Chapter 2
Fiquei parado, a cafeteira ainda tremendo na minha mão, tentando processar as palavras dela.
— Que segredo? — perguntei, quase sem voz.
Lílian respirou fundo, os dedos ainda apertando a caneca como se fosse a única coisa mantendo ela de pé.
— Lembra do ano passado, quando eu disse que ia viajar sozinha para pensar na vida?
— Lembro.
— Eu não fui sozinha pensar na vida, Marcos. Eu fui tentar esquecer você.
O ar pareceu sumir do cômodo.
— Do que você está falando?
— Estou falando que não foi ontem que eu comecei a sentir alguma coisa por você. Foi há mais de um ano. E eu fiquei tão apavorada com isso que quase estraguei nossa amizade tentando fugir do que sentia.
— Você nunca disse nada.
— Você também não disse — ela rebateu, um sorriso triste se formando. — Acho que os dois somos bem bons em nos esconder atrás de sermos “só amigos”.
Sentei na cadeira da cozinha, as pernas de repente parecendo incapazes de me sustentar.
— Eu não sabia — falei, baixinho. — Se eu soubesse…
— O quê? Teria dito algo antes?
— Talvez.
— Marcos, você sussurrou “eu te amo” para mim achando que eu estava dormindo. Isso não é exatamente o comportamento de alguém pronto para dizer algo antes.
Ela tinha razão, e isso doeu mais do que eu esperava.
— Por que você nunca disse nada, então? — perguntei. — Se você sentia o mesmo, por que deixou eu viver com esse segredo sozinho?
Lílian se aproximou, sentando na cadeira ao meu lado, a caneca esquecida sobre a mesa.
— Porque tinha medo. Medo de estragar a única coisa boa e estável que eu tinha na vida. Minha família é uma bagunça, meus relacionamentos sempre terminam em desastre, mas você… você sempre foi o lugar seguro, Marcos. E eu tinha pavor de perder isso tentando algo mais.
— Então por que está aqui agora, me contando tudo isso?
Ela olhou para mim, os olhos brilhando de um jeito que eu nunca tinha visto antes, nem em quatro anos de amizade.
— Porque ontem à noite, quando você achou que eu estava dormindo, e disse aquelas palavras… foi a coisa mais real que eu já ouvi de alguém. E eu não consigo mais fingir que não senti nada ouvindo isso.
Fiquei em silêncio, o coração batendo tão forte que parecia que ela conseguia ouvir.
— Lily, eu preciso ter certeza de que você não está confusa por causa da bebida de ontem, ou por causa do momento estranho que estamos vivendo agora.
— Eu estou completamente sóbria, Marcos. E nunca estive tão certa de alguma coisa na vida.
Ela estendeu a mão, tocando de leve a minha, um gesto simples que carregava quatro anos de sentimentos reprimidos.
— Então o que a gente faz agora? — perguntei, a voz tremendo levemente.
— Acho que a gente para de fingir. Só isso.
Aquela frase simples pairou no ar entre nós, carregando um peso enorme de possibilidades que eu nunca tinha permitido imaginar completamente.
— Isso muda tudo, sabia? — falei. — Se a gente tentar isso e não der certo…
— Eu sei do risco, Marcos. Já pensei nisso mil vezes ao longo do último ano. Mas continuar fingindo também tem um custo. E eu não quero mais pagar esse preço.
Olhei para ela, para aquele rosto que eu conhecia tão bem, mas que de repente parecia completamente novo, carregado de uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto antes.
— Posso te beijar agora? — perguntei, surpreendendo até a mim mesmo com a pergunta direta.
Ela sorriu, aquele sorriso que eu tinha memorizado ao longo de quatro anos sem nunca admitir o motivo.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
