Chapter 3
O envelope ficou ali, suspenso na mão do meu pai, como uma sentença ainda não lida.
Ethan deu um passo para trás, batendo contra a mesinha de assinaturas. Os papéis do divórcio caíram no chão, as folhas se espalhando pelo tablado do palco.
— Isso não pode estar acontecendo — ele murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
Meu pai finalmente abriu o envelope por completo.
— Em 2021, sua empresa estava a quarenta e cinco dias de declarar falência — disse ele, sem levantar a voz, porque nunca precisava. — Os servidores seriam desligados. A folha de pagamento não fecharia. Você lembra disso, Ethan?
Ethan não respondeu.
— Um grupo de investimento anônimo injetou catorze milhões de dólares na sua empresa — continuou meu pai. — Quitou as dívidas com fornecedores. Pagou a equipe de engenharia que, mais tarde, você apresentou aos jornais como “a equipe dos sonhos que eu montei do zero”.
Um murmúrio percorreu a plateia.
— Aquele grupo era a Evans Holdings — disse meu pai. — E a pessoa que assinou o pedido de investimento, que passou três noites sem dormir revisando sua planilha financeira, que me convenceu a arriscar catorze milhões num homem que eu nunca tinha visto na vida, foi minha filha.
Todos os olhos se viraram para mim.
Eu não desviei o olhar de Ethan.
— Você nunca perguntou por que os termos foram tão bons pra você — falei. — Nunca perguntou por que nenhum outro fundo teria aceitado aquele risco. Achou que era sorte.
— Você fez isso? — Ethan sussurrou, como se a pergunta doesse fisicamente. — Você… foi você o tempo todo?
— Fui eu quem salvou sua empresa — respondi. — E fui eu quem ficou calada enquanto você me chamava de fardo na frente de todo mundo.
Miranda finalmente largou o microfone na mesa, como se ele estivesse pesando toneladas.
— Espera — ela disse, a voz alta o suficiente pra chegar até nós mesmo sem o microfone. — Catorze milhões? Ethan, você me disse que construiu tudo isso sozinho.
— Miranda, agora não é a hora — ele rosnou.
— Não, é exatamente a hora — ela respondeu, dando um passo para trás, os saltos altos batendo no tablado.
Meu pai ergueu a mão, pedindo silêncio, e o salão obedeceu como se ele fosse dono do ar ali dentro.
— Existe uma segunda cláusula — disse ele, olhando diretamente para Ethan. — Página vinte e dois. No caso de conduta que prejudique publicamente a reputação da investidora principal, a Evans Holdings tem direito a assento majoritário no conselho, com efeito imediato.
— Isso significa… — a voz de um dos executivos juniores na plateia sumiu no meio da frase.
— Significa que, a partir de agora — completou meu pai —, minha filha controla a Caldwell Technologies.
Ethan riu, uma risada seca, sem humor nenhum, o tipo de risada de quem está prestes a desmoronar.
— Isso não é possível. Eu sou o fundador. Eu sou o CEO.
— Você é o rosto — eu disse. — Eu sempre fui os alicerces.
Ele olhou para mim como se me visse pela primeira vez de verdade — não a esposa quieta que ele levava a jantares, mas a mulher que tinha lido cada contrato, guardado cada recibo, documentado cada mentira.
— As roupas simples — ele murmurou, juntando as peças. — O sobrenome da sua mãe. Você escondeu tudo de propósito.
— Eu queria saber se você me amava por mim — falei, a voz mais baixa agora, quase só para ele. — Você me deu a resposta há muito tempo.
Miranda deu mais um passo para trás, os olhos indo de Ethan para mim, para meu pai, tentando entender em que história ela tinha entrado sem querer.
— O colar — eu disse, olhando direto para ela agora. — Cartier. Sessenta mil dólares, pagos com uma nota de “consultoria estratégica” da empresa que, tecnicamente, é minha.
O rosto de Miranda perdeu toda a cor.
— Eu não sabia — ela sussurrou. — Ele me disse que era dinheiro dele.
— Ele nunca teve dinheiro dele — respondi. — Só teve o meu, com o nome dele escrito em cima.
Ethan deu um passo na minha direção, e os dois homens de segurança se moveram junto, silenciosos, prontos.
— Olivia, espera — ele disse, a arrogância evaporando rápido demais para conseguir esconder o desespero por baixo. — A gente pode conversar. Em particular. Isso não precisa acontecer desse jeito.
— Devia ter pensado nisso antes de me entregar papéis de divórcio na frente de trezentas pessoas — falei.
Meu pai fechou o envelope novamente, calmo, como se estivesse encerrando uma reunião qualquer de trabalho.
— A partir de amanhã de manhã, meus advogados entram em contato com o conselho da Caldwell Technologies — disse ele. — Sugiro que você chame os seus.
Ethan olhou para os papéis de divórcio espalhados no chão, depois para mim, depois para Miranda, como se estivesse tentando decidir qual incêndio apagar primeiro.
— Isso ainda não acabou — ele disse, tentando recuperar algum controle na voz.
— Não — concordei, me virando para descer as escadas ao lado do meu pai. — Só está começando.
Foi então que o celular de Ethan, ainda no bolso do smoking, começou a tocar sem parar.
Ele olhou a tela e o pouco de cor que restava no rosto dele desapareceu de vez.
