A primeira coisa que o chefão mais temido da máfia em Richmond me disse foi: “Eu pago quinhentos dólares se você sentar na minha mesa e fingir que está apaixonada por mim.

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Chapter 1

A primeira coisa que o chefão mais temido da máfia em Richmond me disse foi: “Eu pago quinhentos dólares se você sentar na minha mesa e fingir que está apaixonada por mim.” Eu achei que estava só ajudando um estranho poderoso a salvar o orgulho por sete minutos. Não fazia ideia de que estava prestes a virar a única mulher capaz de enxergar por trás de cada mentira sobre a qual ele tinha construído a vida.

Parei tão de repente que a mulher atrás de mim quase esbarrou nas minhas costas.

Devagar, me virei.

O homem sentado perto das janelas altas do Bellamy’s Grill parecia alguém para quem as pessoas abriam caminho sem nem precisar pedir.

Ethan Cole.

Todo mundo em Richmond conhecia aquele nome.

Ele não era só rico. Não era só influente.

Era o homem de quem falavam em voz baixa, o chefão que controlava negócios, território e informação com uma expressão tão calma que fazia até os homens mais perigosos pensarem duas vezes antes de desafiá-lo.

Usava um terno cinza-chumbo, cortado sob medida, do tipo que provavelmente custava mais do que tudo que eu possuía junto. Uma mão descansava ao lado de um copo de bourbon intocado, a outra ficava relaxada perto da mesa.

Mas os olhos dele não estavam em mim.

Estavam fixos do outro lado do restaurante.

Segui o olhar dele.

Uma loira linda tinha acabado de entrar com um homem alto, de blazer azul-marinho. No instante em que ela viu Ethan, a expressão dela mudou.

Nada dramático.

Só o suficiente.

Reconhecimento.

Surpresa.

E depois, algo que eu entendi na hora.

Satisfação.

Olhei de novo para Ethan.

— Ah.

Ele franziu a testa.

— Ah o quê?

— Você está tentando deixar sua ex com ciúmes.

— Não estou.

— Claro que não.

O maxilar dele travou.

— Estou deixando claro que já segui em frente.

Olhei para a cadeira vazia na frente dele.

— Contratando uma estranha?

— Por sete minutos.

Levantei uma sobrancelha.

— Por que sete?

Pela primeira vez, o chefão de máfia mais assustador da cidade pareceu quase constrangido.

— Eu entrei em pânico.

Aquilo quase me fez rir.

Quase.

Cruzei os braços. Eu nem estava vestida para o meu turno ainda. O uniforme preto estava dobrado dentro da bolsa pendurada no meu ombro, e eu só tinha parado no Bellamy’s porque cheguei cedo para o trabalho.

— Eu não te conheço.

— Eu sei.

— Você pode ser perigoso.

Os lábios dele se curvaram de leve.

— Estou começando a achar que sou.

— Isso não é nada tranquilizador.

Do outro lado do salão, a loira sussurrou algo para o homem ao lado dela. Os dois olharam na direção de Ethan.

Vi os ombros dele ficarem tensos.

E de repente, eu não via mais o homem poderoso que todo mundo temia.

Via alguém que tinha sido machucado.

Fundo.

Do tipo de dor que dinheiro nenhum cobre.

Do tipo de humilhação que fica escondida atrás da raiva.

Eu conhecia aquela sensação.

Eu mesma já tinha vestido ela.

— Fica com seus quinhentos dólares — falei.

Ethan pareceu surpreso.

— Mas eu quero uma torta.

A expressão dele mudou.

— Como assim?

— Se eu vou ser sua namorada de emergência, eu quero torta de nozes.

— Só isso?

— Com sorvete.

— Combinado.

Coloquei minha bolsa ao lado da cadeira e sentei.

— Sete minutos — avisei.

Ethan soltou o ar como alguém que tinha acabado de escapar de uma sentença de morte.

— Obrigado.

— Ainda não me agradece.

Me inclinei para frente com um sorriso doce.

— Se sua ex vier até aqui, vou dizer que a gente se conheceu num circo.

Por um segundo, Ethan só ficou me olhando.

Depois, aconteceu algo impossível.

Ele riu.

Não aquela risada fria que os inimigos dele ouviam antes de fechar negócio.

Não a risada controlada que ele usava em reuniões.

Uma risada de verdade.

E do outro lado do restaurante, Lauren Pierce percebeu.

Era exatamente por isso que ele tinha me chamado para sentar ali.

Mas de repente, Ethan não estava nem um pouco preocupado com a reação de Lauren, muito menos do que imaginava que estaria.

Três meses antes, Lauren era a mulher com quem ele planejava se casar.

Tinha sido a única pessoa em quem Ethan confiava o bastante para deixar ver o que existia por trás da reputação, do poder e da violência que cercavam o nome dele.

Já tinham reservado um espaço nos arredores de Charlottesville. Os convites estavam sendo criados. Cada detalhe do futuro deles já estava planejado.

Até que, numa tarde, Ethan foi até o apartamento de Lauren porque ela tinha esquecido o carregador do notebook na casa dele.

Quem abriu a porta foi Grant Mercer.

Descalço.

Vestindo o velho moletom da faculdade de Ethan.

Grant tinha sido um dos homens de maior confiança de Ethan.

Um homem que conhecia seus segredos.

Um homem que sentava à sua mesa.

Um homem que olhou nos olhos de Ethan enquanto o traía.

Lauren chorou.

Grant pediu desculpas.

Ethan não fez nem uma coisa nem outra.

Simplesmente foi embora.

Depois daquela noite, ele criou regras.

Nada de relacionamento sério.

Nada de segunda chance.

Nada de acreditar em promessas.

Nenhuma mulher chegaria perto o suficiente para destruí-lo de novo.

Essas regras o protegeram.

Até aquela noite.

Até eu sentar na frente dele e enxergar além da reputação perigosa que todo mundo temia.

— Então — falei, abrindo o cardápio — qual é o seu nome, namorado postiço?

— Ethan.

— Hannah.

— Prazer em conhecer você.

— Seria mais agradável em circunstâncias menos ridículas.

Ele me lançou um raro olhar ofendido.

— Você concordou em me ajudar.

— Eu concordei em comer torta.

Uma garçonete se aproximou da mesa, olhou para mim e congelou.

— Hannah?

No momento em que ela disse meu nome, a expressão de Ethan mudou.

Porque a garçonete não estava olhando para mim como para uma cliente qualquer.

Estava olhando como quem sabe de alguma coisa.

Alguma coisa que Ethan não sabia.

E, pela primeira vez naquela noite, o homem mais temido de Richmond pareceu inseguro.

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