A chuva batia contra as janelas do cobertura do chão ao teto como mil dedos desesperados tentando romper o vidro

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Chapter 1

A chuva batia contra as janelas do cobertura do chão ao teto como mil dedos desesperados tentando romper o vidro. Eu estava na cozinha, os pés descalços gelados no mármore, vendo as luzes da cidade se transformarem em manchas de aquarela através do vidro.

Três anos.

Três anos vivendo nessa jaula dourada, e eu ainda me sentia um fantasma assombrando a vida de outra pessoa.

Minhas mãos tremiam enquanto eu servia chá de camomila numa xícara de porcelana delicada, uma entre dezenas no armário que eu nunca havia escolhido e nunca quis. O vapor subiu e roçou meu rosto com um calor passageiro, um breve conforto no silêncio sufocante que havia se tornado minha companhia constante.

Enrolei o cardigã mais apertado em volta do meu corpo magro, sentindo o peso de um tecido que custava mais que o aluguel mensal da minha mãe, mas que não me aquecia de verdade.

Três anos de casamento com um homem que mal olhava para mim.

Três anos dormindo em quartos separados.

Três anos me perguntando por que ele tinha me escolhido, afinal.

O relógio de pêndulo no corredor bateu meia-noite, o eco quicando pelas paredes vazias. Marcus não voltaria para casa por horas, se é que voltaria. Na maioria das noites, eu adormecia no silêncio e acordava na ausência. O cobertura era enorme, ocupando todo o último andar do prédio, mas parecia um mausoléu — lindo e sem vida.

Fui até a sala, meus passos sem som, treinados na arte de não perturbar a paz de uma casa que nunca tinha sido realmente minha. Tudo ali gritava riqueza e poder: os sofás de couro italiano nos quais eu tinha medo de sentar, as pinturas originais cujos artistas eu nem sabia pronunciar, os tapetes persas que provavelmente valiam mais que a casa da maioria das pessoas.

Mas nada daquilo era meu.

Eu era só mais um objeto caro que Marcus Valentino tinha adquirido e esquecido.

O casamento tinha sido arranjado. Isso eu entendia. Meu pai devia dinheiro a gente perigosa, o tipo de dívida que não se apaga com falência ou pedidos de desculpa. Um dia, homens de terno preto apareceram no nosso apartamento apertado, e o rosto do meu pai ficou da cor de cinza.

Depois o próprio Marcus chegou.

Eu me lembro daquele dia com uma clareza cristalina. Ele entrou na nossa sala simples como um predador entrando numa jaula de ratos, e tudo mudou. Era mais jovem do que eu esperava, só 30 anos contra meus 21, e devastadoramente bonito de um jeito que me tirava o fôlego. Cabelo escuro penteado para trás, num rosto de traços afiados e ainda mais duros. Olhos da cor de fumaça e aço. Um corpo que se movia com graça letal sob um terno que provavelmente custava mais que o nosso aluguel de um ano inteiro.

Ele mal olhou para mim naquele dia. O olhar dele passou por mim uma vez, catalogando, avaliando, descartando, antes de voltar para o meu pai.

Eles conversaram em voz baixa enquanto eu ficava congelada no nosso sofá surrado, minha irmã mais nova apertando minha mão com força.

Peguei fragmentos.

Dívida.

Acordo.

Proteção.

Casamento.

Meu pai chorou quando Marcus foi embora. Soluços profundos que sacudiam os ombros dele enquanto pedia desculpas repetidamente.

— Você vai estar segura — ele disse, a voz quebrando. — Ele prometeu que você ficaria segura. E sua irmã, sua mãe, ele vai proteger todas vocês.

O casamento aconteceu duas semanas depois, num cartório, testemunhado por homens de rosto de pedra em ternos caros e uma garota apavorada que mal tinha terminado o colégio. Marcus disse os votos numa voz sem emoção nenhuma, colocou uma aliança de platina no meu dedo que parecia uma algema, e me beijou uma vez.

Um selar de lábios breve e frio que não prometia nada.

Aquela tinha sido a única vez que ele havia me tocado em três anos.

Me enrolei no banco da janela, puxando os joelhos até o peito, olhando a chuva. Meu reflexo me encarava no vidro. Magra demais. Pálida demais. Afundada em roupas feitas para alguém com mais substância. Eu tinha emagrecido desde o casamento, apesar do chef particular que preparava refeições elaboradas que eu comia sozinha na maioria das vezes.

Depressão, talvez.

Ou só o apagamento lento de existir num espaço onde você não pertence.

O som das portas do elevador se abrindo fez meu coração disparar. Olhei para o relógio.

1h30 da manhã.

Cedo para Marcus.

Ouvi a voz dele primeiro, baixa e mortalmente calma, falando em italiano com alguém. Depois outras vozes, os homens dele, sempre ao redor dele como uma fortaleza viva. Passos cruzaram o hall de entrada de mármore, vários pares, acompanhados pelo farfalhar sutil de armas escondidas e o cheiro fraco de couro molhado de chuva e óleo de arma.

Eu devia ter ido para o meu quarto. Essa era a regra não dita. Quando Marcus tratava de negócios, eu me tornava invisível. Mas algo no tom de voz dele me fez congelar, minha curiosidade brigando com meu instinto de sobrevivência.

— Não me importa qual foi a desculpa dele — Marcus estava dizendo, a voz carregando aquele tom particular que fazia homens adultos se encolherem. — Ele tinha um trabalho. Um. E agora temos um problema.

Me mexi um pouco, tentando ouvir melhor, e meu cotovelo bateu no vaso decorativo em cima da mesinha lateral. Ele balançou, o tempo virando xarope enquanto eu via ele quase cair. Minha mão saiu disparada, mas era tarde demais.

O vaso caiu, se estilhaçando no chão de madeira com um som parecido com um tiro naquele cobertura silencioso.

A conversa parou na hora.

Meu coração martelava contra as costelas enquanto passos se aproximavam, rápidos, decididos, perigosos. Me encolhi contra o banco da janela, tentando ficar o menor possível, a respiração vindo em arquejos curtos.

Marcus apareceu na entrada da sala, e meu fôlego travou. Ele tinha tirado o paletó do terno, a camisa branca desabotoada no colarinho, as mangas dobradas revelando antebraços marcados de músculo e cicatrizes que contavam histórias que eu nunca ouviria. O cabelo escuro estava levemente desalinhado, e havia uma marca no queixo dele que podia ser sangue.

Os olhos cinzentos dele me encontraram na hora, me prendendo no lugar como uma borboleta presa numa tábua.

Por um instante, nenhum dos dois se mexeu. Eu conseguia ver os homens dele atrás: Alessandro, seu braço direito, e mais dois cujos nomes eu nunca soube. Todos me olhavam com aquela expressão vazia de homens treinados para não reagir.

— Desculpa — sussurrei, a voz quase inaudível. — Eu não queria. Eu limpo.

Saí correndo do banco da janela, os pés descalços batendo no chão. A dor floresceu na hora quando um caco de porcelana cravou no meu calcanhar. Engasguei, cambaleando, e de repente Marcus estava se movendo.

Ele cruzou a distância entre nós em três passos longos, a mão dele segurando meu cotovelo antes que eu caísse.

O toque mandou uma corrente elétrica subindo pelo meu braço — a primeira vez que ele me tocava desde o dia do nosso casamento. O aperto dele era firme, mas cuidadoso, e eu podia sentir os calos na palma da mão dele, o calor da pele dele através do tecido fino do meu cardigã.

— Não se mexe — ele ordenou, a voz baixa e áspera. — Vai se cortar mais.

Congelei, dolorosamente ciente de o quanto ele estava perto, perto o suficiente pra eu sentir o cheiro dele: colônia cara sobre algo mais escuro, mais perigoso, fumaça, couro e o gosto metálico fraco de violência. Meu pulso trovejava nos ouvidos.

Marcus olhou por cima do ombro.

— Alessandro, kit de primeiros socorros. Agora.

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