No dia em que entrei numa clínica de saúde da mulher em Baltimore planejando interromper minha gravidez, três pequenos batimentos de coração transformaram minha decisão num segredo perigoso

Written by

in

Chapter 2

Fiquei ali parada, sentindo o gel frio ainda na barriga, encarando um homem que a cidade inteira temia dizer o nome em voz alta.

— Isso é impossível — falei, a voz tremendo mais do que eu gostaria. — Eu não conheço você. Nunca vi você na vida.

— Não estou falando de mim — Adrian respondeu, a voz calma, quase controlada demais para a situação. — Estou falando do meu irmão.

Meu coração disparou.

— Seu irmão?

— Daniel Vale.

O nome caiu sobre mim como um balde de água fria.

Daniel.

A única noite que eu tinha tentado esquecer nos últimos dois meses, guardada bem no fundo da memória como algo que não deveria ter acontecido.

— Ele… ele nunca disse que tinha uma família assim.

— Ele nunca conta nada a ninguém até ser tarde demais — Adrian disse, e havia uma amargura antiga por trás daquelas palavras.

Do lado de fora, os gritos continuavam. Alguém gritava por segurança. Vidro quebrando.

— O que está acontecendo lá fora? — perguntei, o pânico voltando com força.

— Pessoas que não deveriam saber que você está aqui, sabem — ele respondeu, se aproximando. — E eu preciso tirar você e essas crianças daqui agora, antes que a situação piore.

— Crianças que eu nem tinha decidido se ia ter — falei, e a frase saiu mais dura do que eu pretendia.

Pela primeira vez, algo pareceu atingir Adrian de verdade.

— Você estava aqui para…

— Para tomar uma decisão que era só minha — completei, erguendo o queixo, apesar do medo. — E continua sendo.

Ele ficou em silêncio por um segundo, avaliando.

— Você tem razão — ele finalmente disse. — A decisão é sua. Mas o perigo lá fora não escolhe quem tem razão. Se essas pessoas descobrirem que você carrega sangue Vale, elas vão usar isso contra minha família de qualquer jeito que puderem, incluindo contra você.

Marcy, ainda encolhida perto da porta, olhou para mim com urgência.

— Lena, seja lá quem for esse homem, acho melhor você ir com ele. Isso lá fora não é brincadeira.

Mais um estampido ecoou, mais perto dessa vez.

Adrian estendeu a mão.

— Eu não vou te forçar a nada. Mas se você ficar aqui, não posso garantir sua segurança nem a das crianças.

Olhei para a tela do ultrassom, ainda ligada, os três pontinhos piscando teimosamente.

Três vidas que, minutos atrás, eu nem sabia que existiam.

Três vidas que agora, aparentemente, tinham um sobrenome poderoso e perigoso colado nelas.

— Se eu for com você — falei, a voz mais firme do que eu esperava — eu quero respostas. Todas elas.

— Você vai ter — ele prometeu.

Segurei a mão dele, e no instante em que nossos dedos se tocaram, senti como se estivesse assinando um contrato que eu nem tinha lido por completo.

Ele me guiou por uma saída lateral, longe do caos na entrada principal, dois homens de terno escuro nos escoltando sem dizer uma palavra.

O carro que nos esperava era blindado, os vidros escuros o suficiente para esconder qualquer coisa lá dentro.

Assim que a porta se fechou, o silêncio dentro do carro contrastava violentamente com o caos que tínhamos deixado para trás.

— Quem estava atirando lá fora? — perguntei, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Rivais da minha família. Gente que soube que Daniel tinha um caso não resolvido em Baltimore e decidiu chegar até você antes de mim.

— Um caso não resolvido — repeti, sentindo o peso cruel daquelas palavras. — É assim que eu sou chamada agora?

Adrian olhou para mim, e pela primeira vez desde que tinha entrado na clínica, algo em sua expressão pareceu genuinamente arrependido.

— Não é assim que eu vejo você, Lena. Mas é assim que meus inimigos vão te ver, se você não estiver protegida.

— E onde está Daniel nessa história toda?

O silêncio dele durou tempo demais para ser uma resposta simples.

— Daniel morreu há três semanas.

O ar saiu dos meus pulmões de uma vez.

— O quê?

— Um acidente de carro que eu não acredito, nem por um segundo, que tenha sido acidente — Adrian disse, os olhos fixos na estrada, o maxilar travado. — E se eu estiver certo sobre quem fez isso, essas mesmas pessoas agora sabem que você está grávida dos filhos dele.

Olhei para minha própria barriga, ainda achatada, ainda guardando um segredo que ninguém deveria saber tão cedo.

— Então eu não sou só um caso não resolvido — sussurrei. — Eu sou uma testemunha viva de alguma coisa que alguém matou para esconder.

Adrian não respondeu.

Ele não precisava.

O silêncio dele já tinha me dado a resposta que eu temia ouvir.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos