Chapter 2
Elena me puxou pelo braço até uma saleta ao lado da escadaria, longe dos ouvidos de Marco e dos outros homens de terno.
— Fala rápido — eu disse, o coração batendo forte. — Porque, pelo visto, tem um padre esperando lá fora.
— As cinco mulheres antes de você não foram embora por causa do tamanho dele.
Eu pisquei.
— Como assim?
— Foram embora porque descobriram, no meio do processo, que esse casamento nunca foi só sobre amor ou conveniência. Meu pai fez um acordo com o pai dela há vinte anos.
— Meu pai?
Elena assentiu, os olhos duros.
— Seu pai devia dinheiro à nossa família. Muito dinheiro. E, em vez de pagar, ofereceu outra coisa no lugar.
Meu estômago revirou.
— Ofereceu o quê?
— Uma filha. Você, Sophia. Desde que você tinha sete anos.
O chão pareceu se mover sob meus pés.
— Isso é… isso não pode ser verdade.
— É verdade. E o motivo de as outras terem ido embora foi descobrir isso na pior hora possível — no meio da cerimônia, ouvindo por acidente, sentindo que eram só mercadoria trocada por uma dívida.
— E por que você está me contando isso agora, antes de eu descobrir “por acidente”?
Elena olhou pra porta, verificando se estava mesmo sozinha comigo.
— Porque meu irmão não sabe que eu sei de tudo isso. E porque, pela primeira vez em cinco tentativas, ele está olhando pra alguém como se não quisesse que ela fosse embora.
Aquilo me pegou de jeito.
— Ele nem me conhece.
— Ele te conhece o suficiente pra saber que você é diferente. As outras chegaram com raiva. Você chegou tropeçando na própria mala e rindo de si mesma.
Fiquei em silêncio, processando tudo.
— Eu tenho escolha nisso? — perguntei, finalmente. — Ou já está tudo decidido, de qualquer jeito?
— Você sempre teve escolha, Sophia. Só ninguém nunca te contou isso antes.
Voltei para o corredor principal, encontrando Luca parado perto da porta da capela improvisada, as mãos nos bolsos, o olhar cauteloso.
— Elena te contou — ele disse, sem ser pergunta.
— Contou.
— E aí?
Encarei ele, tentando entender o que via ali: um homem enorme, poderoso, temido pelo que aparentava — mas com os ombros levemente curvados, como se já esperasse o pior.
— Meu pai me vendeu por uma dívida — eu disse, a voz tremendo só um pouco. — Isso é humilhante de um jeito que eu nunca imaginei sentir.
— Eu sei — ele respondeu, baixo. — E eu odeio isso tanto quanto você.
— Então por que você aceitou?
— Porque, há vinte anos, foi a única forma que encontrei de impedir meu pai de fazer coisa pior com a família do seu.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Pior como?
Luca hesitou, como se estivesse decidindo o quanto podia confiar em mim tão cedo.
— Meu pai queria cobrar a dívida de outro jeito. Um jeito que não envolvia casamento nenhum.
Um arrepio passou pela minha espinha.
— Você está dizendo que me casar com você foi… uma proteção?
— Estou dizendo que, dos jeitos possíveis dessa história terminar, esse foi o único onde ninguém saía machucado.
Ficamos ali, em silêncio, o peso da revelação pairando entre nós.
— Eu ainda posso dizer não — falei, mais pra mim mesma do que pra ele.
— Pode. E, se disser, eu vou aceitar, e vou garantir que você e seu pai fiquem em segurança de qualquer jeito.
Aquilo era o oposto de tudo que eu esperava ouvir de um chefe da máfia.
— Por que você faria isso?
— Porque ninguém nunca deveria ser forçado a ficar comigo só por dívida. Se ficar, que seja porque quis.
O padre apareceu na porta da capela, pigarreando gentilmente.
— Signor Moretti, Srta. Bennett… estamos prontos, quando vocês estiverem.
Olhei pra Luca, pra aquele homem enorme com o olhar de quem já tinha se acostumado a ser rejeitado, e senti algo se firmar dentro de mim — não certeza total, mas uma decisão.
— Vamos casar — eu disse. — Mas quero a verdade, sempre. Nada de segredos guardados até “por acidente”.
Um lampejo de alívio genuíno cruzou o rosto dele, o primeiro que vi de verdade.
— Combinado.
Entramos juntos na capela, e, pela primeira vez desde que cheguei àquela montanha, senti que talvez aquele destino imposto pudesse, de algum jeito, se transformar em escolha.
