Por três anos, eu trabalhei a três metros do homem mais perigoso de Savannah e, de alguma forma, continuei invisível pra ele.

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Chapter 1

Por três anos, eu trabalhei a três metros do homem mais perigoso de Savannah e, de alguma forma, continuei invisível pra ele. Aí, numa noite, troquei meu cardigã cinza por um vestido preto que marcava cada curva pela qual eu tinha passado metade da vida me desculpando — e quando Adrian King ergueu os olhos, ficou completamente parado, e perguntou “Pra quem você se arrumou assim?”, eu percebi que o homem que mal reparava em mim tinha prestado muito mais atenção do que eu jamais imaginei.

Meu nome é Olivia Calloway.

Aos trinta e um anos, eu tinha aperfeiçoado a arte de desaparecer bem na frente das pessoas.

Atendia telefone na King Import and Freight, decorava o pedido de café de todo mundo, corrigia documentos de embarque antes que os erros virassem desastre, e sentava do lado de fora do elevador privado que levava ao quadragésimo andar.

Oficialmente, a gente movimentava café, tecidos e peças de máquinas pelo porto de Savannah.

Eu já trabalhava lá tempo suficiente pra saber que algumas cargas pertenciam a um mundo que nunca aparecia no papel da empresa.

E também sabia que era melhor não fazer perguntas.

Principalmente sobre Adrian King.

Ele tinha quase quarenta anos, ombros largos, cabelo escuro, e se portava como um homem que aprendeu muito cedo que violência resolvia mais rápido do que negociação.

A maioria dos funcionários chamava ele de Sr. King.

Outras pessoas baixavam a voz só de mencionar o nome dele.

Pra ele, eu era simplesmente a secretária do lado de fora da sala.

— Remarca a ligação de Boston.

— Acha o arquivo de Rotterdam.

— Avisa a segurança que estou esperando alguém ao meio-dia.

Era isso, nossa relação.

Eficiente.

Profissional.

Invisível.

E talvez devesse ser o suficiente.

Mas ser invisível já me acompanhava muito antes do Adrian.

Eu tinha catorze anos quando um menino me disse, pela primeira vez, que eu seria bonita se perdesse uns nove quilos.

Eu perdi.

Recuperei.

Perdi de novo.

Meu corpo nunca virou a versão que as outras pessoas pareciam determinadas a exigir de mim.

Quadril largo.

Braços macios.

Uma barriga curvada.

Aos vinte e oito anos, parei de lutar contra isso — não porque de repente passei a me amar, mas porque estava exausta de odiar o mesmo corpo todas as manhãs.

Aí eu tomei a péssima decisão de namorar aquele mesmo menino.

Grant Hollis.

Ele passou dois anos disfarçando crueldade de preocupação.

— Eu só quero que você seja saudável.

— Você se sentiria mais confiante se se esforçasse mais.

— Eu só falo isso porque me importo.

Quando ele terminou comigo por uma gestora de patrimônio que corria maratona, uma semana antes do meu trigésimo aniversário, a voz dele já tinha se instalado permanentemente na minha cabeça.

Por isso mulheres como Priscilla Vance mal precisavam me insultar.

Minha própria mente já terminava o serviço por elas.

Numa manhã de chuva, ela parou na minha mesa com café pra todo mundo, menos pra mim.

Olhou devagar pra minha saia.

— Isso costumava servir diferente?

— É a mesma que usei na terça.

— Hum.

Os olhos dela passearam por mim.

— Corajosa.

Sorri como se não doesse.

Depois ela foi embora.

Era isso que eu fazia.

Sobrevivia.

Trabalhava.

Ficava quieta.

Às 10h40, o elevador privado apitou.

Adrian saiu dele.

Passou pela minha mesa, depois parou.

Por um segundo estranho, pensei que ele tivesse ouvido a Priscilla.

Os olhos dele foram até o corredor por onde ela tinha sumido.

Depois voltaram pra mim.

— Arquivo de Rotterdam.

— Já está na sua mesa.

Uma pausa.

— Claro que está.

Ele sumiu dentro da sala dele.

Aquilo foi o mais perto de um elogio que ele já tinha me dado em três anos.

Naquela noite, fiquei parada no meu apartamento, olhando pro convite do coquetel da empresa na orla.

Quase fiquei em casa.

Aí vi o vestido preto pendurado no armário — aquele que eu tinha comprado meses antes e nunca tinha tido coragem de usar.

Só dessa vez, ignorei a voz do Grant.

Ignorei a da Priscilla.

Ignorei cada julgamento imaginário.

Na noite seguinte, entrei no coquetel usando ele.

A conversa realmente falhou por um instante.

Priscilla ficou olhando.

E, do outro lado da sala, Adrian King se virou na minha direção.

O copo dele parou no meio do caminho até a boca.

Ele me olhou por tanto tempo que o calor subiu pro meu rosto.

Depois atravessou a sala.

Devagar.

Deliberadamente.

Parou bem na minha frente, a expressão mais séria do que eu já tinha visto nele.

— Olivia.

— Sim, Sr. King?

Os olhos dele desceram brevemente pro vestido antes de voltar pros meus.

Então o homem mais controlado de Savannah me perguntou, bem baixinho:

— Pra quem você se arrumou assim?

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