“Ninguém toca nela na minha casa”, avisou o chefe da máfia ao mordomo — mas o que aconteceu depois chocou todo mundo

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Chapter 2

Domenico Moretti desceu as escadas quinze minutos depois, o casaco ainda vestido, os passos calmos como se nada tivesse acontecido lá em cima.

Entrou na cozinha sem bater, e Rosa, sem nem levantar os olhos da tábua de corte, perguntou:

— Ele vai precisar de gelo?

— Já providenciei — Moretti respondeu, a voz de volta ao tom controlado de sempre. — Rosa, pode nos deixar a sós por um momento?

Rosa assentiu, largou a faca, secou as mãos no avental e saiu sem uma palavra, fechando a porta atrás de si com um cuidado que parecia deliberado.

Corrie ficou sentada no banquinho, o pano ainda apertado na mão, o coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que ele conseguia ouvir.

— Você está bem? — Moretti perguntou, se aproximando devagar, sem pressa, do jeito que se aproxima de um animal assustado.

— Estou — ela respondeu, embora a voz saísse mais fraca do que pretendia.

— Ele te machucou antes de eu chegar?

— Não. Ele só… — ela hesitou, sem saber quanto contar, sem saber se confiar naquele homem era seguro ou só mais um tipo diferente de perigo.

— Corrie — ele disse, e o fato de ele saber seu nome, depois de quatro meses em que ela quase nunca tinha cruzado o caminho dele diretamente, a pegou de surpresa. — Eu preciso que você entenda uma coisa. O que aconteceu essa noite não vai se repetir. Nunca mais.

— Como o senhor pode garantir isso?

— Porque Everett Whitlock não vai mais trabalhar nessa casa a partir de amanhã de manhã.

Aquilo deveria ter trazido alívio, mas em vez disso trouxe um pânico gelado que subiu pela garganta de Corrie tão rápido que ela quase engasgou.

— Não, o senhor não pode fazer isso.

Moretti franziu a testa, genuinamente surpreso com a reação dela.

— Por que não?

— Porque os documentos da minha filha estão na gaveta do escritório dele. A certidão de nascimento, o cartão de identificação, os papéis de guarda médica. Sem eles, eu não posso autorizar nenhum tratamento para ela, não posso nem levar ela num pronto-socorro sem enfrentar uma burocracia que pode demorar semanas.

O rosto de Moretti mudou completamente, a raiva controlada de minutos atrás dando lugar a uma preocupação genuína.

— Sua filha está doente?

Corrie sentiu os olhos encherem de lágrimas que ela tinha guardado havia meses, sem nunca ter tido espaço ou segurança para deixar sair.

— Lily tem seis anos. Nasceu com uma condição cardíaca rara. Precisa de acompanhamento médico constante, e o único especialista que aceita o convênio que consegui é num hospital que exige toda aquela papelada específica antes de cada consulta.

— E por que esses documentos estão com Whitlock, e não com você?

— Porque, quando comecei a trabalhar aqui há quatro meses, ele disse que era protocolo da casa guardar documentação pessoal dos funcionários “para segurança”, e eu estava desesperada demais pelo emprego para questionar. Só depois percebi que ele fazia isso para ter controle sobre mim. Toda vez que eu pensava em denunciar o comportamento dele, ele lembrava, bem sutilmente, que sem aqueles papéis minha filha ficaria sem tratamento.

Moretti ficou em silêncio por um longo momento, o maxilar travado de um jeito que fez Corrie recuar instintivamente, achando que a raiva dele fosse se voltar contra ela.

Mas quando ele voltou a falar, a voz saiu mais gentil do que ela esperava.

— Ele estava usando a saúde da sua filha como refém para te manter em silêncio.

— Eu não tinha escolha.

— Você tinha, sim. Só que ele garantiu que parecesse impossível.

Moretti se levantou, caminhando até a porta da cozinha, e chamou um dos seguranças que ficava sempre por perto durante a noite.

— Traz os documentos pessoais de todos os funcionários guardados no escritório de Whitlock. Agora. E me avisa assim que ele acordar.

O segurança assentiu e desapareceu corredor afora.

Moretti voltou a se sentar perto de Corrie, dessa vez mantendo uma distância respeitosa, os olhos carregados de algo que parecia genuína culpa.

— Eu deveria ter percebido isso antes — ele disse, mais para si mesmo do que para ela.

— Como o senhor poderia saber?

— Porque essa é minha casa, Corrie. As pessoas que trabalham aqui deveriam estar seguras, e eu falhei em garantir isso.

Ela olhou para ele, tentando entender aquele homem que todo mundo na cidade temia, mas que agora parecia carregar o peso de uma responsabilidade que a maioria dos patrões nunca se daria ao trabalho de sentir.

— Posso perguntar uma coisa, Sr. Moretti?

— Pode.

— Por que o senhor estava lá em cima, exatamente naquela hora? Whitlock nunca tinha feito isso na frente de ninguém antes.

Moretti hesitou, e pela primeira vez desde que ela o conhecia, pareceu genuinamente incerto sobre quanto revelar.

— Porque, há algumas semanas, comecei a notar padrões. Você sempre evitando ficar sozinha com ele. O jeito como você se encolhia toda vez que ele se aproximava. Eu vinha observando, esperando o momento certo para agir sem colocar você em risco antes de ter certeza.

— O senhor sabia?

— Suspeitava. E hoje, quando o vi te seguindo escada acima depois do expediente, decidi que não ia mais esperar.

Corrie sentiu um nó na garganta, uma mistura confusa de gratidão e desconfiança que ela ainda não sabia como processar.

— Existe outra coisa que eu preciso te contar, Corrie — Moretti disse, a voz ficando mais séria. — E acho que é melhor você souber antes que descubra por conta própria.

— O quê?

— O motivo de eu prestar tanta atenção nos funcionários novos dessa casa não é só cuidado geral. Há alguns anos, perdi alguém importante para mim exatamente por não ter percebido a tempo o que estava acontecendo debaixo do meu próprio teto.

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