A primeira coisa que o chefão mais temido da máfia em Richmond me disse foi: “Eu pago quinhentos dólares se você sentar na minha mesa e fingir que está apaixonada por mim.

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Chapter 6

Duas semanas se passaram desde aquela noite no armazém.

Michael estava se recuperando aos poucos, física e emocionalmente, morando temporariamente num dos apartamentos que Ethan mantinha vazios para situações exatamente como aquela.

Grant, por sua vez, não teve a mesma sorte.

As provas que Ethan reuniu chegaram até as pessoas certas: parceiros de negócio, investidores, e principalmente Reyes, que não perdoou a traição financeira nem por um segundo.

Numa tarde de sexta-feira, Ethan recebeu a notícia por telefone, sem emoção na voz, apenas fatos.

— Grant fugiu da cidade — ele me contou, guardando o celular no bolso. — Reyes confiscou tudo que ele tinha construído usando dinheiro roubado. Ele não vai conseguir se esconder por muito tempo, não do jeito que fez inimigos.

— Você sente alguma coisa por isso? Pena, talvez?

Ethan pensou por um momento antes de responder.

— Eu sinto alívio. Ele tirou minha confiança em qualquer coisa por três anos. Agora, finalmente, sinto que posso confiar de novo.

Estávamos sentados na varanda da casa dele, o sol da tarde caindo suave sobre o jardim, Michael dentro de casa assistindo televisão com o som baixo, ainda se acostumando com a ideia de liberdade.

— E Lauren? — perguntei, num tom mais leve.

— Lauren me ligou ontem. Disse que soube o que aconteceu e queria conversar.

Meu estômago se apertou, um ciúme bobo que eu não esperava sentir.

— E o que você disse?

Ethan sorriu, e daquele jeito só meu, reservado, que eu já tinha aprendido a reconhecer como raro.

— Disse que ela chegou tarde demais. Que a mulher que sentou na minha mesa fingindo namorar comigo por pecan pie já tinha conquistado um lugar que Lauren nunca vai recuperar.

Senti o rosto esquentar, mas dessa vez não era vergonha.

— Isso foi cafona.

— Extremamente cafona — ele concordou, aproximando o rosto do meu. — Mas verdadeiro.

Michael apareceu na porta da varanda, apoiado no batente, ainda um pouco mais magro do que deveria, mas com um brilho nos olhos que eu não via há três anos.

— Vocês dois vão ficar aí se olhando a noite inteira, ou alguém vai fazer o jantar? — ele perguntou, brincando pela primeira vez desde que voltou.

Rimos, um som que parecia estranho depois de tanto tempo carregando medo.

Naquela noite, sentados os três à mesa, comendo uma lasanha malfeita que Ethan insistiu em cozinhar sozinho, senti algo que tinha esquecido como era: paz.

Não a paz de quem finge que está tudo bem.

A paz de quem finalmente sabe que está.

Michael contou histórias engraçadas da infância para tentar aliviar o clima, Ethan ria mais naquele jantar do que em anos inteiros de reputação fria e calculada, e eu simplesmente observava, guardando cada segundo como quem guarda algo raro e frágil.

Mais tarde, sozinha na varanda com Ethan, olhando as estrelas aparecerem devagar sobre o jardim, ele segurou minha mão sem dizer nada.

— Sabe — falei, quebrando o silêncio — tudo começou porque você precisava de uma namorada fake por sete minutos.

— O melhor investimento de quinhentos dólares que eu já fiz — ele respondeu, rindo baixinho.

— Você nunca me pagou, aliás.

— Acho que te devo bem mais que isso agora.

Fiquei ali, encostada nele, sentindo o peso dos últimos três anos finalmente se dissolver no ar da noite.

Meu irmão estava vivo, em segurança, dormindo tranquilo pela primeira vez em muito tempo.

O homem ao meu lado, que todo mundo temia, tinha se tornado a pessoa em quem eu mais confiava no mundo inteiro.

E eu me perguntei, olhando para o céu estrelado: quantas vezes a gente já deixou de acreditar em alguém, ou em nós mesmos, achando que já era tarde demais para recomeçar?

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