Chapter 3
A polícia demorou vinte e três minutos para chegar — eu sei porque contei cada um deles, sentada numa poltrona da biblioteca da mansão enquanto um paramédico examinava meu ombro.
Jude não saiu do meu lado nenhuma vez.
— Vai doer — o paramédico avisou, preparando a manobra para recolocar o ombro no lugar.
— Eu sei — respondi, já apertando os dentes.
Jude segurou minha mão boa sem eu pedir.
O estalo veio junto com uma dor tão forte que gritei de novo, mas dessa vez, quando terminou, senti um alívio imediato — a pressão insuportável finalmente indo embora.
— Pronto — o paramédico disse. — Vai precisar de uma tipoia por algumas semanas, mas vai ficar bem.
Jude assentiu, os olhos ainda fixos em mim como se estivesse verificando cada detalhe.
— Obrigada — falei para ele, baixinho. — Por não ter esperado eu pedir ajuda.
— Eu deveria ter percebido antes — ele respondeu, a voz carregada de alguma coisa que parecia culpa. — Três anos você trabalha nessa casa e eu nunca soube o suficiente sobre você para perceber quando algo estava errado.
Antes que eu pudesse responder, um dos seguranças de Jude bateu na porta da biblioteca.
— Senhor, o pai do Bryce Whitmore está aqui. Diz que é urgente.
Jude trocou um olhar comigo.
— Quer que eu mande ele embora?
— Não — respondi, surpreendendo a mim mesma. — Deixa ele entrar. Eu quero ouvir o que ele tem a dizer.
O juiz federal Whitmore entrou na biblioteca como um homem acostumado a intimidar salas inteiras só com a presença — mas alguma coisa no rosto de Jude parecia deixar até ele mais cauteloso.
— Senhorita Sinclair — ele começou, a voz cuidadosamente educada. — Antes de qualquer coisa avançar, eu gostaria de resolver isso de uma forma mais… discreta.
— Discreta como? — perguntei.
— Um acordo financeiro. Generoso. Em troca de você reconsiderar prestar queixa formal.
Senti o sangue esquentar no rosto.
— Seu filho deslocou meu ombro, juiz Whitmore. Na frente de sete testemunhas que ajudaram ele.
— Meu filho é jovem. Cometeu um erro sob efeito de álcool.
— Ele quebrou meu ombro, cortou meu lábio, e ainda por cima riu enquanto fazia isso.
O juiz olhou para Jude, procurando algum tipo de aliado.
— Jude, você conhece minha família há anos. Certamente entende que existe uma forma civilizada de resolver isso sem envolver a imprensa, sem manchar reputações desnecessariamente.
Jude ficou em silêncio por um momento longo demais, e por uma fração de segundo eu me perguntei se ele ia ceder — se todo aquele discurso no salão tinha sido só teatro, uma exibição de poder que se desfaria diante do primeiro pedido educado de um homem da mesma classe social.
Então ele falou.
— A única forma civilizada de resolver isso, juiz, é seu filho e os sete amigos dele enfrentarem exatamente as consequências que qualquer pessoa comum enfrentaria se tivesse feito o mesmo. Nenhuma a menos.
O rosto do juiz endureceu.
— Você está cometendo um erro. Eu tenho conexões que…
— Eu sei exatamente quais conexões você tem — Jude interrompeu, a voz calma, quase entediada. — Sei quais delas envolvem contribuições de campanha que talvez não devessem ter sido feitas do jeito que foram feitas. Sei sobre aquele terreno em Westchester que sua família comprou por um preço bem abaixo do mercado, na mesma semana em que você julgou um caso convenientemente a favor do vendedor.
O juiz empalideceu.
— Isso é… como você…
— Eu sei de tudo, juiz Whitmore. Sei há anos. Nunca usei porque nunca precisei. Mas seu filho decidiu que era divertido machucar uma mulher que trabalha na minha casa, então agora eu preciso.
O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para cortar.
— Você está blefando — o juiz disse, mas a voz tremeu ao contrário das palavras.
— Estou? — Jude perguntou, exatamente como tinha perguntado a Bryce horas antes. — Sinta-se à vontade para descobrir.
O juiz olhou para mim, pela primeira vez com alguma coisa parecida com súplica genuína.
— Senhorita Sinclair, por favor. Reconsidere.
Olhei para ele, para o terno caro, para o relógio que provavelmente valia mais do que eu ganhava em cinco anos, e senti todos os momentos em que tinha engolido humilhação para manter meu emprego subirem de uma vez.
— Não.
Foi só isso que eu disse.
O juiz saiu da biblioteca sem mais uma palavra, e assim que a porta se fechou, senti as mãos tremendo — não de medo, mas do peso de ter finalmente dito uma palavra que valia por três anos de silêncio.
