Chapter 6
Passamos os dias seguintes numa distância estranha, ainda morando perto um do outro, ainda trocando mensagens ocasionais, mas sem a intimidade que tínhamos construído nas semanas anteriores.
Lílian me dava espaço, respeitando que eu precisava de tempo para processar tudo, e eu me pegava, mais de uma vez, quase ligando para ela só para ouvir a voz dela, antes de me lembrar da mágoa ainda fresca.
Numa noite de sexta-feira, depois de quase uma semana de silêncio maior que o normal entre nós, encontrei um pacote na porta do meu apartamento.
Dentro, uma caixa pequena de madeira, e um bilhete escrito à mão com a letra que eu reconheceria em qualquer lugar.
“Marcos, eu passei a semana inteira pensando em como consertar isso, e percebi que palavras nunca foram suficientes para mostrar o quanto eu me arrependo. Então decidi te mostrar, ao invés de só dizer.”
Abri a caixa, encontrando dentro pequenos pedaços de papel dobrados, cada um com uma data e uma pequena mensagem escrita.
O primeiro dizia: “Dia em que percebi que te amava — o dia em que você ficou até as três da manhã me ajudando a estudar para uma prova que eu ia reprovar de qualquer jeito, só porque eu estava desesperada.”
Outro dizia: “Dia em que quase estraguei tudo com medo — a ligação para Rachel. Me arrependo profundamente, mas não vou fingir que não aconteceu.”
Fui lendo um por um, cada pedaço de papel revelando uma parte diferente dos últimos quatro anos, momentos que eu mal lembrava, mas que aparentemente tinham significado profundamente para ela.
O último papel, maior que os outros, dizia: “Eu não posso prometer que nunca mais vou ter medo, Marcos. Mas posso prometer que, da próxima vez que tiver medo, vou correr na sua direção, não na direção oposta. Se você ainda quiser me dar essa chance.”
Segurei aquele último pedaço de papel por um longo tempo, sentindo o peso de tudo que tínhamos passado nas últimas semanas.
No dia seguinte, apareci na porta do apartamento dela sem avisar, a caixa de madeira ainda na mão.
Quando ela abriu a porta, o rosto dela passou por uma sequência rápida de emoções: surpresa, esperança, medo.
— Marcos.
— Eu li todos os papéis.
— E?
— E percebi que a gente não vai conseguir construir nada de verdade se você continuar carregando esse medo sozinha, tentando resolver tudo sem falar comigo primeiro.
Ela abaixou a cabeça, preparando-se para o pior.
— Mas também percebi — continuei — que eu também tenho culpa nisso. Passei quatro anos escondendo o que sentia, te deixando sozinha com esse peso todo, sem nunca dar a você a chance de saber que não estava sozinha nesse medo.
Ela levantou o olhar, uma centelha de esperança substituindo o medo.
— Então o que isso significa?
— Significa que eu quero tentar de novo. Mas dessa vez, sem segredos, sem decisões tomadas sozinhas achando que está protegendo o outro.
— Eu prometo, Marcos. Dessa vez, eu prometo de verdade.
— Eu sei que promete. E eu também prometo, da minha parte, parar de me esconder atrás de ser “responsável” toda vez que as coisas ficarem difíceis demais para admitir em voz alta.
Ela sorriu, aquele sorriso genuíno que eu tinha aprendido a amar ao longo de quatro anos, agora carregado de uma esperança renovada.
— Posso te beijar agora? — ela perguntou, repetindo minha própria pergunta daquela manhã na cozinha.
— Achei que você nunca fosse perguntar.
Meses depois, sentados na mesma cozinha onde tudo tinha começado, agora com fotos novas coladas na geladeira, memórias recentes se misturando com quatro anos de amizade que finalmente tinham encontrado seu verdadeiro significado, Lílian apoiou a cabeça no meu ombro, tomando o café da manhã em silêncio confortável.
— Sabe — ela disse, quebrando o silêncio — ainda bem que você fala demais quando acha que estou dormindo.
Ri, abraçando ela mais apertado.
— E ainda bem que você finge dormir bem melhor do que eu imaginava.
Ela riu também, aquele som que se tornou, ao longo dos meses, a trilha sonora da minha vida inteira.
E ali, na simplicidade daquela manhã comum, cercado por quatro anos de amizade transformados em algo ainda mais profundo, me peguei pensando: quantas vezes a gente já deixou o medo decidir por nós, quando a coisa que mais precisávamos estava bem ali, esperando pacientemente que finalmente tivéssemos coragem de escolher?
