A fechadura estalou atrás do mafioso mais temido de Boise enquanto eu ficava ali, sangrando, na cozinha dele — e eu tinha certeza de que ele havia trancado a porta para terminar o que um dos seus homens tinha começado

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Chapter 2

Fiquei sozinha na cozinha, com a toalha molhada ainda apertada contra o rosto.

Os minutos pareciam horas.

Eu ouvia passos abafados em algum lugar da casa, vozes baixas, uma porta batendo longe.

Tranquei a porta como Carmine tinha mandado.

Encostei as costas na parede e escorreguei até o chão, os joelhos dobrados contra o peito.

Pensei em fugir. Pensei em ligar para minha mãe. Pensei em tudo, menos no que realmente estava acontecendo lá fora.

Foi então que ouvi gritos.

Não gritos de dor — gritos de raiva. A voz de Rocco, tentando se explicar. A voz de Carmine, baixa, cortante, quase pior por ser tão controlada.

“Eu não sabia que ela era importante para você, chefe,” Rocco gaguejou, do outro lado do pátio, longe o bastante para eu só ouvir pedaços.

“Ela trabalha na minha casa,” a voz de Carmine respondeu. “Isso já deveria ser o suficiente.”

Houve um silêncio que durou segundos demais.

“Quem te mandou fazer isso?”

A pergunta pairou no ar como uma faca.

“Ninguém me mandou, chefe. Eu só—”

“Você está mentindo na minha cara, Rocco.”

O som de um corpo batendo contra metal me fez encolher, mesmo de dentro da cozinha trancada.

“Foi o Salvatore,” Rocco finalmente confessou, a voz quebrada. “Ele disse que se eu assustasse a garota, você ia ficar distraído. Ele só queria te ver fraco na frente dos outros capos.”

Salvatore.

Eu não conhecia esse nome, mas pelo tom de voz de Carmine quando ele o repetiu, entendi que aquele nome carregava anos de história ruim.

“Meu próprio primo,” Carmine disse, quase para si mesmo.

Depois, silêncio. Um silêncio pesado, do tipo que promete alguma coisa.

Não sei quanto tempo se passou até a porta da cozinha ser destrancada de fora.

Carmine entrou sozinho. As mangas da camisa estavam arregaçadas, os nós dos dedos vermelhos.

Ele não parecia mais o homem calmo que tinha me perguntado “quem te machucou” havia menos de uma hora.

Ele parecia cansado. Cansado de um jeito antigo.

“Rocco não vai mais incomodar você,” ele disse, sentando-se de novo no banquinho, como se nada tivesse acontecido.

“E o Salvatore?” perguntei, sem pensar direito antes de falar.

Os olhos dele se estreitaram. “Você ouviu.”

“Só um pouco.”

Carmine ficou em silêncio por um instante longo.

“Meu primo acha que eu deveria dividir o que é meu com ele. Ele está errado há anos, e eu deixei passar, porque família é família.” A voz dele endureceu. “Mas ele usou você para chegar até mim. Isso eu não deixo passar.”

“Eu não sou nada para o senhor,” falei baixinho. “Eu só limpo a sua casa.”

Carmine me olhou por um longo momento, como se estivesse decidindo se dizia a verdade ou não.

“Você é a primeira pessoa nesta casa em anos que não quer nada de mim,” ele disse por fim. “Isso vale mais do que você imagina.”

Ele se levantou, pegou o celular e discou um número.

“Preciso que você descubra uma coisa,” ele disse a quem quer que estivesse do outro lado da linha. “A dívida médica da mãe da Ivy. Quero saber quem comprou aquela dívida no mercado secundário. E quero saber ontem.”

Meu coração parou.

“Como assim, ‘quem comprou’? Foi o hospital que—”

“Hospitais vendem dívidas antigas, Ivy. Alguém pode ter comprado a sua só para ter uma corda amarrada no seu pescoço.” Ele guardou o celular no bolso. “E eu acho que sei quem foi.”

Um arrepio subiu pela minha espinha, mais frio do que qualquer coisa que Rocco tinha feito.

“O senhor acha que o Salvatore—”

“Eu não acho nada ainda,” ele me interrompeu. “Mas vou descobrir. E quando eu descobrir, Ivy, as coisas vão ficar bem mais complicadas do que um capanga bêbado atrás de uma lixeira.”

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