Chapter 2
Jude guardou o celular no bolso e estendeu a mão para mim, com um cuidado que contrastava completamente com o frio na voz dele minutos antes.
— Consegue ficar em pé?
— Acho que sim.
Não conseguia.
As pernas cederam assim que tentei apoiar o peso, e foi só o braço dele passando pela minha cintura que me manteve de pé.
— Vou te levar até a ala médica da casa primeiro.
— Não. — Segurei a manga do terno dele com a mão boa. — Eu quero ver.
Ele parou, me olhando por um segundo longo.
— Você não precisa ver nada, Audrey.
O fato de ele saber meu nome me pegou de surpresa. Em três anos trabalhando ali, eu tinha certeza de que era só mais um rosto uniformizado para ele.
— Eu preciso — insisti. — Preciso ver a cara deles quando perceberem que fizeram besteira com a pessoa errada.
Alguma coisa que quase parecia um meio-sorriso passou pelo rosto dele.
— Tudo bem.
Descemos as escadas principais, eu mancando, o braço esquerdo imobilizado contra o peito com o próprio blazer dele, que tinha tirado sem dizer nada e colocado sobre meus ombros no caminho.
O salão de baile estava do jeito que sempre ficava àquela hora da noite: taças de champanhe, risadas fáceis, gente rica fingindo que o mundo lá fora não existia.
Até Jude bater palmas, uma vez, alto.
A música parou.
Todos os olhos se viraram.
— Boa noite — ele disse, a voz carregando por todo o salão sem precisar gritar. — Peço desculpas pela interrupção, mas temos um assunto urgente para resolver antes que qualquer um de vocês vá embora.
Um burburinho nervoso passou pela multidão.
Bryce Whitmore, ainda com a taça na mão, riu, tentando parecer confiante na frente dos amigos.
— Jude! Achei que você nunca descia para as próprias festas.
— Normalmente não desço.
Jude caminhou até o centro do salão, e eu fiquei parada na entrada, apoiada no batente da porta, vendo o jeito como as pessoas se afastavam dele automaticamente, como água se abrindo.
— Vocês oito — Jude disse, sem nem precisar apontar. Bryce e os sete amigos estavam agrupados perto do bar, e o sorriso de cada um foi murchando ao perceber que era com eles que ele falava. — Larguem as bebidas.
— Do que você está falando? — um deles, mais alto, de cabelo grisalho nas têmporas apesar da idade jovem, perguntou.
— Estou falando de uma funcionária minha que está com o ombro deslocado e o lábio cortado porque vocês acharam engraçado.
O salão inteiro prendeu a respiração.
Bryce empalideceu.
— Isso é… isso é um mal-entendido, Jude. A gente só…
— Vocês só o quê? — Jude deu um passo à frente, e pela primeira vez naquela noite, a voz dele perdeu qualquer traço de educação. — Só a encurralaram no corredor de serviço? Só bateram nela? Só deslocaram o braço dela enquanto ela tentava se defender?
— Ela está mentindo — outro dos amigos gritou, nervoso. — Empregada mente o tempo todo pra conseguir dinheiro de gente como a gente.
Foi a vez de Jude olhar para mim, do outro lado do salão, e depois de volta para o grupo.
— Ela não me disse uma palavra sobre dinheiro. Só me disse a verdade.
— O pai do Bryce é juiz federal — o mesmo homem insistiu, agora claramente tentando usar aquilo como escudo. — Você não tem ideia do problema que está criando pra si mesmo.
Jude riu. Um som seco, sem nenhuma alegria.
— Vocês realmente acham que eu me importo com quem é o pai de vocês?
Silêncio total.
— Deixa eu explicar uma coisa sobre como esse mundo funciona — Jude continuou, caminhando devagar entre eles, como um predador escolhendo qual presa atacar primeiro. — Eu não construí o que tenho brincando dentro das regras que vocês herdaram dos seus pais. Eu construí isso aprendendo exatamente onde cada um de vocês, e das famílias de vocês, escondeu os corpos financeiros e políticos que não querem que ninguém encontre.
Bryce engoliu em seco.
— Você está blefando.
— Estou?
Jude tirou o celular do bolso outra vez, mas dessa vez só para checar a hora.
— Em exatamente doze minutos, cada porta dessa casa vai estar trancada, com segurança armada em cada saída. Ninguém entra, ninguém sai, até a polícia chegar. E quando ela chegar, eu já vou ter entregado tudo que preciso entregar sobre o que aconteceu com Audrey esta noite.
— Jude, pensa bem — o pai de um dos rapazes, que também estava na festa, se aproximou, tentando negociar. — Isso pode destruir a carreira do meu filho, a reputação da família inteira…
— Deviam ter pensado nisso antes de deixar seus filhos acharem que podiam machucar quem quisessem sem consequência.
Olhei para aquela cena, o coração ainda acelerado, a dor no ombro latejando junto com cada batida, mas pela primeira vez em muito tempo, senti alguma coisa que não era medo.
Era esperança.
