Chapter 4
Passei a noite naquela casa, num quarto de hóspedes que parecia maior que meu apartamento inteiro.
Não dormi.
Fiquei olhando para o teto, repassando cada detalhe da minha vida nos últimos três anos que agora parecia fazer parte de um quebra-cabeça que eu nem sabia que estava tentando montar.
De manhã, encontrei Ethan na cozinha, já vestido, café na mão, olheiras embaixo dos olhos.
— Você também não dormiu — falei.
— Fiz umas ligações a noite toda.
— E?
— Reyes ainda está ativo. Mais discreto do que era há três anos, mas ativo. E o nome do seu irmão apareceu numa conversa antiga que meu contato conseguiu recuperar.
— Ele está vivo?
Ethan colocou a xícara na bancada devagar, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Existe um homem que trabalha para Reyes num armazém perto do porto. A descrição bate com seu irmão. Cabelo mais curto, uma cicatriz nova na sobrancelha. Mas é ele.
As pernas quase cederam debaixo de mim.
— Ele está vivo.
— Aparentemente sob vigilância constante. Reyes não deixa ele sair sozinho.
— Então ele é refém.
— Ou está sendo usado como garantia de silêncio.
Sentei numa das banquetas da cozinha, tentando não desmoronar ali mesmo.
— Eu preciso vê-lo.
— Não assim, de repente. Se Reyes perceber que você reapareceu, ele pode usar Michael contra você, ou pior.
— Então o que a gente faz?
Ele olhou para mim com uma determinação que eu não esperava sentir tão cedo confiar.
— A gente descobre exatamente o que Grant fez, junta prova suficiente para colocar Reyes numa posição impossível, e tira seu irmão de lá com segurança. Sem improviso.
Passamos o dia inteiro trancados naquele escritório, Ethan fazendo ligações que eu só entendia pela metade, códigos e nomes que pareciam pertencer a outro mundo.
À tarde, um dos homens de Ethan trouxe uma pasta fina.
Dentro dela, fotos.
Grant, em um bar, entregando um envelope para um homem que eu não reconhecia.
— Quem é esse? — perguntei.
— Um dos homens de Reyes. Isso foi tirado há duas semanas.
— Então Grant ainda está roubando dele.
— E ainda usando meu nome para se proteger, aparentemente.
A raiva na voz de Ethan era diferente de tudo que eu tinha visto até ali. Fria. Controlada. Perigosa de um jeito que fazia sentido ele ser temido por tanta gente.
Meu celular vibrou.
Um número desconhecido.
Atendi por impulso.
— Hannah Bishop — disse uma voz de homem, calma, quase educada. — Há quanto tempo.
Meu sangue gelou.
— Quem é você?
— Alguém que conhece muito bem seu irmão. E que ficaria extremamente triste se você continuasse fazendo perguntas erradas para as pessoas erradas.
Ethan percebeu minha expressão e se aproximou, tentando ouvir.
— Se você quer ver Michael de novo, inteiro, eu sugiro que você e seu novo amigo rico parem de bisbilhotar.
A ligação caiu antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.
Fiquei olhando para o celular, tremendo.
— O que ele disse? — Ethan perguntou, a voz tensa.
Repeti cada palavra, e vi o maxilar dele travar de um jeito que eu já reconhecia daquela primeira noite.
— Isso significa que estamos perto — ele disse. — Perto demais para eles ficarem confortáveis.
— Ou perto demais para eles decidirem que Michael não vale mais o risco de mantê-lo vivo.
O silêncio que caiu entre nós dessa vez não era desconfortável.
Era medo puro, compartilhado.
— Eu não vou deixar isso acontecer — Ethan falou, segurando meu rosto com as duas mãos, me obrigando a olhar para ele. — Nem com seu irmão, nem com você.
— Você nem me conhecia até ontem.
— E ainda assim, é a primeira vez em três anos que eu me importo genuinamente com o que acontece com alguém além de mim mesmo.
Aquilo doeu e curou ao mesmo tempo, de um jeito que eu não sabia explicar.
