Chapter 3
A cirurgia de Lily aconteceu naquela mesma noite, e correu perfeitamente.
Quando cheguei ao hospital de madrugada, encontrei Sarah chorando de alívio ao lado da cama da filha, ainda sedada, mas respirando tranquilamente.
— Evie, o que você fez? — perguntou Sarah, os olhos vermelhos de choro e cansaço. — O hospital disse que a conta inteira já estava paga. Tudo. Nem sobrou nada para eu me preocupar.
— É uma longa história — respondi, sentando ao lado dela, exausta.
— Uma longa história que envolve homens perigosos numa sala secreta debaixo de um bar? — Sarah me olhou séria. — Evie, eu ouvi um barulho de arma pelo fone. Não pensa que eu não notei.
Suspirei, sabendo que não podia mais esconder tudo dela.
— O nome dele é Damian Moretti — falei, baixinho, como se dizer o nome em voz alta pudesse invocar algum perigo. — E, aparentemente, ele é dono de metade do porto de Nova York, e também é… outra coisa.
— Que tipo de “outra coisa”? — Sarah perguntou, embora pela expressão dela, eu suspeitasse que ela já soubesse a resposta.
— O tipo que aparece nos jornais como bilionário, mas que todo mundo naquela sala tratava como se fosse um rei perigoso demais para desafiar.
Sarah ficou em silêncio por um longo momento, olhando para a filha adormecida.
— Evie, isso é perigoso demais. Você precisa devolver o dinheiro, ou pelo menos ficar longe desse homem.
— Eu sei — concordei. — Mas ele disse que ia me encontrar de novo, e, sinceramente, não sei se isso é uma promessa ou uma ameaça.
Nos dias seguintes, tentei voltar à minha rotina normal — aulas na NYU, estudos para os exames finais, turnos ocasionais no Obsidian Room, onde meu gerente agora me tratava com um respeito quase exagerado, claramente assustado com qualquer coisa que pudesse desagradar Damian Moretti.
Na quinta-feira seguinte, saindo da biblioteca da universidade tarde da noite, encontrei um carro preto parado exatamente na esquina onde eu sempre pegava o metrô.
A janela desceu, revelando Damian, sozinho, sem os guardas de sempre.
— Precisa de uma carona? — ele perguntou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Você está me seguindo? — perguntei, mais curiosa do que assustada, o que provavelmente deveria ter me preocupado mais do que preocupou.
— Estou esperando você. Existe uma diferença.
Entrei no carro, contra todo instinto de sobrevivência que eu deveria ter desenvolvido depois daquela noite no Obsidian Room.
— Como está sua sobrinha? — ele perguntou, enquanto o carro se movia lentamente pelas ruas de Manhattan.
— Recuperando bem. Obrigada, por… tudo aquilo.
— Não precisa agradecer.
— Precisa sim — insisti. — Ninguém faz o que você fez sem motivo, Damian. E eu ainda não entendi qual é o seu.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na estrada.
— Eu tive uma irmã mais nova — disse, finalmente, a voz carregando um peso que eu não esperava. — Ela morreu aos sete anos, de uma doença que teria sido facilmente tratável, se meus pais tivessem dinheiro suficiente na época.
O ar saiu dos meus pulmões.
— Damian, eu sinto muito.
— Isso foi há mais de vinte anos, antes de qualquer coisa que você viu naquela sala existir — ele continuou. — Meu pai jurou, no funeral dela, que nenhum Moretti jamais assistiria uma criança morrer por falta de dinheiro outra vez, se estivesse ao alcance dele impedir isso.
— E você continuou esse juramento.
— De forma silenciosa, sim. A maioria das pessoas nunca sabe que financio cirurgias, tratamentos, coisas assim. Prefiro assim.
Olhei para ele, vendo, pela primeira vez, algo além do homem perigoso que todo mundo temia — via um homem carregando uma dor antiga, transformada, ao longo dos anos, em um tipo estranho e silencioso de bondade.
— Por que você está me contando isso agora?
— Porque você perguntou — ele respondeu simplesmente. — E porque, por algum motivo que eu ainda não entendo completamente, eu não quero que você pense que sou apenas o monstro que os jornais descrevem.
O carro parou em frente ao meu prédio, e ficamos ali, em silêncio, por um momento mais longo do que qualquer conversa deveria durar dentro de um carro parado.
— Isso é perigoso, não é? — perguntei, finalmente. — Você e eu, conversando assim.
— Extremamente — ele concordou, sem hesitar. — Lucas Russo não é homem de esquecer humilhações. E, depois daquela noite, ele sabe exatamente quem você é para mim.
— Eu não sou nada para você, Damian. A gente mal se conhece.
Ele se virou para me encarar, e havia algo intenso demais no olhar dele para eu conseguir sustentar por muito tempo.
— Talvez ainda não — ele disse, baixinho. — Mas Lucas não vai esperar para descobrir isso com certeza antes de agir.
