A primeira coisa que o chefão mais temido da máfia em Richmond me disse foi: “Eu pago quinhentos dólares se você sentar na minha mesa e fingir que está apaixonada por mim.

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Chapter 2

A garçonete continuou parada, com o bloco de pedidos apertado contra o peito.

— Hannah Bishop? — ela perguntou de novo, como se precisasse confirmar que os próprios olhos não estavam enganando ela.

— Zoe — respondi, sentindo o estômago apertar.

Ethan olhou de uma para a outra, tentando entender o que estava acontecendo.

— Vocês se conhecem — ele disse, mais afirmação do que pergunta.

— Trabalhamos juntas no Rosie’s, faz uns dois anos — Zoe respondeu, ainda sem desviar o olhar de mim. — Sumiu do mapa depois daquela história toda com seu irmão.

O nome pairou no ar como um alarme silencioso.

Senti o rosto esquentar.

— Zoe, não é hora.

— Desculpa — ela falou, finalmente se lembrando de onde estava. — Vou pegar o pedido de vocês.

Ela se afastou quase correndo, como se tivesse percebido tarde demais que tinha dito coisa demais.

Ethan não desviou os olhos de mim.

— Que história com seu irmão?

— Não é da sua conta.

— Você sentou na minha mesa fingindo ser minha namorada por cinco minutos e agora quer privacidade?

— Eu concordei em comer torta, não em contar minha biografia.

Ele quase sorriu, mas alguma coisa na voz dele ficou mais séria.

— Tudo bem. Guarda seus segredos.

Antes que eu pudesse responder, senti uma sombra parar ao lado da mesa.

Perfume caro. Salto alto batendo no piso de madeira.

— Ethan.

A voz de Lauren Pierce era doce por fora e afiada por dentro, do jeito que só quem já foi apunhalada por alguém sabe reconhecer na hora.

Ethan levantou o olhar devagar, como se estivesse decidindo o quanto de esforço aquela mulher ainda merecia.

— Lauren.

— Não sabia que você tinha… companhia — ela disse, os olhos correndo por mim de cima a baixo, avaliando o vestido simples, o cabelo preso às pressas, a bolsa de trabalho apoiada na cadeira ao lado.

— Hannah — eu me apresentei, estendendo a mão antes que ele precisasse inventar alguma coisa.

Lauren olhou para minha mão como se fosse algo estranho, mas apertou por educação.

— Interessante — ela murmurou. — Ethan nunca trouxe ninguém para o Bellamy’s antes.

— Talvez ele estivesse esperando a pessoa certa — respondi, num tom leve, mas com um brilho de provocação.

Ethan quase engasgou com o próprio bourbon.

O homem ao lado de Lauren, aquele do blazer azul-marinho, riu baixinho, como quem aprecia ver alguém perder uma discussão.

— Grant, vamos — Lauren falou, puxando o braço dele.

Grant.

Meu corpo travou por uma fração de segundo antes que eu conseguisse me recompor.

Aquele nome também não era estranho para mim.

Mas por motivos completamente diferentes dos de Ethan.

Lauren deu um último olhar para a mesa, um misto de desdém e curiosidade mal disfarçada, e se afastou puxando Grant pelo cotovelo.

Assim que os dois saíram de vista, Ethan soltou um suspiro longo.

— Isso foi… — ele começou.

— Constrangedor? Patético? Digno de um filme ruim de domingo à tarde?

— Eu ia dizer satisfatório — ele respondeu, e dessa vez o sorriso chegou aos olhos.

Zoe voltou com dois pratos de torta de nozes e uma bola generosa de sorvete de baunilha derretendo na lateral.

— Por conta da casa — ela disse baixinho, colocando o prato na minha frente. — Desculpa por antes.

— Tudo bem, Zoe.

Ela hesitou por um segundo antes de se virar.

— O cara ainda está te procurando, Hannah. Apareceu aqui semana passada perguntando por você.

Minha mão travou em volta do garfo.

— Que cara? — Ethan perguntou, a voz de repente diferente. Mais baixa. Mais atenta. A voz de um homem que passou a vida inteira aprendendo a notar quando algo estava errado.

Zoe olhou para mim, pedindo permissão silenciosa.

Eu não dei.

— Ninguém — falei rápido demais. — Um cliente chato do trabalho antigo.

Zoe entendeu o recado e se afastou sem dizer mais nada.

Mas Ethan não desgrudou os olhos de mim.

— Você é péssima mentirosa, Hannah Bishop.

— E você é bom demais em prestar atenção em coisas que não são da sua conta.

— Talvez eu tenha aprendido a prestar atenção porque isso já salvou minha vida umas duas ou três vezes.

Aquilo me pegou de surpresa. Não pela frase em si, mas pelo peso que ela carregava.

Fiquei olhando para o prato, brincando com a pontinha do garfo no sorvete que derretia.

— Meu irmão se meteu com gente perigosa — falei, finalmente, sem levantar os olhos. — Há três anos. Ninguém nunca me disse o que aconteceu de verdade com ele.

O silêncio que caiu sobre a mesa era diferente de todos os outros daquela noite.

— Qual era o nome dele? — Ethan perguntou, e havia algo na voz dele que eu não soube identificar na hora.

Cuidado, talvez.

Ou reconhecimento.

— Michael — respondi. — Michael Bishop.

Vi o exato momento em que o rosto de Ethan Cole, o homem mais temido de Richmond, perdeu toda a cor.

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