Chapter 1
Uma única palavra descuidada transformou a sala mais perigosa e privada de Manhattan num cemitério de silêncio. “Está tudo bem, amor” — eu sussurrei — e, quando o chefe da máfia mais temido de Nova York se levantou da cadeira, se inclinou perto de mim e disse “repete de novo… mais devagar”, eu soube que um único erro podia me custar tudo.
Naquela noite, eu só devia servir drinks.
Aos vinte e seis anos, eu estava terminando o último ano de Direito na NYU, afogada em empréstimo estudantil e mensalidade atrasada. Peguei o turno de emergência no Obsidian Room porque minha irmã, Sarah, tinha ligado do hospital, chorando, dizendo que a filha dela de cinco anos, Lily, precisava de cirurgia antes da meia-noite.
O lounge subterrâneo ficava debaixo de um prédio anônimo em Tribeca, escondido sob um bar exclusivo para sócios. Lá em cima, homens ricos bebiam sob lustres; lá embaixo, homens decidiam quem continuava respirando.
Meu gerente enfiou uma garrafa de Louis XIII nas minhas mãos.
— Mesa Quatro. Não fala, não olha, e, seja lá o que for, não deixa cair nada.
Depois me empurrou pela cortina.
Damian Moretti estava sentado na mesa central, num terno cinza-chumbo, parecendo menos um homem e mais uma sentença de morte. Todo mundo em Nova York conhecia o nome dele — o bilionário do transporte marítimo para os jornais, o Ceifador para quem entendia sobre o que o império dele realmente era construído.
Do outro lado, sentava Lucas Russo, o chefe de cabelos grisalhos de uma família rival. As vozes eram baixas, mas os homens atrás deles mantinham as mãos perto das armas escondidas.
— Você acha que o Brooklyn ainda é seu só porque seu pai fez um acordo há vinte anos? — perguntou Lucas.
Damian mal tocou no copo.
— Eu acho que confundir herança com força é uma forma cara de morrer.
Meus dedos apertaram a bandeja.
De repente, a voz de Sarah estalou no pequeno fone escondido sob meu cabelo.
— Evie, eles estão levando a Lily pra mais exames. Estou apavorada.
Ergui a mão para tirar o mudo, com a intenção de acalmá-la por só um segundo. Bem naquele instante, Damian bateu a palma da mão na mesa, e o som seco me fez estremecer.
A garrafa inclinou.
— Está tudo bem, amor — sussurrei, sem fôlego. — Só respira. Eu estou cuidando disso.
Todo som na sala parou.
Até o pianista congelou.
Devagar, ergui os olhos e percebi que estava olhando direto para Damian Moretti.
O sorriso de Lucas desapareceu. Três seguranças moveram as mãos por baixo dos paletós, enquanto meu gerente parecia prestes a desmaiar atrás da parede de vidro.
— Me desculpe, senhor — gaguejei. — Eu não estava falando com…
Damian se levantou.
Era mais alto do que eu esperava, ombros largos, e assustadoramente calmo. Atravessou a pequena distância entre nós até minhas costas encostarem na borda da mesa.
— Não peça desculpas — ele murmurou perto do meu ouvido.
Ninguém ousou se mexer.
— Repete.
Meu coração batia com força contra as costelas.
— Senhor, eu estava falando com minha irmã.
Ele ergueu um dedo, e a sala inteira obedeceu ao comando silencioso.
Então o canto da boca dele se ergueu.
— Mas mais devagar.
O calor subiu ao meu rosto.
— Minha sobrinha está no hospital. Ela tem cinco anos e precisa de cirurgia hoje à noite. Só peguei esse turno porque minha irmã não tem como pagar o depósito.
Damian me observou com uma expressão indecifrável.
Lucas riu.
— O que é isso, Moretti? Escolhendo amantes entre as garçonetes agora?
Damian não desviou o olhar de mim nem por um segundo.
— Sai — ele disse.
Lucas piscou.
— Como é que é?
— Você ouviu.
A sala inteira mudou instantaneamente. Cadeiras arrastaram para trás, mãos se moveram em direção às armas, e o rosto de Lucas endureceu de humilhação.
Então Damian enfiou a mão dentro do paletó, tirou um cartão preto, e o colocou sobre a minha bandeja.
— Paga a cirurgia — ele disse.
Antes que eu pudesse responder, Lucas sorriu, frio, e sacou uma arma por baixo da mesa.
Ninguém na sala teve tempo de gritar antes do primeiro movimento.
