Chapter 5
Parte 2
Tudo aconteceu rápido demais para eu processar.
Um dos homens de Damian se moveu antes mesmo do dedo de Lucas tocar o gatilho, derrubando a arma da mão dele com um golpe seco enquanto outro segurança o imobilizava contra a mesa.
O barulho de metal batendo no chão ecoou como um trovão dentro daquela sala de silêncio absoluto.
— Isso foi um erro, Lucas — disse Damian, sem sequer virar completamente o corpo, como se aquilo fosse apenas um detalhe menor no meio da conversa.
Lucas, com o braço torcido nas costas por um dos guardas, cuspiu palavras em italiano que eu preferi não traduzir.
— Você vai se arrepender disso, Moretti.
— Provavelmente não — respondeu Damian, calmo. — Tire ele daqui. E garanta que ele entenda que Brooklyn deixou de ser assunto dele a partir de agora.
Os homens arrastaram Lucas para fora, ainda gritando ameaças que ninguém na sala parecia levar a sério, exceto, talvez, eu, que ainda tremia da cabeça aos pés.
Só então Damian se virou completamente para mim.
— Você está bem? — perguntou, e havia algo genuíno naquela pergunta, diferente da frieza controlada de segundos atrás.
— Eu… acho que sim — respondi, sem fôlego. — Isso sempre acontece aqui?
Um fantasma de sorriso passou pelo rosto dele.
— Não exatamente assim. Normalmente as pessoas sabem que não devem sacar armas na minha frente.
Meu gerente finalmente se aproximou, pálido como um fantasma.
— Senhor Moretti, eu sinto muito, ela é nova, eu devia ter escolhido outra pessoa para…
— Ela fica — cortou Damian, sem sequer olhar para ele. — E você vai garantir que ela receba o dobro do pagamento por esse turno.
Meu gerente engoliu em seco e assentiu repetidamente, recuando de volta para trás da parede de vidro.
Damian olhou para o cartão preto que ainda estava sobre a minha bandeja.
— Isso ainda vale — ele disse. — Ligue para o hospital agora. Diga que Damian Moretti está cobrindo todas as despesas da cirurgia da sua sobrinha.
Minhas mãos tremiam quando peguei o cartão.
— Eu não posso aceitar isso. Eu nem te conheço.
— Não estou pedindo nada em troca — respondeu ele, sério. — E não é sobre você me conhecer. É sobre uma criança de cinco anos precisando de uma cirurgia que a mãe dela não pode pagar.
Havia algo na voz dele quando disse “criança de cinco anos” que carregava um peso que eu não conseguia entender completamente, uma sombra passando rápido demais pelos olhos dele para eu conseguir decifrar.
Sarah ainda estava na linha, ofegante.
— Evie? Evie, o que está acontecendo aí? Ouvi um barulho estranho.
— Sarah, escuta — falei, tentando manter a voz firme. — Alguém vai pagar a cirurgia da Lily. Tudo. Não se preocupa com o dinheiro.
— O quê? Evie, do que você está falando?
— Eu te explico depois, eu prometo. Só… deixa eles fazerem a cirurgia, tá bom?
Desliguei a ligação, ainda tremendo, e me virei para Damian, que me observava com uma atenção que me deixava desconfortável e, de alguma forma, também estranhamente segura.
— Por que você está fazendo isso? — perguntei, finalmente. — Homens como você não fazem caridade sem motivo.
O rosto dele se fechou por um instante, como se eu tivesse tocado em algo que ele mantinha trancado havia muito tempo.
— Talvez eu só não suporte a ideia de uma criança sofrendo por falta de dinheiro, enquanto homens como eu discutem território numa sala cheia de uísque caro.
Havia mais naquela resposta do que ele estava disposto a admitir, isso eu conseguia perceber.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou, mudando de assunto.
— Evie. Evelyn Carter.
— Evie — ele repetiu, como se estivesse testando o som do nome. — Você estuda Direito, não estuda? Ouvi você mencionar isso para sua irmã, antes de tudo isso acontecer.
Fiquei surpresa que ele tivesse prestado atenção a esse detalhe em meio a todo o caos.
— NYU, último ano.
— E trabalha servindo bebidas num lugar como esse para pagar as contas.
— Nem todo mundo nasce com cartão preto no bolso — respondi, antes de conseguir me conter.
Para minha surpresa, ele riu — um som baixo, rouco, genuíno.
— Justo — admitiu.
Naquele momento, um dos guardas se aproximou e sussurrou algo no ouvido de Damian. O rosto dele voltou a ficar sério instantaneamente.
— Preciso resolver algumas coisas — ele disse, se afastando um passo. — Mas isso não terminou, Evie.
— O quê não terminou?
Ele já estava se virando para sair, mas parou e olhou para trás.
— Essa conversa. Eu vou te encontrar de novo.
E, com isso, ele desapareceu pela mesma cortina por onde eu tinha entrado, deixando para trás um cartão preto, um coração disparado, e a certeza incômoda de que minha vida tinha acabado de mudar de um jeito que eu não estava nem perto de entender completamente.
Parte 3
A cirurgia de Lily aconteceu naquela mesma noite, e correu perfeitamente.
Quando cheguei ao hospital de madrugada, encontrei Sarah chorando de alívio ao lado da cama da filha, ainda sedada, mas respirando tranquilamente.
— Evie, o que você fez? — perguntou Sarah, os olhos vermelhos de choro e cansaço. — O hospital disse que a conta inteira já estava paga. Tudo. Nem sobrou nada para eu me preocupar.
— É uma longa história — respondi, sentando ao lado dela, exausta.
— Uma longa história que envolve homens perigosos numa sala secreta debaixo de um bar? — Sarah me olhou séria. — Evie, eu ouvi um barulho de arma pelo fone. Não pensa que eu não notei.
Suspirei, sabendo que não podia mais esconder tudo dela.
— O nome dele é Damian Moretti — falei, baixinho, como se dizer o nome em voz alta pudesse invocar algum perigo. — E, aparentemente, ele é dono de metade do porto de Nova York, e também é… outra coisa.
— Que tipo de “outra coisa”? — Sarah perguntou, embora pela expressão dela, eu suspeitasse que ela já soubesse a resposta.
— O tipo que aparece nos jornais como bilionário, mas que todo mundo naquela sala tratava como se fosse um rei perigoso demais para desafiar.
Sarah ficou em silêncio por um longo momento, olhando para a filha adormecida.
— Evie, isso é perigoso demais. Você precisa devolver o dinheiro, ou pelo menos ficar longe desse homem.
— Eu sei — concordei. — Mas ele disse que ia me encontrar de novo, e, sinceramente, não sei se isso é uma promessa ou uma ameaça.
Nos dias seguintes, tentei voltar à minha rotina normal — aulas na NYU, estudos para os exames finais, turnos ocasionais no Obsidian Room, onde meu gerente agora me tratava com um respeito quase exagerado, claramente assustado com qualquer coisa que pudesse desagradar Damian Moretti.
Na quinta-feira seguinte, saindo da biblioteca da universidade tarde da noite, encontrei um carro preto parado exatamente na esquina onde eu sempre pegava o metrô.
A janela desceu, revelando Damian, sozinho, sem os guardas de sempre.
— Precisa de uma carona? — ele perguntou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Você está me seguindo? — perguntei, mais curiosa do que assustada, o que provavelmente deveria ter me preocupado mais do que preocupou.
— Estou esperando você. Existe uma diferença.
Entrei no carro, contra todo instinto de sobrevivência que eu deveria ter desenvolvido depois daquela noite no Obsidian Room.
— Como está sua sobrinha? — ele perguntou, enquanto o carro se movia lentamente pelas ruas de Manhattan.
— Recuperando bem. Obrigada, por… tudo aquilo.
— Não precisa agradecer.
— Precisa sim — insisti. — Ninguém faz o que você fez sem motivo, Damian. E eu ainda não entendi qual é o seu.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na estrada.
— Eu tive uma irmã mais nova — disse, finalmente, a voz carregando um peso que eu não esperava. — Ela morreu aos sete anos, de uma doença que teria sido facilmente tratável, se meus pais tivessem dinheiro suficiente na época.
O ar saiu dos meus pulmões.
— Damian, eu sinto muito.
— Isso foi há mais de vinte anos, antes de qualquer coisa que você viu naquela sala existir — ele continuou. — Meu pai jurou, no funeral dela, que nenhum Moretti jamais assistiria uma criança morrer por falta de dinheiro outra vez, se estivesse ao alcance dele impedir isso.
— E você continuou esse juramento.
— De forma silenciosa, sim. A maioria das pessoas nunca sabe que financio cirurgias, tratamentos, coisas assim. Prefiro assim.
Olhei para ele, vendo, pela primeira vez, algo além do homem perigoso que todo mundo temia — via um homem carregando uma dor antiga, transformada, ao longo dos anos, em um tipo estranho e silencioso de bondade.
— Por que você está me contando isso agora?
— Porque você perguntou — ele respondeu simplesmente. — E porque, por algum motivo que eu ainda não entendo completamente, eu não quero que você pense que sou apenas o monstro que os jornais descrevem.
O carro parou em frente ao meu prédio, e ficamos ali, em silêncio, por um momento mais longo do que qualquer conversa deveria durar dentro de um carro parado.
— Isso é perigoso, não é? — perguntei, finalmente. — Você e eu, conversando assim.
— Extremamente — ele concordou, sem hesitar. — Lucas Russo não é homem de esquecer humilhações. E, depois daquela noite, ele sabe exatamente quem você é para mim.
— Eu não sou nada para você, Damian. A gente mal se conhece.
Ele se virou para me encarar, e havia algo intenso demais no olhar dele para eu conseguir sustentar por muito tempo.
— Talvez ainda não — ele disse, baixinho. — Mas Lucas não vai esperar para descobrir isso com certeza antes de agir.
Parte 4
O aviso de Damian se provou verdadeiro mais rápido do que qualquer um de nós esperava.
Uma semana depois, saindo do turno noturno no Obsidian Room, percebi um carro estranho estacionado perto da entrada de serviço, os faróis apagados, mas o motor ligado.
Ignorei, tentando não deixar a paranoia tomar conta de mim, e caminhei rapidamente até a estação de metrô.
Foi só ao chegar em casa, encontrando a porta do meu apartamento entreaberta, que o pânico realmente tomou conta.
— Sarah? — chamei, o coração disparado, entrando devagar.
O apartamento estava vazio, mas revirado — gavetas abertas, papéis espalhados pelo chão, como se alguém tivesse procurado por algo específico.
Sobre a mesa da cozinha, havia um bilhete, escrito à mão, em letra elegante demais para pertencer a um assaltante comum.
“Diga ao Moretti que ele não é o único que sabe onde encontrar o que importa para o outro.”
As mãos me tremeram tanto que quase deixei o celular cair ao ligar para Damian.
— Evie? — ele atendeu imediatamente, a voz tensa. — O que aconteceu?
— Alguém entrou no meu apartamento. Tem um bilhete, Damian. Eles sabem quem eu sou, sabem onde eu moro.
— Não toque em mais nada. Estou a caminho.
Vinte minutos depois, Damian chegou com três seguranças, revistando cada cômodo do apartamento com uma eficiência que só aumentava meu medo.
— Isso é Lucas — ele confirmou, examinando o bilhete com um rosto sombrio. — Ele está mandando uma mensagem clara: se eu não recuar de Brooklyn, ele vai atrás de você para chegar até mim.
— Eu nunca pedi para fazer parte disso — falei, sentindo lágrimas ameaçarem escapar pela primeira vez desde que tudo aquilo tinha começado.
— Eu sei — respondeu Damian, se aproximando, a voz mais suave do que eu jamais tinha ouvido dele. — E eu vou consertar isso, Evie. Eu prometo.
— Como? Ele já sabe onde eu moro, provavelmente sabe onde a Sarah e a Lily estão também.
O rosto de Damian escureceu com uma fúria contida.
— Sua irmã e sua sobrinha já estão sendo levadas para um lugar seguro nesse exato momento. E você vai ficar numa das minhas propriedades até isso se resolver completamente.
— Damian, eu não posso simplesmente desaparecer da minha vida…
— Você não tem escolha agora, Evie — ele cortou, sério. — Lucas não é um homem que blefa. Se ele descobriu onde você mora, ele não vai hesitar em usar você como forma de me atingir.
Fui levada, ainda tremendo, para uma casa discreta no Upper East Side, onde encontrei Sarah e Lily já instaladas, protegidas por mais homens de Damian.
— Evie, isso está fora de controle — sussurrou Sarah, assim que ficamos sozinhas por um momento. — Você precisa se afastar desse homem, não importa quantas cirurgias ele pague.
— Eu sei — admiti. — Mas agora já é tarde demais para simplesmente desaparecer, Sarah. Ele sabe quem somos.
Naquela noite, Damian voltou, sozinho, encontrando-me sentada na varanda, incapaz de dormir.
— Como você está? — perguntou, sentando-se ao meu lado.
— Assustada. Confusa. Brava com você por ter me colocado nessa posição, mas também… — hesitei — grata, de um jeito estranho, por você estar tentando consertar isso.
— Eu vou resolver isso com Lucas, de uma vez por todas — ele disse, a voz carregando uma determinação fria. — Mas preciso que você entenda uma coisa antes: depois de amanhã, não vai ter mais como voltar atrás para nenhum de nós dois.
— O que você vai fazer?
— O que deveria ter feito há anos, em vez de manter uma paz frágil com um homem que nunca respeitou limite nenhum.
— Isso significa guerra.
— Significa proteção — corrigiu ele. — Para você, para sua família, e para qualquer pessoa inocente que Lucas decida usar como peão no futuro, se eu não agir agora.
Olhei para ele, percebendo o quanto aquela decisão pesava sobre seus ombros, mesmo escondida atrás de tanta calma controlada.
— Tem medo? — perguntei, baixinho.
— Todos os dias — ele admitiu, surpreendendo-me com a sinceridade. — Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, tenho mais medo de perder alguém do que de enfrentar Lucas Russo.
Ele segurou minha mão, gentil, e, apesar de todo o perigo ao nosso redor, aquele gesto simples trouxe um tipo de calma que eu não sentia desde antes daquela noite no Obsidian Room.
Parte 5
O confronto com Lucas Russo aconteceu dois dias depois, num armazém abandonado no Brooklyn, escolhido por Damian especificamente por ficar em território que Lucas reivindicava como seu.
Eu não estava lá — Damian tinha sido categórico sobre isso —, mas Sarah e eu esperamos a noite inteira acordadas, ligando repetidamente para um número que nunca atendia, até que, pouco antes do amanhecer, meu celular finalmente tocou.
— Está terminado, Evie — disse Damian, a voz cansada, mas aliviada. — Lucas concordou em recuar completamente de Brooklyn e nunca mais se aproximar de você ou da sua família, em troca de manter o controle sobre o território que já possuía antes de tudo isso começar.
— Ele aceitou assim, tão facilmente?
— Ele entendeu que continuar essa guerra custaria mais do que ele estava disposto a perder — respondeu Damian. — Especialmente depois que meus advogados apresentaram evidências suficientes para destruir completamente suas operações legais, caso ele decidisse não cooperar.
Senti um peso enorme sair dos meus ombros, mas ainda havia uma pergunta que precisava ser feita.
— E agora, Damian? O que acontece com a gente agora?
Houve uma pausa longa do outro lado da linha.
— Isso depende de você, Evie. Eu entendo se você quiser voltar para sua vida normal, longe de tudo isso, longe de mim.
— E se eu não quiser? — perguntei, surpreendendo a mim mesma com a própria sinceridade.
— Então eu estarei aqui, tentando descobrir como construir algo real com você, sem colocar sua vida em perigo constante.
Nas semanas seguintes, a vida lentamente voltou a alguma aparência de normalidade. Lily se recuperou completamente da cirurgia, voltando a correr pela casa com a energia típica de uma criança de cinco anos. Sarah, ainda cautelosa, começou aos poucos a aceitar a presença constante de Damian em nossas vidas.
— Ele realmente parece se importar com você — admitiu Sarah, numa tarde em que Damian tinha passado para levar Lily ao parque, algo que se tornou uma rotina inesperada entre os dois. — Nunca pensei que diria isso sobre um homem que quase foi baleado na minha frente através de um fone de ouvido.
Ri, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, uma leveza genuína.
Terminei meu último ano na NYU com honras, e Damian esteve presente na formatura, discretamente sentado no fundo do auditório, evitando chamar atenção desnecessária, mas presente, do jeito que só alguém genuinamente investido conseguiria estar.
— O que você vai fazer agora, doutora Carter? — ele perguntou, depois da cerimônia, usando meu novo título com um orgulho que aqueceu meu peito de um jeito que eu não esperava.
— Recebi uma proposta de um escritório focado em direito de família — respondi. — Ajudando crianças e famílias que não têm recursos para se defender sozinhas.
— Isso combina com você — ele disse, sinceramente.
— E você? Ainda planejando dominar o porto de Nova York inteiro?
Ele riu, um som que já tinha se tornado familiar e reconfortante ao longo dos últimos meses.
— Estou considerando me afastar gradualmente de certas partes do negócio. Descobri recentemente que existem coisas na vida mais valiosas do que território e poder.
— Como o quê?
Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos nos meus, num gesto simples que carregava mais significado do que qualquer discurso elaborado poderia expressar.
— Como a chance de construir algo real, com alguém que me viu além da reputação, desde a primeira noite em que cometeu o “erro” de me chamar de baby na frente de meio mundo do crime organizado de Nova York.
Corei, lembrando daquele momento que tinha começado tudo.
— Aquilo realmente foi o pior momento possível para um deslize.
— Foi o melhor momento da minha vida — ele corrigiu, sério. — Porque, se você não tivesse cometido aquele “erro”, eu nunca teria descoberto que existia, no meio de tanta escuridão que carreguei durante anos, espaço ainda para algo genuíno.
Naquela noite, olhando para Damian, para Sarah brincando com Lily no jardim, para a vida que, de alguma forma impossível, tinha se reconstruído a partir do caos de uma única noite no Obsidian Room, entendi que às vezes os piores momentos, os erros mais assustadores, escondem dentro deles o início de algo que a gente nunca teria coragem de buscar sozinho.
E você, já viveu um momento de pura vulnerabilidade, um “erro” acidental, que acabou revelando exatamente a pessoa ou a conexão que você mais precisava na vida?
