Chapter 3
Nas semanas seguintes, alguma coisa mudou entre eles — sutil o suficiente pra ninguém no escritório apontar exatamente o quê, mas perceptível o bastante pra que os poucos funcionários que ainda circulavam pelo trigésimo segundo andar trocassem olhares quando Gabriel demorava mais que o necessário perto da mesa de Chastity.
Ele começou a levar café pra ela nas manhãs difíceis, sem pedir, sem explicar.
Ela começou a ficar até mais tarde, mesmo quando o trabalho já estava terminado.
Nenhum dos dois falou sobre a varanda do Waldorf novamente, mas ambos carregavam aquela noite como um peso silencioso entre cada interação profissional.
Foi Tommy quem primeiro percebeu o problema real.
— Chefe, precisa ver isso — disse ele, entrando no escritório de Gabriel com o rosto tenso, um envelope pardo na mão.
Gabriel abriu o envelope, e o sangue gelou nas veias dele.
Fotos.
Chastity, saindo do prédio da Mercer Holdings. Chastity, no mercado perto do apartamento dela. Chastity, entrando no metrô todas as manhãs no mesmo horário.
E, junto com as fotos, um bilhete simples, datilografado:
Sua secretária é bonita demais pra continuar respirando sem que alguém saiba o valor dela pra você, Mercer.
— De onde isso veio? — perguntou Gabriel, a voz absolutamente controlada, o tipo de controle que Tommy tinha aprendido, ao longo de anos trabalhando com ele, a temer mais do que qualquer explosão de raiva.
— Chegou por correio comum, endereçado diretamente a você. Sem remetente.
— Isso é dos Kellerman.
O nome saiu como uma acusação, não uma pergunta.
Vincent Kellerman controlava o território rival ao norte da cidade, e a guerra fria entre as duas organizações durava anos, alimentada por território, rotas de contrabando, e um ódio pessoal que remontava a antes mesmo de Gabriel assumir o comando da própria organização.
— Provavelmente — concordou Tommy. — Eles devem ter percebido a mudança. Vocês dois não são exatamente discretos ultimamente.
— Nós somos completamente discretos.
— Chefe, você levou café pra ela na frente de três funcionários semana passada. Isso não é discrição, isso é declaração de intenções.
Gabriel amassou o bilhete na mão, a fúria começando a se acumular por baixo do controle cuidadoso que ele mantinha em público.
— Preciso que chame Chastity aqui. Agora.
Quando ela entrou, o rosto dele já tinha decidido o que precisava ser dito, mesmo que cada parte dele quisesse evitar aquela conversa completamente.
— O que aconteceu? — perguntou ela, notando a tensão na sala imediatamente, os anos de experiência lendo o humor dele através de sinais pequenos.
Gabriel estendeu as fotos sobre a mesa, sem dizer nada.
Ela as folheou devagar, o rosto perdendo cor a cada imagem.
— Alguém está me seguindo.
— Os Kellerman. Descobriram que você importa pra mim, e decidiram que isso te transforma numa vantagem que eles podem explorar.
— Há quanto tempo isso está acontecendo?
— Não sei ao certo. As fotos mais antigas são de duas semanas atrás.
Chastity sentiu as mãos tremerem, embora se esforçasse pra manter a compostura que tinha dominado por três anos inteiros naquele escritório.
— O que eles querem?
— Provavelmente me forçar a uma posição fraca. Se eles conseguem chegar perto de você, eles ganham alavanca contra mim que eu nunca daria voluntariamente.
— Então isso é minha culpa. Se eu não tivesse usado aquele vestido, se eu não tivesse ido àquela varanda—
— Não.
A voz de Gabriel cortou o pensamento dela com uma firmeza absoluta.
— Isso é culpa minha. Eu deixei transparecer o que você significa pra mim, na frente de gente que só entende linguagem de poder e fraqueza. Vocês dois pagando o preço da minha falta de cuidado não é justo, mas é real, e eu preciso resolver isso antes que piore.
— Como?
Ele contornou a mesa, parando diante dela com uma intensidade que ela reconheceu da varanda gelada semanas atrás.
— A partir de hoje, você vai ter segurança constante. Alguém te acompanhando pra todo lugar, mesmo quando parecer excessivo.
— Gabriel, eu não posso viver assim.
— Você não vai viver assim pra sempre. Só até eu resolver o problema dos Kellerman de vez.
— E como você pretende fazer isso?
O olhar dele endureceu, algo frio e calculado substituindo a preocupação de segundos atrás.
— Do único jeito que gente como Vincent Kellerman realmente entende.
Um arrepio subiu pela espinha de Chastity, não de medo dele, mas de reconhecimento — reconhecimento de que o homem gentil que tinha levado café pra ela todas as manhãs recentes também era, sem contradição nenhuma, o mesmo homem capaz de ordenar que quebrassem a mão de alguém sem hesitar.
— Isso vai começar uma guerra de verdade.
— A guerra já começou, Chastity. Só que, até agora, era silenciosa. Eles acabaram de tornar isso público.
Ela olhou pra ele, tentando reconciliar os dois homens que via — o executivo controlado atrás daquela mesa, e o predador que ela sabia que vivia logo abaixo da superfície, sempre pronto pra emergir quando necessário.
— O que acontece comigo agora?
Gabriel se aproximou, tomando o rosto dela entre as mãos com um cuidado que contradizia completamente a dureza de segundos atrás.
— Agora, você fica perto de mim. Onde eu posso garantir que nada e ninguém chegue perto o suficiente pra te machucar.
— Isso significa abrir mão da minha independência.
— Isso significa manter você viva até essa ameaça deixar de existir. Depois disso, prometo, você decide exatamente qual independência quer de volta.
Ela fechou os olhos por um momento, absorvendo o peso de tudo aquilo — semanas de proximidade cuidadosa desmoronando numa única manhã de fotos e ameaças veladas, o mundo perigoso de Gabriel finalmente alcançando a vida que ela tinha construído com tanto cuidado ao redor dele.
— Tudo bem — sussurrou ela, finalmente. — Mas quando isso acabar, Gabriel, precisamos conversar sobre o que realmente está acontecendo entre nós dois. Sem mais evasivas.
— Combinado.
Ele a soltou devagar, mas o olhar continuou fixo nela por um longo momento antes de se virar pra Tommy, a expressão endurecendo de volta pro homem que a cidade inteira temia.
— Chama todos. Precisamos descobrir exatamente até onde os Kellerman chegaram, e precisamos descobrir antes que eles decidam que fotos não são mais suficientes.
