Chapter 3
As semanas seguintes ao beijo daquela manhã se transformaram em algo que eu nunca tinha imaginado ser possível: a mesma cumplicidade de sempre, mas agora carregada de um peso diferente, mais leve e mais intenso ao mesmo tempo.
Continuávamos rindo das mesmas piadas idiotas, mandando mensagens bobas durante o dia, mas agora havia mãos entrelaçadas no cinema, beijos de despedida na porta, e uma intimidade nova que fazia tudo parecer, ao mesmo tempo, familiar e completamente diferente.
— Isso é estranho para você? — Lílian perguntou, numa noite qualquer, deitada no meu sofá com a cabeça apoiada no meu colo.
— Estranho bom ou estranho ruim?
— Estranho bom, eu acho. Mas ainda estranho.
— Sim — admiti, passando os dedos pelo cabelo dela. — Mas do jeito bom também.
Contamos para nossos amigos próximos gradualmente, começando com Dani, que praticamente gritou de felicidade no meio do restaurante onde estávamos almoçando.
— Eu sabia! — ela disse, batendo palmas. — Eu sempre soube! Vocês dois eram ridiculamente óbvios.
— A gente não era óbvio — Lílian protestou, rindo.
— Lily, você uma vez ficou brava com uma garota só porque ela deu o número dela para o Marcos numa festa. Isso não é comportamento de “só amigos”.
Aquela revelação me pegou de surpresa.
— Espera, que garota?
— Não interessa — Lílian respondeu rapidamente, o rosto ficando vermelho.
Dani riu ainda mais, claramente se divertindo com a situação.
As coisas pareciam estar se encaixando perfeitamente, como se todas as peças que sempre estiveram ali, escondidas atrás da palavra “amizade”, finalmente tivessem encontrado seu lugar certo.
Até que, numa tarde de sábado, recebi uma mensagem inesperada.
Era de Rachel, minha ex-noiva.
“Preciso falar com você. É importante. Podemos nos encontrar essa semana?”
Fiquei olhando para a mensagem por um longo tempo, sentindo um nó se formar no estômago.
Lílian, que estava ao meu lado no sofá, percebeu minha mudança de expressão.
— O que foi?
Mostrei o celular para ela, e vi o rosto dela endurecer instantaneamente.
— Por que ela está entrando em contato agora? Vocês não se falam há mais de dois anos.
— Eu não sei, Lily.
— Você vai encontrar com ela?
A pergunta pairou no ar, carregada de uma insegurança que eu nunca tinha visto em Lílian antes, nem nos piores momentos da nossa amizade.
— Eu acho que preciso saber o que ela quer — respondi, com cuidado. — Mas isso não muda nada entre a gente, Lily.
— Você promete?
— Prometo.
Mas, mesmo dizendo aquilo com convicção, uma parte de mim já sentia que aquele reencontro inesperado com Rachel poderia trazer complicações que eu não estava preparado para enfrentar.
Marquei de nos encontrarmos numa cafeteria neutra, dois dias depois, o estômago revirando de ansiedade durante toda a espera.
Quando Rachel chegou, parecia diferente da mulher que eu tinha conhecido anos atrás, mais cansada, mais séria, carregando algo pesado nos ombros que eu não conseguia identificar imediatamente.
— Obrigada por vir — ela disse, sentando à minha frente.
— O que você queria falar comigo, Rachel?
Ela hesitou, os dedos brincando nervosamente com a alça da bolsa.
— Eu soube que você está namorando a Lílian agora.
— Como você sabe disso?
— Amigos em comum, redes sociais, você sabe como é.
— Isso é relevante para o motivo do seu contato?
Rachel respirou fundo, e o que ela disse em seguida fez meu sangue gelar.
— É extremamente relevante, Marcos. Porque o que eu preciso te contar envolve ela também.
