Chapter 1
O homem mais temido de Nova York passou um voo inteiro sentado ao lado da menina que ele procurava, sem nem imaginar que ela era sua filha. Quando ela olhou para mim e perguntou: “O senhor já amou alguém a ponto de arruinar a própria vida?”, achei que fosse só uma pergunta inocente. Depois o avião entrou numa turbulência violenta, e eu me vi segurando a mão da criança cuja mãe a escondera de mim por seis longos anos.
Acomodei-me no assento 4A, afrouxei a gravata e tentei desaparecer no conforto silencioso da primeira classe.
Sempre odiei voos noturnos.
Executivos exaustos demais, fingindo ter vidas perfeitas.
Sorrisos polidos demais, escondendo segredos feios.
Gente demais acreditando que dinheiro poderia protegê-la das consequências.
Eu sabia, melhor do que ninguém, que não podia.
Meu nome é Luca Moretti.
Para o público, eu era um incorporador imobiliário de sucesso, cuja empresa possuía alguns dos prédios mais valiosos de Nova York. Por trás das portas fechadas, eu era o homem sobre quem as pessoas baixavam a voz para falar. Rivais mediam cada palavra perto de mim, porque sabiam que me contrariar vinha com consequências.
Confiança tinha se tornado um luxo que eu não me permitia mais.
Foi então que uma menininha de casaquinho amarelo vivo se sentou na poltrona ao meu lado.
Ela abraçava uma mochila rosa coberta de adesivos de desenho animado e segurava uma caixinha de suco com as duas mãos. Depois de afivelar o cinto, olhou direto para mim, com uma curiosidade destemida.
— O senhor parece que não gosta de gente.
Virei-me para ela.
— É tão óbvio assim?
Ela assentiu com total confiança.
— Minha mãe diz que homem de terno caro ou vende seguro… ou esconde segredo.
Pela primeira vez em dias, quase ri.
— E qual dos dois você acha que eu sou?
Ela estudou meu rosto como quem resolve um quebra-cabeça.
— Com certeza segredo.
Do outro lado do corredor, a mulher que viajava com ela enrijeceu de repente.
Tinha cabelo escuro, olhos cansados, e a expressão ansiosa de alguém carregando muito mais do que uma mala.
— Lila — disse ela, baixinho. — Seja educada.
— Eu tô sendo educada — respondeu a menina, antes de olhar de volta para mim.
— O senhor se importa se eu sentar aqui?
— Eu teria dito, se me importasse.
Ela sorriu, largo.
— Ótimo. Porque eu já sentei.
O nome dela era Lila Walsh.
Seis anos.
Engraçada, destemida, e estranhamente familiar de um jeito que eu não sabia explicar.
— Walsh — repeti.
A mulher do outro lado do corredor congelou.
— Esse é o sobrenome da minha mãe — disse Lila. — Eu uso o dela porque meu pai não tá por perto.
Alguma coisa se apertou dolorosamente dentro do meu peito.
— E seu pai?
Ela se virou para a janela do avião, mesmo estando ainda parados no portão de embarque.
— Eu não conheço ele.
A voz dela continuou calma, mas eu ouvi a tristeza por baixo.
— Minha mãe diz que tem gente que vai embora antes mesmo de você ter a chance de pedir pra ficar.
As palavras me atingiram mais forte do que deveriam.
— Isso é difícil de ouvir, para uma criança.
Ela me olhou de volta, com uma sinceridade de partir o coração.
— É mais difícil ser a criança que nunca teve a chance de conhecer o pai.
Pela primeira vez, fiquei sem resposta.
O homem que sempre tinha uma resposta ficou sem palavras.
Enquanto o avião taxiava em direção à pista, Lila tirou um caderninho da mochila. A capa era decorada com adesivos de estrela desbotados, e dentro havia um desenho a giz de cera de três pessoas.
Uma mulher de cabelo escuro.
Uma menininha de cabelo cacheado.
E um homem alto, de terno preto, parado um pouco afastado das outras duas.
Não consegui parar de olhar para o desenho.
— Esse é meu pai — sussurrou ela.
Franzi a testa.
— Mas você acabou de me dizer que nunca o viu.
Ela baixou os olhos, traçando o desenho suavemente com um dedo.
— Nunca vi mesmo.
— Então… eu imaginei como ele deve ser.
O avião subiu na noite, mas eu mal notei as luzes de Nova York desaparecendo lá embaixo.
Havia algo naquela menininha que se recusava a me deixar em paz.
Cerca de trinta minutos depois, a aeronave sacudiu violentamente.
A cabine tremeu com força suficiente para arrancar suspiros dos passageiros.
Sem hesitar, Lila agarrou minha manga.
— Eu não gosto disso.
O instinto tomou conta antes mesmo do pensamento.
Envolvi a mão dela com a minha.
— Você está segura — falei.
Ela ergueu os olhos para mim.
E, por um instante impossível, vi meus próprios olhos me encarando de volta.
Antes que eu conseguisse entender por quê, a mulher do outro lado do corredor se inclinou para frente. O rosto dela tinha ficado completamente pálido, e as mãos tremiam sem controle.
— Luca… — sussurrou ela.
Cada músculo do meu corpo travou.
Lágrimas encheram os olhos dela.
— Por favor… não me odeia.
E depois de seis anos acreditando que tinha perdido tudo o que importava…
Percebi que o maior segredo da minha vida estava sentado a apenas alguns passos de mim o tempo todo.
