A bofetada era para o rosto frágil de Vivian Calder, mas eu me coloquei entre elas antes mesmo de pensar.

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Chapter 3

O médico da família chegou em vinte minutos, deu três pontos no meu rosto e disse que eu tinha sorte de o corte não ter sido mais fundo. Julian ficou parado no corredor o tempo todo, os braços cruzados, sem dizer uma palavra, mas sem sair também.

Quando o médico foi embora, ele entrou no quarto onde eu estava sentada.

— Você devia estar descansando na sua própria casa, não aqui — falei, tentando parecer mais forte do que me sentia.

— Essa é a minha casa — ele respondeu. — E você é minha responsabilidade agora, goste ou não.

— Eu não sou responsabilidade de ninguém.

Ele se sentou na cadeira ao lado da cama, olhando pra mim com uma seriedade que me deixou sem graça.

— Minha mãe perguntou sobre o seu sobrenome. Hale.

Senti o estômago revirar.

— É coincidência.

— Você não parece muito convencida disso.

Fiquei quieta por um momento longo demais.

— Meu pai trabalhava nas docas — falei, por fim. — Há quinze anos. Ele morreu num acidente, disseram. Uma carga que caiu errado.

Julian ficou muito imóvel.

— Qual doca?

— A do porto sul. A que pertencia à Calder Shipping antes de vocês venderem parte do negócio pra outra família.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse juntando peças que não queria juntar.

— A Whitcomb Logistics.

— Isso.

— A família da Celeste.

Balancei a cabeça, sentindo as lágrimas ameaçarem sair, mas engoli tudo.

— Eu peguei esse emprego há nove meses porque descobri, num arquivo antigo do sindicato, que o “acidente” do meu pai foi registrado de forma estranha. Duas versões diferentes do relatório. E o nome que aparecia assinando a segunda versão era Richard Whitcomb.

Julian se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão.

— Você veio atrás de provas.

— Vim atrás da verdade — corrigi. — Eu não sabia que ia conhecer a sua mãe, não sabia que ia… — parei, sem conseguir terminar a frase.

— Não sabia que ia se importar com a gente — ele completou, a voz mais suave do que eu esperava.

Confirmei com a cabeça, envergonhada.

— Achei que ia ser fácil. Trabalhar aqui um tempo, procurar documentos antigos, ir embora. Mas Vivian foi gentil comigo desde o primeiro dia, e isso complicou tudo.

Ele ficou olhando pela janela por um longo momento.

— Meu pai morreu há seis anos. Um “ataque cardíaco”, disseram. Mas ele nunca teve problema de coração antes disso, e duas semanas antes de morrer, ele brigou feio com Richard Whitcomb sobre alguma coisa que nunca me contou.

Meu coração começou a bater mais forte.

— Você acha que os dois estão ligados?

— Eu acho — Julian disse, devagar — que é hora de eu abrir uma investigação que devia ter aberto há anos.

Bateram na porta. Era Marcus, com o rosto tenso.

— Senhor, Richard Whitcomb está aqui. Insistindo em falar com o senhor agora.

Julian trocou um olhar comigo antes de se virar pra sair.

— Fica aqui. Não saia desse quarto até eu voltar.

— Julian.

Ele parou na porta.

— Toma cuidado com o Marcus — falei, sem saber exatamente por que aquilo saiu da minha boca. — Ele trocou um olhar com a Celeste, antes. Não gostei.

Alguma coisa endureceu no rosto de Julian.

— Eu também não gostei.

Ele saiu, e o som dos passos dele se afastando pelo corredor foi a coisa mais alta que eu já tinha ouvido na vida.

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