Chapter 6
As semanas seguintes foram de reconstrução silenciosa.
Com Alessandro preso e os documentos entregues às autoridades certas — aquelas que, segundo Luca, “sabiam quando fechar os olhos e quando realmente agir” —, a rede de influência de Vittorio Rossi começou a desmoronar peça por peça.
Meu pai, quando finalmente soube da verdade completa através de uma ligação difícil, chorou ao telefone, pedindo desculpas por décadas de silêncio, por ter carregado sozinho um peso que quase destruiu a vida da própria filha.
— Você não tinha escolha, pai — falei, e pela primeira vez, acreditei genuinamente nas próprias palavras.
Vittorio Rossi, sem seu homem infiltrado e com metade dos seus planos expostos, recuou pra sombras, ainda perigoso, mas visivelmente enfraquecido, vigiado de perto por aliados que Luca e Elena tinham cultivado nos bastidores durante anos.
Numa manhã, meses depois de tudo aquilo, encontrei Luca na cozinha, tentando, sozinho dessa vez, reproduzir o bolo torto que tínhamos feito juntos no início de tudo.
— Está péssimo — falei, olhando pro resultado desalinhado na bancada.
— Está pior que da primeira vez.
— Impossível. Da primeira vez pelo menos tinha uma desculpa: você tava tentando impressionar sua esposa arranjada.
— E agora?
— Agora você só é ruim de cozinha mesmo, sem desculpa nenhuma.
Ele riu, aquela risada completa, sem guarda nenhuma, que eu tinha aprendido a amar nas últimas semanas.
— Sophia — ele disse, ficando sério de repente, limpando as mãos no pano de prato antes de se aproximar. — Eu sei que nosso casamento começou como um esquema montado por um homem que queria nos destruir.
— Eu sei.
— Mas eu não quero mais que ele seja definido por isso.
— O que você está tentando dizer, Luca Moretti?
Ele se ajoelhou ali mesmo, na cozinha bagunçada de farinha, segurando minhas mãos com aquele cuidado exagerado que eu já reconhecia como parte dele.
— Quero casar com você de novo. De verdade, dessa vez. Sem dívida, sem ameaça, sem Vittorio Rossi puxando os fios por trás. Só porque eu escolho você, e espero que você ainda escolha a mim.
Senti os olhos encherem de lágrimas, e ri no meio delas, do jeito desajeitado que definia praticamente tudo que eu fazia desde que tinha chegado naquela propriedade.
— Eu não vim aqui pra me casar com um chefe de máfia perfeito, Luca. Vim tropeçar na minha própria mala e, sem querer, encontrar alguém que nunca esperou ser amado do jeito que merecia.
— Isso é um sim?
— Isso é um “sim, de novo, e sem tropeçar dessa vez” — respondi, rindo enquanto ele se levantava e me girava no ar, os dois cobertos de farinha, rindo alto o suficiente pra Elena aparecer na porta da cozinha, balançando a cabeça, sorrindo pela primeira vez sem nenhuma sombra de preocupação por trás dos olhos.
Casamos de novo, três meses depois, numa cerimônia pequena, sem pressa, sem dívidas pendentes, só família de verdade e algumas velas acesas por escolha, não por falta de gerador.
Dessa vez, quando ele colocou a aliança no meu dedo, as mãos dele não tremeram de medo.
Tremeram de outra coisa completamente diferente.
E, olhando em volta daquela capela pequena, entendi que às vezes a vida nos coloca nos lugares mais improváveis — uma mala arrastada por um corredor de mármore frio — só pra nos mostrar que o amor de verdade nunca precisa de motivo perfeito pra começar, só de coragem suficiente pra continuar depois que a verdade aparece.
Quantas vezes você já julgou rápido demais alguém, só de olhar, antes de realmente conhecer a pessoa por trás da primeira impressão?
