Chapter 2
Della não dormiu bem naquela noite.
Ficou repassando a frase de Victor mentalmente — “claramente não vai ser o Damian” — tentando entender o que ela significava de verdade.
Na manhã seguinte, chegou ao escritório mais cedo que o normal, antes mesmo da equipe de limpeza terminar o turno.
Queria tempo sozinha com os arquivos, sem ninguém por perto.
Desceu até a sala de arquivos, dois andares abaixo, usando as chaves que Damian nunca tinha pedido de volta.
O ar ali sempre cheirava a papel velho e poeira de caixas fechadas havia anos.
Procurou pelos registros anteriores da rota Kestrel, tentando encontrar um padrão.
Não demorou muito.
Encontrou três outras discrepâncias semelhantes, todas nos últimos oito meses.
Todas aprovadas pela mesma assinatura.
A de Victor Cole.
Seu coração acelerou.
Ela fotografou cada página com o celular, discretamente, sem tocar em nada que pudesse indicar que alguém tinha estado ali.
Ao sair, quase esbarrou em Vanessa Cole, parada no corredor, os braços cruzados.
“O que você está fazendo aqui tão cedo?”, Vanessa perguntou, o tom displicente demais para ser inocente.
“Organizando uns arquivos antigos”, respondeu Della, mantendo a voz neutra.
Vanessa a olhou de cima a baixo, o mesmo sorriso de sempre.
“Você devia descansar mais. Trabalhar tanto assim não é saudável.”
Havia algo na frase que soava menos como preocupação e mais como aviso.
Della apenas assentiu e seguiu para o elevador, sentindo os olhos de Vanessa nas costas até a porta se fechar.
Naquela tarde, Priya apareceu na mesa dela com o café de sempre, mas o rosto tenso.
“Você andou perguntando sobre a Kestrel para a alfândega”, Priya disse baixinho, inclinando-se sobre a mesa. “Isso já chegou aos ouvidos errados.”
“Como você sabe disso?”
“Porque o Victor perguntou para a minha supervisora se alguém do financeiro tinha feito ligações externas essa semana”, Priya sussurrou. “Della, seja lá o que você encontrou, tenha cuidado.”
Della sentiu um arrepio subir pela espinha.
Guardou o celular com as fotos no fundo da bolsa, ao lado do medalhão de reserva que sempre carregava, e decidiu que precisava agir antes que alguém agisse primeiro.
Naquela noite, esperou até o escritório esvaziar completamente antes de bater à porta de Damian.
Ele ergueu os olhos da mesa, surpreso.
“Della? Pensei que já tivesse ido embora.”
“Precisamos conversar”, ela disse, fechando a porta atrás de si. “É sobre a rota Kestrel.”
Ela colocou o celular na mesa dele e mostrou as fotos, uma por uma, explicando cada discrepância com a mesma clareza que usava para organizar qualquer arquivo.
Damian ouviu em silêncio absoluto, o rosto cada vez mais sério.
“Você tem certeza disso?”, ele perguntou, quando ela terminou.
“Absoluta”, respondeu Della. “Quatro meses de contêineres que não existem oficialmente. Sempre aprovados pela assinatura do Victor.”
Damian ficou em silêncio por um longo momento, olhando para as fotos na tela.
“Meu pai confiava nele”, ele disse, mais para si mesmo do que para ela. “Eu confiava nele.”
“Sinto muito”, disse Della.
“Não sinta”, Damian respondeu, erguendo os olhos para ela. “Sinta-se orgulhosa. Ninguém mais nesta empresa teria notado isso, ou teria coragem de trazer até mim.”
Pela primeira vez em três anos, ele a olhou de um jeito diferente.
Não como um móvel útil.
Como alguém que via.
“Isso é perigoso, Della”, ele disse. “Se o Victor descobrir que você sabe, ele não vai simplesmente deixar por isso mesmo.”
“Eu sei”, ela respondeu, tentando não deixar o medo transparecer na voz.
“A partir de agora, você não sai sozinha deste prédio”, Damian disse, já se levantando. “Vou providenciar segurança discreta.”
“Isso não é exagero?”
“Não”, ele respondeu, sério. “Homens como o Victor não gostam de perder. E ele acabou de perceber que pode perder tudo.”
