kyle por um longo momento — o homem que ela tinha amado, ou pensado que amava, o homem que a machucou no chão da própria casa enquanto a amante sorria ao lado.
— Eu não quero destruí-lo por prazer — ela disse, finalmente. — Quero que ele viva o resto da vida sabendo exatamente o que jogou fora.
Kyle a encarou, algo quebrando definitivamente atrás dos olhos dele.
— E o que seria isso, na sua opinião?
— A chance de ter sido, de verdade, um homem melhor — Isabella respondeu. — Você teve tudo, Kyle. E escolheu isso.
