A neve tinha fechado a montanha, meu comboio estava parado abaixo do desfiladeiro, e o único quarto que sobrava na pousada pertencia a uma camareira que olhava para mim como se não fizesse a menor ideia de quem eu era.

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Chapter 3

Senti um frio diferente descer pela espinha, porque eu já sabia, antes mesmo dela terminar, que aquela história ia me colocar numa posição que eu não estava acostumado a ocupar: a de vilão sem espaço para negociar.

— Eu não conheço o nome dele — falei, tentando manter a voz firme. — Não posso ser responsável por decisões que meus subcontratados tomam sem meu conhecimento direto.

— Você é o topo da cadeia, Sr. Reed. A responsabilidade sempre sobe até você, mesmo quando você prefere fingir que não.

— O que aconteceu com Tommy?

Claire respirou fundo, os olhos brilhando com lágrimas que ela claramente se recusava a deixar cair na minha frente.

— Ele foi encontrado morto num rio, dois dias depois de tentar entregar documentos para as autoridades locais. Disseram que foi acidente. Afogamento.

— E você não acreditou nisso.

— Meu irmão nadava desde os cinco anos de idade, Sr. Reed. Ele competia em provas de natação na faculdade. Não existe versão do universo onde Tommy simplesmente se afoga por acidente num rio raso.

Fiquei em silêncio, processando aquilo, tentando lembrar de qualquer detalhe sobre um subcontratado de transporte, um incidente com um funcionário há dois anos, mas a verdade é que operações daquele tamanho geravam problemas o tempo todo, a maioria resolvida antes mesmo de chegar às minhas mãos.

— Eu não autorizei nenhuma morte relacionada a isso.

— Talvez não diretamente. Mas alguém abaixo de você decidiu que era mais fácil silenciar meu irmão do que deixar ele expor o esquema, e você nunca soube, porque nunca precisou saber. Esse é justamente o problema com homens como você, Sr. Reed. Vocês constroem impérios inteiros sobre camadas de gente disposta a sujar as mãos, só para vocês poderem manter as suas limpas.

Aquelas palavras cortaram fundo, mais fundo do que eu esperava que pudessem, porque havia uma verdade inegável nelas que eu tinha passado anos evitando encarar.

— Então seu plano sempre foi me destruir.

— Meu plano sempre foi conseguir justiça para Tommy. Se isso significa destruir seu império no processo, considero um efeito colateral bem-vindo.

— E agora que eu sei tudo isso?

Claire me encarou, o queixo erguido, sem nenhum traço de recuo, apesar do medo evidente que ainda pairava nos olhos dela.

— Agora você decide que tipo de homem realmente é, Sr. Reed. O tipo que mata a mensageira para proteger um segredo, ou o tipo que talvez, só talvez, esteja cansado o suficiente da vida que construiu para considerar que ela merece descobrir a verdade sobre o próprio irmão.

Fiquei em silêncio por um longo momento, o som da tempestade lá fora preenchendo o espaço entre nós, enquanto eu considerava, pela primeira vez em muito tempo, uma escolha que não envolvia poder, controle, ou vantagem estratégica.

Foi então que meu celular, que eu tinha certeza estar sem sinal havia horas, vibrou inesperadamente.

Uma mensagem. De um número que eu reconheci como sendo de um dos meus subordinados mais próximos, Victor.

“Sabemos que a garota está com você. Não deixe ela sair viva daquele quarto.”

Meu sangue gelou.

Claire, vendo minha expressão mudar completamente, deu um passo para trás.

— O que foi?

Virei o celular para ela poder ler a mensagem, e o rosto dela perdeu toda a cor.

— Como eles sabem que eu estou aqui?

— Essa é uma pergunta muito boa — falei, a mente já correndo através das possibilidades, tentando entender quem, dentro da minha própria organização, tinha decidido agir sem minha autorização direta.

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