Chapter 3
Parte 2
Não perdi mais um segundo.
Peguei o celular e liguei para a emergência, minhas mãos tremendo tanto que quase deixei o aparelho cair duas vezes.
— Preciso de uma ambulância agora. Minha esposa está grávida, sangrando, e parece estar em trabalho de parto prematuro.
Enquanto esperava, me ajoelhei ao lado de Lily, tirando com cuidado os cacos de vidro de perto do corpo dela.
— Fica comigo, amor. A ajuda já está vindo.
— Adam — ela sussurrou, a voz fraca. — Eu tentei ligar pra você. Meu celular… ela quebrou meu celular.
Olhei ao redor e vi, pela primeira vez, os pedaços do celular dela espalhados perto da cômoda, a tela completamente estilhaçada.
— Quem era o médico, Lily? Você sabe o nome dele?
Ela balançou a cabeça, fraca.
— Não. Sua mãe disse que ele ia “cuidar do problema”. Eu não entendi na hora. Achei que fosse um médico de verdade, alguém preocupado comigo.
— E depois?
— Ele tentou me dar uma injeção. Eu perguntei o que era, e ele não respondeu direito. Foi aí que eu entrei em pânico e tentei correr.
Senti o estômago revirar.
— Ele te machucou?
— Eu tropecei tentando fugir, derrubei o porta-retrato, caí em cima do vidro. Sua mãe só ficou observando, Adam. Ela não tentou me ajudar nem uma vez.
As sirenes começaram a soar lá fora, cada vez mais próximas.
— O que ela disse, exatamente? — perguntei, precisando entender, mesmo sabendo que aquele não era o melhor momento.
Lily fechou os olhos, tentando se lembrar através da dor.
— Ela disse que esse bebê nunca devia ter existido. Que eu tinha “estragado os planos dela”. E que, se eu contasse pra você, ninguém ia acreditar numa grávida histérica contra a palavra da própria mãe.
Os paramédicos chegaram minutos depois, e tudo virou um turbilhão de vozes, macas, luzes de emergência.
No hospital, enquanto os médicos examinavam Lily e monitoravam os batimentos do bebê, fiquei sentado na sala de espera, sentindo uma raiva que eu nunca tinha experimentado antes crescer dentro de mim, misturada com uma culpa que ameaçava me sufocar.
Eu tinha ficado parado.
Sessenta segundos, desconfiando da minha própria esposa, enquanto minha mãe colocava em risco a vida dela e do meu filho.
Uma enfermeira finalmente se aproximou.
— Senhor Carter, sua esposa e o bebê estão estáveis. Conseguimos controlar o sangramento a tempo. Ela vai precisar ficar em observação, mas os dois vão ficar bem.
Senti as pernas cederem de alívio.
— Posso vê-la?
— Pode, mas ela precisa descansar.
Entrei no quarto devagar, encontrando Lily pálida, mas consciente, uma das mãos protegendo a barriga instintivamente.
— Ei — falei, sentando na beira da cama, pegando a mão dela com cuidado. — Eu sinto muito. Por ter hesitado. Por ter deixado a voz da minha mãe entrar na minha cabeça daquele jeito.
— Você a chamou? — perguntou Lily, um resquício de medo ainda na voz.
— Não. E não vou. Não até entender exatamente o que ela estava tentando fazer.
Lily apertou minha mão com a força que ainda tinha.
— Adam, tem mais uma coisa que eu preciso te contar. Uma coisa que o médico disse antes de eu conseguir fugir dele.
— O quê?
Ela hesitou, os olhos se enchendo de lágrimas novamente.
— Ele disse “se ela perder esse bebê, o Sr. Carter nunca vai saber a verdade sobre o testamento do pai dele.”
As palavras caíram sobre mim como um balde de água gelada.
— O testamento do meu pai?
Meu pai tinha morrido dois anos antes, deixando uma fortuna considerável, dividida, segundo minha mãe sempre me disse, igualmente entre ela e eu.
Mas, pela primeira vez, uma dúvida terrível começou a se formar na minha mente: e se aquilo nunca tivesse sido verdade?
Parte 3
Na manhã seguinte, deixei Lily descansando sob os cuidados atentos da equipe do hospital e fui até o escritório de advocacia que tinha cuidado dos assuntos do meu pai antes dele morrer.
Marcus Webb, o advogado da família havia mais de trinta anos, me recebeu com uma expressão cautelosa assim que entrei sem avisar.
— Adam, que surpresa. Está tudo bem?
— Preciso ver o testamento original do meu pai. O documento completo, não o resumo que minha mãe me mostrou depois do funeral.
Marcus hesitou, algo que imediatamente aumentou minhas suspeitas.
— Adam, esse é um assunto delicado…
— Marcus. Minha esposa quase perdeu o bebê ontem à noite por causa de algo relacionado a esse testamento. Eu preciso da verdade agora.
Ele suspirou pesadamente, se levantando para trancar a porta do escritório antes de voltar a se sentar.
— Seu pai fez alterações no testamento seis meses antes de morrer, Adam. Alterações que sua mãe nunca quis que você soubesse.
Meu coração acelerou.
— Que tipo de alterações?
— Seu pai descobriu, pouco antes de adoecer, que sua mãe vinha desviando fundos da empresa da família havia anos, escondendo tudo através de contas que ele não sabia que existiam. Quando confrontou ela, sua mãe ameaçou pedir divórcio e levar metade de tudo mesmo assim, através de acordos pré-nupciais que favoreciam ela.
— Isso não explica o que aconteceu ontem.
— Seu pai reescreveu o testamento para proteger você, Adam. Ele estabeleceu que, se você tivesse um filho, a maior parte da herança — incluindo o controle majoritário da empresa — seria automaticamente transferida para um fundo em nome da criança, com você como administrador. Sua mãe ficaria apenas com uma porcentagem fixa, sem acesso direto ao capital principal.
Senti o chão se abrir sob meus pés.
— Ela sabia disso?
— Ela descobriu há poucos meses, quando tentou fazer uma movimentação financeira grande e o banco exigiu autorização adicional, baseada nas novas cláusulas do testamento.
— E quando ela soube que a Lily estava grávida…
— Ela percebeu que, assim que essa criança nascesse, perderia definitivamente o controle que vinha exercendo secretamente sobre a fortuna da família nos últimos dois anos.
A raiva que eu tinha sentido na noite anterior voltou com força total, agora com um alvo claro e um motivo compreensível demais para ser suportável.
— Ela tentou fazer minha esposa perder o bebê para proteger dinheiro.
Marcus assentiu, sombrio.
— Eu deveria ter te contado antes, Adam. Mas sua mãe ameaçou processar o escritório inteiro se eu revelasse os termos antes que ela conseguisse “resolver a situação” à própria maneira.
— Resolver a situação — repeti, com nojo. — Foi assim que ela chamou de mandar um homem para machucar minha esposa grávida?
— Eu não sabia que ela iria tão longe — disse Marcus, genuinamente abalado. — Achei que ela estava tentando renegociar termos legais, não… isso.
Levantei-me, sentindo cada parte do meu corpo tremer de fúria controlada.
— Preciso de cópias de tudo. Do testamento original, das alterações, de qualquer documento que prove as movimentações financeiras irregulares dela.
— Vou providenciar imediatamente. Adam… o que você pretende fazer?
Parei na porta, olhando para trás.
— Vou proteger minha família. Da forma que meu pai devia ter feito diretamente, se não tivesse morrido antes de ver até onde ela seria capaz de ir.
Voltei ao hospital com uma pasta cheia de documentos e uma determinação fria que eu nunca soube que possuía.
Lily estava acordada, mais corada, os batimentos do bebê ainda sendo monitorados calmamente na tela ao lado da cama.
— Descobriu alguma coisa? — ela perguntou, ao ver minha expressão.
Sentei ao lado dela, segurando sua mão.
— Descobri que minha mãe estava roubando a empresa do meu pai há anos, e que ela ia perder tudo assim que nosso filho nascesse, porque meu pai reescreveu o testamento para proteger vocês dois.
Lily levou a mão livre à boca, chocada.
— Ela quase matou seu neto por dinheiro.
— Ela quase matou meu filho e minha esposa — corrigi, a voz dura. — E agora ela vai ter que responder por isso, de um jeito que ela nunca vai conseguir manipular ou esconder.
