Chapter 2
— Kate — falei, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — Do que você está falando?
A turbulência sacudiu o avião novamente, e Lila apertou minha mão com mais força, os olhos arregalados de medo.
— Vai ficar tudo bem, princesa — falei para ela, automaticamente, sem nem pensar nas palavras, como se meu corpo já soubesse como confortar aquela criança antes mesmo da minha mente processar o que estava acontecendo.
Kate desafivelou o cinto, apesar do aviso luminoso ainda aceso, e se ajoelhou no corredor ao lado da nossa fileira, as mãos tremendo tanto que mal conseguia se apoiar.
— Luca, eu posso explicar.
— Explicar o quê, Kate? Que você desapareceu há seis anos sem uma palavra? Que escondeu minha filha de mim?
— Sua filha? — repetiu Lila, olhando entre nós dois, a confusão estampada no rosto infantil. — Mãe, do que ele está falando?
O coração dela batia visivelmente através da blusinha amarela, e percebi, tarde demais, que aquela não era conversa para os ouvidos de uma criança de seis anos, muito menos no meio de uma turbulência a dez mil metros de altitude.
— Lila, querida — disse Kate, tentando manter a voz calma, apesar do pânico evidente em seus olhos. — Lembra que mamãe te contou que seu pai não sabia onde a gente estava?
Lila assentiu devagar.
— Este é ele, não é?
Kate fechou os olhos, uma única lágrima escapando.
— É ele, sim.
Lila se virou para mim, estudando meu rosto com a mesma atenção destemida de antes, mas agora carregada de um peso que nenhuma criança deveria precisar carregar.
— O senhor é meu pai de verdade?
Senti como se o chão do avião tivesse desaparecido sob meus pés, mesmo estando a milhares de metros de qualquer chão.
— Parece que sim — consegui responder, a voz embargada de um jeito que eu não sentia desde a morte do meu próprio pai.
A turbulência finalmente cessou, e o comandante anunciou, pelo alto-falante, que o pior tinha passado, mas ninguém na nossa fileira parecia se importar com aquilo.
— Precisamos conversar — falei para Kate, minha voz agora mais controlada, mas carregada de uma exigência que não admitia recusa. — Assim que pousarmos.
— Luca, não é tão simples quanto parece.
— Seis anos, Kate. Você teve seis anos para explicar. Agora não tem mais escolha.
Ela assentiu, derrotada, voltando para seu assento, os olhos vidrados fixos na janela escura, evitando meu olhar pelo resto do voo.
Lila permaneceu ao meu lado, ainda segurando minha mão, mas agora em silêncio, processando à sua própria maneira infantil a bomba que tinha acabado de explodir em sua vida.
— Você é bravo? — perguntou ela, baixinho, depois de um longo tempo.
— Bravo como?
— Tipo, do tipo que machuca as pessoas.
A pergunta me atingiu como um soco no estômago.
— Nunca machucaria você, Lila. Nem sua mãe. Isso eu prometo.
Ela pareceu considerar minha resposta com uma seriedade impressionante para sua idade.
— Tá bom. Eu acredito no senhor.
Aquelas simples palavras, vindas de uma criança que eu tinha acabado de conhecer, pesaram mais do que qualquer contrato multimilionário que eu já tinha assinado na vida.
Quando o avião finalmente pousou em Nova York, ficou claro que aquela noite estava longe de terminar.
