A fechadura estalou atrás do mafioso mais temido de Boise enquanto eu ficava ali, sangrando, na cozinha dele — e eu tinha certeza de que ele havia trancado a porta para terminar o que um dos seus homens tinha começado

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Chapter 3

Nos dias seguintes, minha vida virou de cabeça para baixo.

Carmine me tirou da escala de limpeza noturna e me colocou para trabalhar durante o dia, na ala da casa mais perto do escritório dele.

“É mais seguro assim,” ele disse, sem me dar chance de discutir.

No começo, achei estranho. Depois, percebi que ele mal saía do próprio escritório — como se estivesse, de alguma forma, de olho em mim o tempo todo.

Uma manhã, encontrei um envelope em cima da mesa da cozinha, com meu nome escrito à mão.

Dentro, um recibo. A dívida médica da minha mãe, quitada por completo. Cinquenta e dois mil dólares, zerados, como se nunca tivessem existido.

Corri até o escritório dele, sem bater.

“O senhor não precisava fazer isso.”

“Eu já tinha dito que faria.”

“Isso é dinheiro demais por causa de um hematoma.”

Carmine ergueu os olhos dos papéis na mesa. “Não é sobre o hematoma, Ivy. É sobre o que descobri esta manhã.”

Meu estômago se apertou. “O quê?”

Ele empurrou uma pasta na minha direção.

Dentro, havia registros financeiros, nomes que eu não reconhecia, e uma cópia de um contrato de venda de dívida médica.

“Sua dívida foi comprada há oito meses,” Carmine disse, “por uma empresa de fachada. E essa empresa de fachada pertence, através de três outras empresas, ao Salvatore.”

Senti o chão sumir sob meus pés.

“Isso não faz sentido. Por que ele ia comprar a dívida da minha mãe? Ele nem sabia que eu existia.”

“Ele sabia,” Carmine disse, com uma calma que doía mais do que gritos. “Ele estava planejando isso há meses. Ele precisava de alguém dentro da minha casa, alguém que ele pudesse controlar através do medo e da dívida. Você foi escolhida, Ivy. Não por acaso.”

Minhas mãos começaram a tremer.

“Então tudo isso — meu emprego aqui, a dívida da minha mãe — foi armado?”

“O emprego, não. Você conseguiu essa vaga por mérito, os registros de contratação mostram isso.” Ele fez uma pausa. “Mas a dívida, sim. Alguém quis te colocar numa posição desesperada, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, isso ia te trazer até perto de mim, de um jeito ou de outro.”

“E o Rocco?”

“Rocco só era a ferramenta. Fazer você sofrer, fazer eu reagir, fazer eu parecer descuidado com o que é meu na frente dos outros capos. Um teste. Salvatore queria ver até onde eu chegaria por uma faxineira.”

A palavra “faxineira” saiu da boca dele com desprezo — não por mim, percebi, mas pelo próprio primo, por reduzir uma pessoa a um cargo.

“E até onde o senhor chegou?” perguntei, a voz mais fraca do que eu queria.

Carmine se levantou, contornou a mesa, e parou perto de mim — perto o bastante para eu sentir o cheiro de fumaça e couro na roupa dele.

“Longe o suficiente para que ele já saiba que cometeu um erro,” ele disse. “E longe o suficiente para perceber que eu não estava fingindo quando disse que você está sob minha proteção.”

Fiquei ali, sem saber se devia agradecer ou fugir correndo.

“Por que o senhor está fazendo tudo isso por mim?” sussurrei. “O senhor mal me conhecia até essa noite.”

Ele ficou em silêncio por um momento longo demais.

“Porque há anos ninguém olha para mim sem ver o que pode tirar de mim,” ele disse por fim. “Você só olhou com medo. Isso, estranhamente, foi a coisa mais honesta que vi em muito tempo.”

Antes que eu pudesse responder, o celular dele vibrou na mesa.

Ele olhou a tela, e o rosto dele mudou completamente.

“O que foi?” perguntei.

“Salvatore quer uma reunião,” Carmine disse, guardando o celular no bolso do paletó. “Esta noite. E ele fez questão de dizer que você deveria estar presente.”

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