Uma única palavra descuidada transformou a sala mais perigosa e privada de Manhattan num cemitério de silêncio.

Written by

in

Chapter 2

Tudo aconteceu rápido demais para eu processar.

Um dos homens de Damian se moveu antes mesmo do dedo de Lucas tocar o gatilho, derrubando a arma da mão dele com um golpe seco enquanto outro segurança o imobilizava contra a mesa.

O barulho de metal batendo no chão ecoou como um trovão dentro daquela sala de silêncio absoluto.

— Isso foi um erro, Lucas — disse Damian, sem sequer virar completamente o corpo, como se aquilo fosse apenas um detalhe menor no meio da conversa.

Lucas, com o braço torcido nas costas por um dos guardas, cuspiu palavras em italiano que eu preferi não traduzir.

— Você vai se arrepender disso, Moretti.

— Provavelmente não — respondeu Damian, calmo. — Tire ele daqui. E garanta que ele entenda que Brooklyn deixou de ser assunto dele a partir de agora.

Os homens arrastaram Lucas para fora, ainda gritando ameaças que ninguém na sala parecia levar a sério, exceto, talvez, eu, que ainda tremia da cabeça aos pés.

Só então Damian se virou completamente para mim.

— Você está bem? — perguntou, e havia algo genuíno naquela pergunta, diferente da frieza controlada de segundos atrás.

— Eu… acho que sim — respondi, sem fôlego. — Isso sempre acontece aqui?

Um fantasma de sorriso passou pelo rosto dele.

— Não exatamente assim. Normalmente as pessoas sabem que não devem sacar armas na minha frente.

Meu gerente finalmente se aproximou, pálido como um fantasma.

— Senhor Moretti, eu sinto muito, ela é nova, eu devia ter escolhido outra pessoa para…

— Ela fica — cortou Damian, sem sequer olhar para ele. — E você vai garantir que ela receba o dobro do pagamento por esse turno.

Meu gerente engoliu em seco e assentiu repetidamente, recuando de volta para trás da parede de vidro.

Damian olhou para o cartão preto que ainda estava sobre a minha bandeja.

— Isso ainda vale — ele disse. — Ligue para o hospital agora. Diga que Damian Moretti está cobrindo todas as despesas da cirurgia da sua sobrinha.

Minhas mãos tremiam quando peguei o cartão.

— Eu não posso aceitar isso. Eu nem te conheço.

— Não estou pedindo nada em troca — respondeu ele, sério. — E não é sobre você me conhecer. É sobre uma criança de cinco anos precisando de uma cirurgia que a mãe dela não pode pagar.

Havia algo na voz dele quando disse “criança de cinco anos” que carregava um peso que eu não conseguia entender completamente, uma sombra passando rápido demais pelos olhos dele para eu conseguir decifrar.

Sarah ainda estava na linha, ofegante.

— Evie? Evie, o que está acontecendo aí? Ouvi um barulho estranho.

— Sarah, escuta — falei, tentando manter a voz firme. — Alguém vai pagar a cirurgia da Lily. Tudo. Não se preocupa com o dinheiro.

— O quê? Evie, do que você está falando?

— Eu te explico depois, eu prometo. Só… deixa eles fazerem a cirurgia, tá bom?

Desliguei a ligação, ainda tremendo, e me virei para Damian, que me observava com uma atenção que me deixava desconfortável e, de alguma forma, também estranhamente segura.

— Por que você está fazendo isso? — perguntei, finalmente. — Homens como você não fazem caridade sem motivo.

O rosto dele se fechou por um instante, como se eu tivesse tocado em algo que ele mantinha trancado havia muito tempo.

— Talvez eu só não suporte a ideia de uma criança sofrendo por falta de dinheiro, enquanto homens como eu discutem território numa sala cheia de uísque caro.

Havia mais naquela resposta do que ele estava disposto a admitir, isso eu conseguia perceber.

— Qual é o seu nome? — ele perguntou, mudando de assunto.

— Evie. Evelyn Carter.

— Evie — ele repetiu, como se estivesse testando o som do nome. — Você estuda Direito, não estuda? Ouvi você mencionar isso para sua irmã, antes de tudo isso acontecer.

Fiquei surpresa que ele tivesse prestado atenção a esse detalhe em meio a todo o caos.

— NYU, último ano.

— E trabalha servindo bebidas num lugar como esse para pagar as contas.

— Nem todo mundo nasce com cartão preto no bolso — respondi, antes de conseguir me conter.

Para minha surpresa, ele riu — um som baixo, rouco, genuíno.

— Justo — admitiu.

Naquele momento, um dos guardas se aproximou e sussurrou algo no ouvido de Damian. O rosto dele voltou a ficar sério instantaneamente.

— Preciso resolver algumas coisas — ele disse, se afastando um passo. — Mas isso não terminou, Evie.

— O quê não terminou?

Ele já estava se virando para sair, mas parou e olhou para trás.

— Essa conversa. Eu vou te encontrar de novo.

E, com isso, ele desapareceu pela mesma cortina por onde eu tinha entrado, deixando para trás um cartão preto, um coração disparado, e a certeza incômoda de que minha vida tinha acabado de mudar de um jeito que eu não estava nem perto de entender completamente.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos