Chapter 2
Elena não teve tempo de dizer mais nada.
Um homem mais velho, de terno cinza e postura rígida de quem trabalhava naquela casa havia décadas, apareceu no corredor.
— Signorina Moretti, seu pai está chamando.
Elena apertou minha mão de leve, um gesto rápido, quase escondido.
— Depois — ela sussurrou. — Encontro você depois da cerimônia.
E se foi, deixando a frase pendurada no ar como uma faca equilibrada na ponta da mesa.
Luca observou a irmã se afastar com uma ruga entre as sobrancelhas.
— O que ela disse pra você?
— Nada que eu tenha entendido direito — menti, porque alguma coisa me dizia que não era hora de expor a Elena.
Ele me estudou por um segundo, como se soubesse que eu estava escondendo algo, mas decidisse não insistir.
— Vamos precisar nos casar hoje à noite — ele disse, sem rodeios. — Sei que não é o ideal.
— “Ideal” seria eu ter conhecido seu nome antes de aterrissar na Itália, mas prossegue.
Ele quase sorriu de novo.
— Você pode recusar. Ainda dá tempo.
— Meu pai deve alguma coisa gigantesca pra sua família, não deve?
— Deve.
— E se eu recusar, o que acontece com ele?
Luca hesitou, e aquela hesitação me disse mais do que qualquer resposta direta.
— Prefiro não usar isso como argumento pra te convencer.
— Mas é a verdade.
— É.
Respirei fundo, olhando pro salão enorme ao redor, pros homens de terno escuro espalhados pelos cantos, pra irmã dele que tinha acabado de me alertar sobre algo que o próprio Luca não sabia.
— Tudo bem — falei. — Eu caso.
Ele me olhou como se esperasse uma pegadinha.
— Só assim? Sem mais perguntas?
— Ah, eu tenho um milhão de perguntas. Só decidi guardar a maioria pra depois da cerimônia, porque imagino que você não vá me responder nenhuma agora mesmo.
— Você é estranha, Sophia Bennett.
— Faço bolos de três andares sozinha, sem ajudante, numa cozinha de trinta metros quadrados. “Estranha” é o mínimo.
A cerimônia aconteceu naquela mesma noite, numa capela pequena de pedra dentro dos limites da propriedade, iluminada só por velas porque, segundo Marco, “gerador estava em manutenção” — desculpa que ninguém ali realmente acreditou.
O padre falou rápido, em italiano e inglês misturados, e eu repeti os votos olhando pra um homem que, algumas horas atrás, eu nem sabia o nome.
Quando ele colocou a aliança no meu dedo, suas mãos — enormes, ásperas, cheias de cicatrizes pequenas — tremeram, de leve, quase imperceptível.
Ninguém mais deve ter notado.
Eu notei.
Depois da cerimônia curta, fomos levados pra um quarto no terceiro andar, decorado com um gosto antigo, pesado, cheio de móveis que pareciam mais velhos que o próprio país.
A porta fechou, e de repente éramos só nós dois, marido e mulher havia vinte minutos, estranhos havia a vida inteira.
— Você pode dormir na cama — ele disse, tirando o paletó, pendurando com um cuidado exagerado numa cadeira. — Eu fico no sofá.
— A gente é casado há vinte minutos e você já tá dormindo no sofá? Isso é recorde até pra padrões de casamento arranjado.
— Não vou forçar nada com você, Sophia.
— Eu sei que não vai.
Ele me olhou, surpreso com a certeza na minha voz.
— Como você sabe?
— Porque você trava o corpo inteiro toda vez que espera ser rejeitado, mas nunca uma vez sequer travou o corpo pensando em me machucar. São coisas bem diferentes, Luca.
Ele ficou em silêncio por um longo momento, sentado na beirada do sofá, os cotovelos nos joelhos, olhando pro chão.
— As outras mulheres… — comecei, hesitante. — O que aconteceu com elas?
— Uma chorou na cerimônia, na minha frente, na frente de toda a minha família. Duas fugiram antes mesmo de chegar até a casa. Uma me disse, na nossa lua de mel, que preferia ser viúva do que continuar casada comigo.
— Isso é cruel.
— Isso é honesto. As pessoas costumam ser honestas quando acham que já conseguiram o que queriam.
— E o que elas queriam?
— O nome Moretti. O dinheiro. A proteção. Só não me queriam junto do pacote.
Sentei na cama, tirando os sapatos, sentindo o peso do dia inteiro finalmente descer sobre mim.
— Bom, eu ainda não decidi se te quero — falei, tentando aliviar o peso da conversa. — Mas definitivamente não é por causa do seu tamanho. Isso eu já posso garantir.
Ele levantou os olhos, e pela primeira vez desde que eu tinha chegado, vi algo diferente ali.
Não mais a espera pela rejeição.
Curiosidade genuína.
— Então por causa de quê seria?
— Ainda não sei. Talvez o jeito que você trata sua irmã. Talvez o jeito que suas mãos tremeram na hora da aliança. Vou te avisar quando eu descobrir o resto.
Ele apagou a luz principal, deixando só o abajur aceso, e se deitou no sofá, grande demais pro móvel, os pés praticamente pendurados na beirada.
— Boa noite, Sophia Bennett.
— Boa noite, Luca Moretti.
Fiquei olhando pro teto por um bom tempo, pensando na expressão de Elena, na frase que ela tinha deixado pela metade, e numa sensação estranha de que eu tinha acabado de entrar em algo bem maior do que um simples casamento arranjado.
