Aceitei cuidar de um viúvo de oitenta anos porque eu precisava desesperadamente do dinheiro

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Chapter 1

Aceitei cuidar de um viúvo de oitenta anos porque eu precisava desesperadamente do dinheiro. Eu nunca imaginei que aquele homem solitário, esquecido por todos, se tornaria a única pessoa capaz de enxergar os pedaços quebrados de mim que eu achava que já tinham morrido havia anos. No dia em que ele olhou nos meus olhos e disse: “Você anda como alguém que esqueceu como se vive”, eu percebi que aquele trabalho estava prestes a mudar muito mais do que a minha conta bancária.

Quando aceitei a vaga, eu não estava procurando um sentido para a vida. Eu estava procurando um salário. As contas se acumulavam em cima da mesa da cozinha, meu marido ficava mais frio a cada mês que passava, e meus filhos já não precisavam mais de mim como antes. Nossa casa parecia enorme, vazia, tomada por aquele tipo de silêncio que corrói o coração aos poucos.

Uma amiga próxima me contou sobre um senhor idoso que procurava alguém para passar as tardes com ele. O trabalho parecia simples: preparar o chá dele, organizar os remédios, ler o jornal porque a vista dele já estava fraca, e fazer companhia durante as longas horas do dia.

O nome dele era Ernesto Alves.

Ele morava numa bela mansão antiga no fim da nossa rua, escondida atrás de um portão alto de ferro trabalhado, coberto de hera. As pessoas do bairro diziam que ele tinha sido um engenheiro brilhante, que viajou o mundo todo construindo obras incríveis. Agora era um viúvo, os filhos moravam longe, e a casa enorme tinha ficado silenciosa demais.

Na primeira vez que atravessei aquele portão, senti algo estranho.

Não era medo.

Era respeito.

A propriedade parecia intocada pelo tempo, como se o mundo lá fora tivesse simplesmente esquecido que ela existia.

O seu Ernesto me recebeu na porta, apoiado levemente numa bengala de madeira bem trabalhada. Mesmo aos oitenta anos, ele ainda se mantinha ereto. Os cabelos brancos como neve emolduravam um rosto marcado pelo tempo, mas os olhos cinzentos ainda carregavam uma intensidade que me fazia sentir que ele conseguia ler cada pensamento que eu tentava esconder.

Ele não olhava para mim do jeito que muitos idosos costumam olhar — com tristeza, ou uma espécie de resignação silenciosa.

Ele olhava… com curiosidade.

Quase como se quisesse entender quem eu realmente era antes que qualquer um de nós dissesse mais uma palavra.

— Então — ele disse, com uma voz calma e firme — você é a moça que vai cuidar de mim?

— Sim, seu Ernesto — respondi, com um sorriso meio nervoso. — Eu sou a Laura. A minha vizinha, a Rosa, me indicou.

Um sorriso leve passou pelo rosto dele.

— A Rosa sempre gostou de se meter na vida dos outros — ele riu baixinho. — Entre.

A casa parecia um pedaço de outra época.

Móveis pesados de madeira escura preenchiam cada cômodo. Fotos em preto e branco, emolduradas, cobriam as paredes. As estantes transbordavam de livros de engenharia, volumes de história e clássicos com as capas gastas pelo tempo. O ar tinha cheiro de madeira encerada, papel antigo e de memórias que ainda pareciam viver em cada canto.

Enquanto eu preparava o chá da tarde, notei que ele me observava, em silêncio.

O olhar dele não era incômodo.

Não era inadequado.

Parecia mais o olhar de alguém que estava apreciando algo que não via havia muito tempo — energia, calor, vida.

Fiquei sem jeito.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.

Ele sorriu de leve e balançou a cabeça.

— Você anda rápido demais — disse ele.

Eu ri, meio sem graça.

— Acho que é só o jeito da minha vida. Em casa eu vivo correndo de uma coisa pra outra.

Ele balançou a cabeça devagar, olhou pela janela e só depois voltou a falar.

— Aqui não.

Fiquei esperando.

— Aqui — disse ele, baixinho — não tem pra onde correr.

As palavras dele se acomodaram dentro de mim de um jeito que eu não sabia explicar.

Então ele olhou de volta pra mim, com aqueles olhos cinzentos tão claros, e completou, quase num sussurro:

— Se você ficar… talvez lembre o que é andar devagar de novo.

Eu não soube o que responder.

Mas, de algum jeito, antes mesmo daquela primeira tarde com o seu Ernesto terminar, eu já sentia algo dentro de mim começando a despertar — algo que eu achava que tinha morrido pra sempre.

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