Chapter 2
Cheguei no escritório do Marcus menos de vinte minutos depois da mensagem, ainda com a camisa amassada e o cheiro de perfume estranho grudado na pele.
Ele me esperava na sala de reuniões, sem gravata, os papéis espalhados na mesa como se tivesse passado a noite inteira organizando aquilo.
— Senta, Daniel.
— Só me diz o que ela descobriu.
— Senta.
Sentei, o coração batendo tão forte que eu sentia no pescoço.
Marcus deslizou uma pasta na minha direção.
— Você reconhece esses números de conta?
Olhei os papéis.
Meu estômago gelou.
— Isso é… isso é da empresa.
— Exatamente. Contas-sombra vinculadas ao departamento que você supervisiona.
— Como a Claire teve acesso a isso?
— Ela é filha do dono da empresa, Daniel. Você esqueceu?
A ficha caiu devagar, pesada, como uma pedra afundando num lago.
O pai da Claire, Robert, tinha me contratado sete anos atrás, antes mesmo de eu conhecer a filha dele direito.
Eu subi rápido.
Vice-presidente de operações aos trinta e dois anos.
Todo mundo dizia que eu tinha sorte.
Ninguém sabia o que eu tinha feito pra sustentar duas vidas ao mesmo tempo.
— Os apartamentos da Vanessa — Marcus continuou, sem pressa, como se estivesse arrancando um curativo devagar de propósito. — As joias. As viagens. Você não pagou tudo isso com seu salário, Daniel.
— Eu… eu só peguei emprestado. Ia devolver.
— Chama-se desvio de fundos. E a Claire tem documentação de cada transferência nos últimos oito meses.
Fechei os olhos.
— Ela mostrou isso pro pai dela?
— Ainda não. Mas tem uma reunião marcada com o conselho pra semana que vem.
— Marcus, se isso chegar no conselho, eu perco tudo. O cargo, a reputação, tudo.
— Você devia ter pensado nisso antes de roubar da empresa do seu sogro pra bancar sua amante.
A frase dele cortou fundo, porque era simplesmente verdade.
— Tem mais uma coisa — ele disse, hesitando pela primeira vez.
— O quê?
— A Vanessa ligou pro escritório da Claire ontem à noite.
Meu sangue gelou.
— Por quê?
— Porque ela está grávida, Daniel.
O mundo pareceu parar de girar por um segundo inteiro.
— Isso é impossível.
— Segundo o investigador, ela está de dez semanas.
Contei os meses na cabeça, e a matemática não mentia.
Era possível, sim.
Extremamente possível.
— A Claire sabe disso?
— A Claire sabe de tudo, Daniel. Foi por isso que ela ligou pra Vanessa se passando por uma advogada, coletando a confirmação com a própria boca dela, gravada.
Levantei da cadeira, andando de um lado pro outro na sala pequena, sentindo as paredes se fechando ao meu redor.
— Onde ela está agora? A Claire, com o Noah?
— Isso eu não sei. E mesmo se soubesse, não te contaria sem autorização dela.
— Você é meu advogado!
— Sou advogado da empresa, Daniel. Fui eu quem redigiu seu contrato de trabalho, não seu acordo pré-nupcial nem sua vida pessoal.
Aquilo doeu quase tanto quanto tudo o resto.
— Então eu não tenho ninguém do meu lado?
Marcus me olhou por um longo momento, quase com pena.
— Você tinha alguém do seu lado. Ela dormia na sua cama todas as noites enquanto você estava em hotéis de luxo com outra mulher.
Não tive resposta pra isso.
Ele fechou a pasta na minha frente, batendo de leve na mesa.
— Meu conselho, como profissional: contrate um advogado criminal antes que o conselho se reúna. E como pessoa que conhece você há sete anos: ligue pro seu filho antes que seja tarde demais pra ele ainda lembrar sua voz.
Saí do escritório dele sem responder nada, as mãos tremendo tanto que quase deixei cair as chaves do carro no chão do elevador.
No carro, liguei pra Vanessa pela primeira vez em vinte e quatro horas.
Ela atendeu no segundo toque.
— Você sabia? — perguntei, sem nem cumprimentar.
— Sabia o quê, Daniel?
— Que está grávida.
Um silêncio comprido.
— Eu ia te contar hoje à noite. Achei que seria um bom momento, já que você finalmente ia deixar a Claire.
— Eu nunca disse que ia deixar a Claire.
— Você disse, sim. Centenas de vezes, na cama daquele hotel.
Fechei os olhos, encostando a cabeça no volante.
— Isso muda tudo, Vanessa.
— Muda tudo pra você, você quer dizer. Porque agora tem duas famílias que você abandonou ao mesmo tempo.
A ligação caiu antes que eu pudesse responder, e fiquei ali, sentado no estacionamento do escritório do meu próprio advogado, sem casa, sem esposa, sem filho por perto, e prestes a ganhar outro que eu nunca imaginei querer.
