Chapter 2
Minha boca abriu, mas nenhuma palavra saiu.
O silêncio na sala parecia mais alto do que qualquer grito.
— Emma — Julian repetiu, mais baixo dessa vez —, eu preciso que você responda.
Celeste deu um passo à frente, a voz subindo de tom.
— Ela é uma empregada, Julian. Você vai acreditar numa empregada e não em mim?
Ele nem virou o rosto pra ela.
— Eu vou acreditar no sangue no meu lenço.
Vivian apertou minha mão, os dedos finos e frios.
— Conta pra ele, querida. Não precisa ter medo agora.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo o gosto de sangue no canto da boca.
— Três vezes — falei, quase sussurrando. — Isso é a terceira vez que ela me machuca. As outras duas, ela disse que ia me mandar embora se eu contasse pra alguém.
Celeste soltou uma risada seca, nervosa.
— Isso é ridículo. Ela está inventando pra se fazer de vítima.
— Eu tenho as fotos — falei, e minha própria voz me assustou de novo.
O rosto de Celeste ficou branco.
— Que fotos?
— Do meu braço, de duas semanas atrás. Depois que a senhora me trancou na despensa por três horas porque eu servi o vinho errado.
Julian ficou muito quieto.
— Você guardou fotos.
— Guardei porque tive medo de que um dia ninguém fosse acreditar em mim.
Ele se virou para um dos seguranças atrás dele.
— Marcus, leva a Celeste pra sala de estar. Ninguém sai da propriedade até eu resolver isso.
Celeste engasgou.
— Você está me tratando como uma criminosa na minha própria festa de noivado?
— Não é mais o seu noivado — Julian disse, sem levantar a voz. — Foi encerrado há dois minutos, quando você colocou a mão na minha mãe.
Um homem alto, de terno cinza, se aproximou pela lateral do salão. Reconheci o rosto: Marcus Reyes, o chefe de segurança de Julian, sempre calado, sempre observando tudo de longe.
Mas dessa vez, alguma coisa no jeito dele parecia diferente. Ele trocou um olhar rápido com Celeste antes de se virar pra Julian.
— Senhor, talvez seja melhor resolver isso em particular, sem os convidados vendo.
— Os convidados já viram o suficiente — Julian respondeu, sem desviar o olhar de mim.
Foi então que reparei numa coisa que eu nunca tinha notado antes: no pescoço de Julian, escondido sob a gola da camisa, havia uma corrente fina com um pingente pequeno, quase idêntico a um que minha mãe usava antes de morrer.
Ele percebeu que eu estava olhando e tocou o pingente instintivamente.
— O que foi? — ele perguntou.
— Nada — menti, sentindo o coração disparar.
Vivian, que ainda segurava minha mão, sussurrou baixinho, só pra mim:
— Você reconheceu isso, não foi?
Antes que eu pudesse responder, Julian se ajoelhou de novo na minha frente, examinando o corte no meu rosto com mais atenção.
— Isso precisa de pontos — ele disse. — Vou chamar o médico da família.
— Não precisa, eu fico bem.
— Emma. — Ele disse meu nome como se fosse uma ordem gentil. — Você acabou de tomar uma bofetada por proteger a minha mãe. O mínimo que posso fazer é cuidar de você.
Celeste, ainda sendo conduzida por Marcus, gritou por cima do ombro:
— Isso não vai terminar assim, Julian! Meu pai não vai deixar barato!
Julian nem piscou.
— Diz pro seu pai que ele sabe onde me encontrar.
Quando ela finalmente saiu da sala, o silêncio que ficou parecia mais pesado do que antes.
Vivian olhou pra mim com uma expressão estranha, quase de reconhecimento, como se estivesse tentando encaixar uma peça que não fazia sentido.
— Emma — ela sussurrou —, seu sobrenome de solteira… era Hale, não era?
Meu sangue gelou de um jeito completamente diferente daquele susto todo.
— Como a senhora sabe disso?
Vivian abriu a boca pra responder, mas Julian a interrompeu, ajudando os dois a se levantarem.
— Isso pode esperar. Agora ela precisa de um médico.
Mas o olhar que Vivian me lançou, por cima do ombro dele, dizia que aquilo não ia esperar por muito tempo.
