Chapter 4
Duas semanas depois, Elena me chamou pro jardim nos fundos da propriedade, longe de ouvidos e câmeras.
— Preciso te mostrar uma coisa — ela disse, entregando um envelope pardo, amassado nas bordas.
Abri devagar.
Dentro, fotografias, documentos, e uma carta antiga, com a caligrafia apressada de alguém escrevendo sob pressão.
— Isso é…
— Prova. Finalmente. Um dos homens de confiança do meu pai, há vinte anos, guardou registros de tudo. Ele morreu no mês passado e deixou isso pra mim, junto com um bilhete dizendo que “a verdade merecia sair, antes que fosse tarde demais pra outra geração pagar pelos erros da anterior”.
Folheei os documentos, sentindo o estômago revirar a cada página.
Contratos forjados.
Assinaturas falsificadas do meu próprio pai, coagido, ameaçado, décadas atrás, numa situação que ele nunca teve coragem de me contar.
E, no fundo do envelope, uma foto de Vittorio Rossi apertando a mão de um homem que eu reconheci imediatamente.
O advogado da família Moretti.
— Elena, isso significa que…
— Significa que tem alguém dentro da própria organização do meu pai trabalhando pro Vittorio. Alguém perto o suficiente pra ter acesso direto à Luca.
Meu sangue gelou.
— Precisamos contar pra ele. Agora.
— Eu sei. Só queria que você estivesse ao lado dele quando ele descobrisse. Porque essa verdade vai doer de um jeito que eu nunca vi meu irmão sentir antes.
Encontramos Luca no escritório, debruçado sobre planilhas, alheio a tudo.
Quando Elena colocou o envelope na mesa dele, sem dizer uma palavra, algo na expressão dela já avisava que era grave.
Ele leu em silêncio, página por página, o rosto ficando cada vez mais pálido, mais duro, como pedra esculpida em tempo real.
Quando terminou, ficou parado, as mãos apoiadas na mesa, tremendo — não do jeito gentil que eu tinha visto na cerimônia, mas de um jeito perigoso, contido.
— O advogado da família — ele disse, a voz baixa demais, controlada demais. — Está com a gente desde que eu tinha doze anos.
— Luca…
— Ele estava na mesa de Natal ano passado. Segurou meu sobrinho recém-nascido no colo.
— Eu sei que é difícil — falei, dando um passo na direção dele.
Ele se afastou, não de mim especificamente, mas de tudo, de todo mundo, o corpo inteiro se fechando como uma porta batendo.
— O casamento inteiro foi uma armadilha — ele disse, olhando pra mim agora, e havia algo quebrado ali que eu nunca tinha visto. — Você foi usada. Eu fui usado. Nossas famílias inteiras foram peões num jogo que eu nem sabia que estava sendo jogado.
— Isso não muda o que a gente construiu nessas semanas.
— Não muda? — ele quase gritou, a voz rachando. — Sophia, eu te fiz casar comigo achando que estava salvando o seu pai de uma dívida legítima. E na verdade, eu só te transformei em mais uma peça no tabuleiro de um homem que quer destruir minha família há décadas.
— Então vamos impedir isso.
— Como?
— Não sei ainda. Mas não vou fugir agora só porque a verdade dói.
Ele me olhou por um longo momento, os punhos ainda cerrados, a raiva ainda visível, mas algo nos olhos dele suavizando, devagar.
— Vittorio vai descobrir que sabemos — Elena interrompeu, séria. — E quando descobrir, vai agir rápido, antes que a gente consiga se proteger direito.
Como se as palavras dela fossem uma profecia, o telefone de Luca vibrou na mesa.
Ele olhou a tela, e o pouco sangue que restava no rosto dele desapareceu completamente.
— O que foi? — perguntei.
— É o advogado — ele disse, devagar. — Ele está pedindo uma reunião de emergência. Hoje à noite. Aqui, na propriedade.
Elena e eu trocamos um olhar carregado.
— Isso é uma armadilha — ela disse.
— Eu sei — Luca respondeu, guardando o telefone, o rosto endurecendo numa determinação fria que eu ainda não tinha visto nele. — E dessa vez, nós vamos estar preparados pra ela.
