As chaves bateram na mesa de mogno e quebraram o silêncio dentro do escritório do cobertura.

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Chapter 1

As chaves bateram na mesa de mogno e quebraram o silêncio dentro do escritório do cobertura.

Chastity Morales não desviou os olhos da tela iluminada do computador. Ela reconheceu os passos pesados e medidos atravessando o piso de madeira atrás dela.

Gabriel Mercer parou.

O ar pareceu mudar, ficando de repente espesso demais pra respirar.

O olhar dele percorreu das meias-calças pretas transparentes até o decote profundo do vestido de seda esmeralda que ela tinha comprado especificamente pra arruinar a noite de outra pessoa. Parou na clavícula dela.

— Pra onde você vai com esse vestido?

Papelada era a verdadeira moeda do submundo.

Não os contêineres cheios de contrabando, as balas de ponta oca, ou as pilhas de dinheiro vivo apodrecendo dentro de bolsas de lona úmidas debaixo do assoalho.

Tinta.

Contas offshore. Empresas de fachada. Brechas fiscais em imóveis.

Chastity administrava tudo isso.

Havia três anos, ela ocupava a mesa do lado de fora do escritório privado de Gabriel Mercer. Era sua guardiã, sua contadora, seu firewall — a barreira entre um homem brutal e uma sociedade que exigia aparência de civilidade.

Ela sabia a proporção exata de creme e café que ele preferia nas manhãs depois de um carregamento atrasado. Sabia o nome de cada vereador na folha de pagamento dele.

Também sabia como fechar um corte pra não deixar cicatriz — uma habilidade que adquiriu numa terça-feira particularmente violenta de novembro, quando Gabriel entrou no escritório dela cheirando a cobre e uísque barato.

Ela era indispensável.

Também era completamente e sufocantemente invisível pra ele como qualquer coisa além de uma extensão da própria mão esquerda dele.

Até aquela noite.

O relógio marcava 17h45.

O pessoal administrativo comum tinha saído uma hora antes, deixando o trigésimo segundo andar do edifício da Mercer Holdings envolto no zumbido mecânico e silencioso do sistema de ventilação.

Além das janelas do chão ao teto, a cidade se estendia sobre concreto cinza e trânsito parado. O sol fraco de inverno lançava sombras longas e arroxeadas sobre as ruas.

Chastity salvou a planilha criptografada, fechou o laptop, e se levantou.

Não pegou o trench coat bege nem a calça de lã prática que costumava usar como armadura.

Em vez disso, carregou uma sacola de roupa preta até o banheiro executivo.

Quando saiu, quinze minutos depois, a mulher conhecida apenas como a secretária de Gabriel Mercer tinha desaparecido.

O vestido era de seda verde-esmeralda.

Não se agarrava às curvas dela — escorria sobre elas como vidro líquido. As costas eram decotadas o suficiente pra expor a linha afiada da coluna. As alças eram tão finas que pareciam um desafio.

Os saltos agulha pretos batiam no piso de madeira a cada passo.

Ela pintou a boca de um vermelho profundo, cor de sangue seco, e soltou os cabelos escuros do coque severo. Eles caíram em ondas soltas sobre os ombros nus.

Voltou até a mesa pra pegar a bolsa de mão.

A porta pesada do escritório de Gabriel se abriu.

Ele saiu esfregando a nuca, um cigarro meio fumado pendurado no canto da boca.

Usava o terno cinza-chumbo de sempre, embora o paletó tivesse sido abandonado em algum lugar lá dentro. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os cotovelos, expondo a tatuagem de uma andorinha em voo espalhada pelo antebraço esquerdo.

A gravata pendia frouxa. Os cabelos escuros estavam desalinhados de tanto passar a mão neles.

— Chastity, liga pro Tommy e fala que as docas estão—

A frase morreu.

O cigarro caiu da boca dele, bateu uma vez no piso de madeira, e queimou uma pequena marca preta na superfície polida.

Nenhum dos dois se moveu pra apagar.

Gabriel ficou olhando.

Não era um olhar casual. O peso dele pressionava fisicamente cada lugar onde a atenção pousava.

Ele olhou pros saltos.

Olhou pra pele pálida exposta pela fenda do vestido.

Olhou pra seda seguindo a curva do quadril dela.

Por fim, os olhos dele foram até a boca pintada.

Um músculo se contraiu na mandíbula dele.

O silêncio se esticou como um fio de arame.

— Pra onde você vai com esse vestido? — ele exigiu de novo.

A voz dele estava mais grave que o normal, sem nenhum vestígio da contenção corporativa, áspera das ruas de onde ele tinha subido lutando.

Chastity ergueu a bolsa de mão.

Os movimentos dela permaneceram controlados.

Ela se recusou a se diminuir sob aquele olhar.

Ela tinha passado três anos se diminuindo.

— Eu tenho um compromisso, Sr. Mercer.

— Um compromisso.

Ele repetiu a palavra como se nunca tivesse ouvido antes.

Então deu um passo à frente, apagando o cigarro sob o salto do sapato italiano.

— Hoje é terça-feira.

— Meu trabalho está completo. Sua agenda está livre pra noite, as transferências offshore foram finalizadas, e o Tommy já sabe sobre o atraso nas docas. Mandei a mensagem criptografada há dez minutos.

Gabriel se aproximou mais.

Ele era um homem grande, construído pra violência, não pra escritórios executivos, e usava a própria presença física como arma.

Parou a poucos centímetros dela.

Chastity sentiu cedro, tabaco, e o rastro afiado do ar de inverno preso nas roupas dele.

— Com quem você vai?

A pergunta não era um pedido.

Era um interrogatório.

Ela ergueu os olhos pros olhos cinza-tempestade dele.

— Isso está fora do escopo do meu trabalho.

Gabriel soltou um som áspero, sem nenhum humor.

Ergueu uma das mãos.

Os dedos grandes e calejados pairaram a menos de um centímetro da pele nua do ombro dela.

Ele não a tocou.

Nunca a tocava.

O calor da mão dele mesmo assim mandou um tremor pela espinha dela.

— Você está usando um vestido que custa mais que meu carro. Se pintou toda como um alvo dentro da minha cidade. Eu quero saber quem está te levando pra sair.

— É um baile beneficente — disse Chastity, mantendo a voz firme apesar do coração disparado dentro do peito. — Eu sou capaz de me proteger sozinha.

— Você fica sentada atrás de uma mesa.

— Eu fico sentada atrás de uma mesa e limpo o sangue que você traz pela porta.

O tom dela ficou mais afiado.

Ela deu um passo pra trás, quebrando a conexão invisível entre os dois.

— Estou indo, Gabriel. Boa noite.

Ela se virou em direção aos elevadores.

O olhar dele seguiu o movimento do corpo dela sob a seda.

Bem quando ela apertou o botão de chamada, a voz dele alcançou ela vindo do escritório.

Fria.

Contida.

— Se ele te tocar em algum lugar que você não quer ser tocada, você me liga. Entendido?

As portas se abriram.

Chastity entrou e se virou enquanto elas começavam a fechar.

Gabriel permaneceu parado ao lado da mesa dela, completamente imóvel, parecendo um animal dentro de uma jaula.

— Ele não vai — ela disse, suavemente.

As portas se encontraram e cortaram a conexão entre os dois.

Só então Chastity soltou o ar que vinha prendendo.

O galpão cheirava a maresia, ferrugem e medo.

Gabriel estava sentado sobre um caixote de madeira, batendo ritmicamente uma esfera de aço na palma direita.

O som metálico e oco viajava pelo prédio cavernoso.

A uns nove metros de distância, um homem estava ajoelhado no concreto molhado, o lábio partido, tremendo sob a atenção dos três tenentes de Gabriel.

Em circunstâncias normais, Gabriel estaria completamente focado no assunto à sua frente.

O homem tinha tentado desviar 15% de um carregamento de remédios não rastreáveis passando pelo porto de Gabriel.

Tinha usado os caminhões, as rotas, a proteção de Gabriel — e depois enfiado a mão no bolso dele.

Era um insulto e uma quebra de respeito que exigia resposta física.

Gabriel não conseguia se concentrar.

A mente dele continuava presa numa repetição de seda esmeralda.

Com quem ela estava?

Ele jogou a esfera pro alto e pegou de volta.

O metal bateu na palma com um som seco que fez o homem ajoelhado se encolher.

Gabriel nem olhou pra ele.

Tirou o celular do bolso.

A tela brilhante ofuscou dentro do galpão escuro.

Nenhuma mensagem.

Ele esperava que Chastity desse notícia, o velho hábito que ela tinha desenvolvido ao longo dos anos.

A tela continuava agressivamente vazia.

— Chefe.

Tommy, um capanga de pescoço grosso e nariz já quebrado antes, se mexeu ao lado dele.

— O que quer que a gente faça com ele?

Gabriel suspirou e desceu do caixote.

Aproximou-se do homem sangrando e se agachou, apoiando os antebraços nos joelhos até os rostos ficarem na mesma altura.

— Você roubou de mim, Ricky — disse ele baixinho, quase num tom de conversa. — Usou meus caminhões, minhas rotas, minha proteção. Depois enfiou a mão no meu bolso.

— Eu estava desesperado, Sr. Mercer.

Ricky soluçou e cuspiu sangue no concreto.

— Meu filho. As contas médicas.

Gabriel olhou pra ele.

Não sentiu pena nem raiva.

Só a irritação inquieta se arrastando por baixo da pele desde as 17h45.

— Quebra a mão direita dele — disse a Tommy, se levantando. — Se ele aparecer perto das docas de novo, quebra as pernas.

Não esperou pelo som úmido do osso quebrando nem pelo grito que veio depois.

Saiu pro ar congelante, tirou um cigarro, e acendeu com um isqueiro prateado.

A nicotina não fez nada pra acalmar a agitação no peito dele.

Tirou o celular e ligou pra outro número.

Uma voz áspera atendeu depois de dois toques.

— Sim, chefe.

— Mick, ainda tem gente vigiando o Waldorf?

Gabriel tinha posicionado ele perto do hotel no centro, onde boa parte da classe política corrupta da cidade se reunia.

— Noite tranquila.

— A Chastity vai num baile beneficente lá. Descobre quem a acompanhou pra dentro.

Uma pausa se seguiu.

Mick sabia bem demais pra perguntar por quê, mas a hesitação já dizia o suficiente.

Ninguém tinha acompanhado Chastity.

E foi essa última frase, mais do que qualquer coisa dita a noite inteira, que fez Gabriel perceber que talvez o problema nunca tivesse sido sobre o vestido esmeralda.

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