Chapter 2
Claire guardou o celular no bolso do avental com uma calma forçada que não enganava ninguém.
— Isso não era o que parecia — ela disse.
— Você disse meu nome. Falou sobre um livro-caixa. Sobre um acordo do porto que só sete pessoas no mundo conhecem.
— Coincidência.
— Não minta pra mim.
Ela ficou em silêncio, os olhos correndo até a porta, calculando distâncias, calculando se conseguiria fugir antes de eu me mover.
— Nem pensa nisso — falei, me colocando entre ela e a saída.
— Você vai me machucar?
A pergunta me pegou de jeito, mais do que eu esperava. Porque, por vinte anos, a resposta óbvia teria sido sim, sem hesitação. Mas alguma coisa no jeito como ela perguntou, sem histeria, só cansada, calculando o próprio risco com uma frieza que eu reconhecia de mim mesmo, me fez hesitar.
— Não, se você me disser a verdade agora.
Claire respirou fundo, os ombros caindo um pouco, como se estivesse desistindo de manter a fachada por mais tempo.
— Eu trabalho para uma promotora federal. Há oito meses, venho reunindo provas contra suas operações. Rotas de contrabando, lavagem de dinheiro através dos sindicatos, os subornos aos juízes.
Senti o chão balançar sob meus pés, mas mantive o rosto impassível, do jeito que sempre mantinha em qualquer negociação.
— Uma camareira. Trabalhando disfarçada. Isso é ambicioso demais até para promotores federais.
— Eu não sou só camareira, Sr. Reed. Sou contadora forense. Passei os últimos oito meses trabalhando nessa pousada porque descobri que um dos seus associados usa esse lugar como ponto de encontro mensal para movimentar documentos.
— E o livro-caixa que você mencionou?
— O que você acha que queimou num incêndio “acidental” no seu escritório de Charleston há três meses? Eu tirei cópias de tudo antes que o fogo começasse.
Aquilo me atingiu como um soco no estômago. Aquele incêndio tinha me custado meses de reorganização, e eu nunca suspeitei de sabotagem.
— Você provocou aquele incêndio?
— Não. Mas sabia que ia acontecer, e aproveitei a oportunidade para copiar tudo antes.
— Como você sabia que ia acontecer?
Ela hesitou, e pela primeira vez desde que a conversa tinha começado, algo além de cálculo frio passou pelos olhos dela.
— Isso é uma história para outra hora.
— Não. Agora.
— Sr. Reed, nós estamos presos nessa montanha até o amanhecer, no mínimo. Acha mesmo que é hora de eu te entregar cada detalhe do caso que estou construindo contra você?
— Acho que, se você não confiar em mim nem um pouco agora, eu vou ter que assumir que você representa uma ameaça direta, e agir de acordo.
O medo voltou aos olhos dela, mas dessa vez veio acompanhado de algo mais duro, mais determinado.
— Então age. Mas antes disso, você devia saber uma coisa: se algo acontecer comigo essa noite, tudo que reuni contra você já está protegido, em mãos que vão garantir que chegue ao FBI de qualquer forma. Me machucar não resolve nada pra você. Só piora sua situação.
Fiquei olhando para aquela mulher, pequena em estatura, mas com uma espinha dorsal de aço que eu raramente via nem entre os homens mais experientes da minha própria organização.
— Por que você está fazendo isso, Claire? Investigação federal geralmente não manda uma agente sozinha se infiltrar como camareira. Isso é pessoal.
O silêncio dela, dessa vez, durou tempo suficiente para confirmar minha suspeita antes mesmo dela responder.
— É pessoal, sim.
— Conta.
— Meu irmão mais novo, Tommy, trabalhava para um dos seus subcontratados de transporte. Há dois anos, ele descobriu que as cargas que carregava não eram só mercadoria legal. Tentou denunciar.
O silêncio que se seguiu pesou entre nós como uma sentença.
— O que aconteceu com ele?
— Você realmente precisa perguntar isso, Sr. Reed?
