Chapter 5
As semanas seguintes passaram como uma tempestade que Isabella observava de dentro do olho do furacão — calma, no centro de um caos que ela mesma tinha colocado em movimento.
O processo criminal contra Kyle avançou rápido, impulsionado pelas provas que o agente Reyes já vinha reunindo havia meses, agora somadas ao testemunho de Isabella e à documentação financeira liberada por Victor. Suborno a agente federal. Fraude. Desvio de fundos de acionistas. A lista de acusações crescia a cada nova descoberta.
Thalia nunca mais apareceu publicamente. Rumores diziam que ela e Marcus tinham se instalado em algum lugar do Caribe, longe o suficiente para escapar da imprensa, perto o suficiente da fortuna dele para continuar confortável — pelo menos até que a próxima mentira alcançasse os dois.
Kyle, por sua vez, perdeu tudo com uma velocidade que surpreendeu até os analistas mais cínicos do mercado. A mansão foi vendida em leilão judicial. Os carros, os relógios, as roupas sob medida — tudo liquidado para cobrir dívidas e multas. O homem que um dia fez investidores confiarem cegamente nele agora mal conseguia alugar um apartamento de um quarto no Queens.
Isabella soube de tudo isso por relatórios, não por curiosidade pessoal. Ela tinha, deliberadamente, parado de acompanhar.
Uma tarde, sentada no escritório do próprio pai — um espaço que ele insistia em dividir com ela agora, “para você aprender o que sempre devia ter sido seu”, como ele dizia — Isabella recebeu uma carta.
Era de Kyle.
Ela quase não abriu. Mas abriu.
“Isabella,
Não espero perdão. Não acho que mereço.
Só quero que saiba que, em algum momento perdido nesses últimos anos, eu esqueci quem eu era antes de todo o dinheiro, antes das capas de revista, antes de acreditar que merecia mais do que tinha. Você nunca me pediu para ser quem eu me tornei. Eu escolhi isso sozinho.
Espero, um dia, conseguir ser metade do homem que você sempre mereceu ter ao lado. Não para te reconquistar. Só para provar, a mim mesmo, que ainda sou capaz de ser alguém decente.
Kyle.”
Isabella releu a carta duas vezes, sentindo muito menos do que esperava sentir.
Não havia mais raiva ali. Nem mágoa fresca. Só o peso distante de uma vida que já não era mais a dela.
Ela dobrou a carta e guardou na gaveta — não para guardar como lembrança, mas porque jogar fora, de alguma forma, ainda parecia dar importância demais a algo que já tinha perdido o poder de feri-la.
Victor entrou no escritório, encontrando a filha olhando pela janela, o papel esquecido na gaveta aberta.
— Está tudo bem? — ele perguntou.
— Está — ela respondeu, e percebeu, surpresa, que era verdade. — Pela primeira vez em muito tempo, está.
Victor se aproximou, apoiando as duas mãos na mesa dela.
— Sabe, Bella, eu passei anos me perguntando se tinha errado, deixando você viver longe dos holofotes, tentando te dar uma vida normal.
— Você não errou — ela disse, olhando para ele com um carinho que raramente permitia transparecer. — Você só me deu tempo suficiente para descobrir sozinha quem eu queria ser, antes de precisar usar o sobrenome Calder para provar isso a alguém.
Victor sorriu, um sorriso raro e genuíno.
— E quem você decidiu ser?
Isabella olhou pela janela, para a cidade se movendo lá embaixo, indiferente a tudo que tinha acontecido dentro daquelas paredes.
— Alguém que nunca mais vai confundir silêncio com fraqueza — ela respondeu. — E alguém pronta para assumir o próprio nome, sem precisar se esconder atrás do de mais ninguém.
