Chapter 4
Fiquei sentada na cama por talvez dez minutos antes de decidir que não conseguia esperar sem saber o que estava acontecendo lá embaixo. Desci as escadas devagar, meu corpo ainda dolorido, e me escondi atrás da porta entreaberta da biblioteca.
Richard Whitcomb era um homem grande, de cabelo grisalho penteado pra trás, com o tipo de sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Julian, meu rapaz, isso tudo é um mal-entendido — ele estava dizendo. — Celeste é impulsiva, eu admito, mas daí a você acabar o noivado na frente de todo mundo…
— Sua filha agrediu a minha mãe e uma funcionária da minha casa — Julian respondeu, frio. — Isso não é impulsividade, é violência.
Richard riu, um som seco e sem humor.
— Funcionária. É disso que estamos falando? De uma empregada?
— Ela se chama Emma Hale — Julian disse, e algo na forma como ele falou meu nome fez meu peito apertar. — E acho que você sabe exatamente quem é o pai dela.
O silêncio que se seguiu foi tão longo que consegui ouvir meu próprio coração batendo.
— Não sei do que você está falando — Richard disse, mas a voz dele tinha perdido a confiança de antes.
— Robert Hale. Trabalhava nas docas do porto sul. Morreu há quinze anos, num “acidente” que tem duas versões diferentes no relatório oficial. Uma delas com a sua assinatura.
— Documentos antigos podem ter erros administrativos, Julian, isso não significa nada.
— Então você não vai se importar se eu pedir pro meu advogado reabrir o caso.
Ouvi o som de um copo sendo colocado na mesa com mais força do que o necessário.
— Você quer mesmo abrir essa caixa, meu rapaz? Porque coisas velhas, quando desenterradas, machucam todo mundo. Inclusive o nome do seu próprio pai.
Prendi a respiração atrás da porta.
— O que isso quer dizer? — Julian perguntou, e pela primeira vez ouvi uma rachadura na calma dele.
— Quer dizer que o seu pai sabia exatamente o que aconteceu naquelas docas, e escolheu ficar calado, porque calar a boca era mais lucrativo do que fazer justiça. Se você abrir essa investigação, o nome Calder vai afundar junto com o meu.
— Então os dois sabiam — Julian disse, a voz agora perigosamente baixa. — Meu pai e o seu, os dois sabiam que um homem morreu por causa de negligência ou coisa pior, e escolheram enterrar isso.
— Eram outros tempos, Julian. Negócios eram assim.
— Negócios não valem a vida de um pai que uma filha nunca mais teve.
Não aguentei mais e empurrei a porta, entrando na biblioteca. Os dois se viraram pra mim.
— Emma — Julian disse, surpreso, mas não zangado.
Richard me olhou de cima a baixo com desprezo.
— Então é você. A filha do Hale.
— Sou — respondi, surpresa com a firmeza da minha própria voz. — E eu passei nove meses limpando essa casa, servindo bebida na sua filha, engolindo humilhação, só pra conseguir provar que meu pai não morreu por acidente. Ele morreu porque incomodava. Porque tinha visto alguma coisa que não devia.
Richard deu um passo em direção a mim, mas Julian se colocou entre nós, um movimento tão rápido que ninguém teve tempo de reagir.
— Você vai sair da minha casa agora — Julian disse. — E vai levar sua filha e o que restou do noivado dela junto. Se alguma coisa acontecer com a Emma, com a minha mãe, ou comigo, o primeiro lugar que a polícia vai procurar é a sua porta.
Richard ficou vermelho de raiva, mas algo no rosto de Julian o fez recuar.
— Isso não terminou — ele disse, apontando o dedo antes de sair pisando duro.
Quando a porta bateu, o silêncio voltou, mas dessa vez diferente. Mais pesado. Mais real.
Julian se virou pra mim, e pela primeira vez desde que eu o conhecia, vi alguma coisa parecida com culpa nos olhos dele.
— Meu pai sabia — ele disse, quase pra si mesmo. — O tempo todo, ele sabia o que aconteceu com o seu.
— Julian, eu não vim aqui pra culpar você.
— Eu sei. — Ele respirou fundo. — Mas agora eu preciso consertar isso. De verdade.
Foi quando ouvimos o barulho de vidro quebrando no andar de cima, seguido do grito de Vivian.
