Chapter 4
Os homens de Luca vasculharam a cidade a noite inteira, mas foi só na manhã seguinte que a verdade começou a aparecer, peça por peça, como um quebra-cabeça sombrio.
— Encontramos o carro do seu pai — Marco informou, entrando na sala de reuniões onde Luca e eu esperávamos havia horas. — Abandonado perto do porto. Sem sinal dele.
— E as câmeras da região? — Luca perguntou, a voz tensa.
— Mostram ele entrando num carro preto, por vontade própria, ao que parece. Mas tem outra coisa, Signor Moretti.
Marco hesitou, olhando pra mim antes de continuar.
— O carro pertence à família Contini.
O nome pareceu atingir Luca fisicamente, os ombros dele enrijecendo.
— Quem é a família Contini? — perguntei.
Luca respirou fundo antes de responder.
— Rivais antigos do meu pai. A dívida que seu pai tinha conosco… não era só conosco, Sophia. Era uma dívida triangular. Ele devia dinheiro pros Contini primeiro, e nós cobrimos essa dívida em nome dele, há vinte anos, em troca do acordo do nosso casamento.
O chão pareceu ceder mais uma vez sob meus pés.
— Então meu pai nunca pagou vocês. Ele só trocou uma dívida por outra, usando a mim como moeda pros dois lados?
— Parece que sim. E os Contini devem ter descoberto, de algum jeito, que a dívida original nunca foi realmente quitada da forma como pensávamos.
Senti raiva, tristeza e humilhação, tudo ao mesmo tempo, mas empurrei aquilo pra depois.
— O que os Contini querem agora?
— Provavelmente, dinheiro. Ou… — Luca hesitou — provavelmente você, de volta, como parte do pagamento que consideram ainda pendente.
Um arrepio gelado percorreu meu corpo.
— Eles não vão me tocar — Luca continuou, a voz baixa e perigosa. — Nem no meu pior dia como Moretti, eu deixaria isso acontecer.
Naquela tarde, recebemos uma ligação. Um homem com sotaque forte, se identificando como representante dos Contini.
— Queremos uma reunião — a voz disse, fria. — Você, Moretti, e a moça. Amanhã, no antigo píer.
— E o pai dela?
— Ele fica conosco até resolvermos os termos.
A ligação caiu antes que Luca pudesse responder.
— Eu vou com você — falei, decidida.
— Não. É perigoso demais.
— Ele é meu pai, Luca. Por pior que tenha sido a escolha dele, eu não vou ficar em casa esperando notícias.
Luca me encarou por um longo momento, algo entre frustração e respeito crescendo na expressão dele.
— Se você for, fica ao meu lado o tempo todo. Nem um passo de distância.
— Combinado.
Naquela noite, antes do confronto, Luca veio até meu quarto, algo raro desde o casamento apressado.
— Preciso te dizer uma coisa, antes de amanhã — ele disse, a voz mais vulnerável do que eu já tinha ouvido.
— Fala.
— Se alguma coisa der errado amanhã, eu preciso que você saiba que isso — ele gesticulou entre nós dois — deixou de ser sobre dívida ou acordo há muito tempo, pra mim.
Meu coração disparou.
— Luca…
— Deixa eu terminar. Eu passei minha vida inteira sendo o homem que ninguém escolhia por vontade própria. E, mesmo com tudo isso desabando ao nosso redor, você é a primeira coisa, em muito tempo, que eu realmente não quero perder.
Aproximei-me dele, tocando o rosto dele com cuidado.
— Então amanhã a gente luta por isso. Pelos dois.
Ele segurou minha mão contra o rosto, fechando os olhos por um instante.
— Amanhã a gente luta.
