Chapter 5
As semanas seguintes foram as mais intensas da minha carreira.
Eu ia à mansão todos os dias, conduzindo sessões de reabilitação que combinavam técnica manual, estímulo neuromuscular e uma paciência que eu não sabia que ainda tinha.
Sebastian resistia, gritava de dor às vezes, e mais de uma vez me mandou “ir embora e nunca mais voltar” — só para me chamar de volta na manhã seguinte.
Aos poucos, o pé que antes só estremecia começou a responder a comandos simples.
Depois, o joelho.
Depois, com o apoio de barras paralelas instaladas às pressas numa das salas da mansão, ele conseguiu ficar em pé sozinho pela primeira vez em vinte anos.
Ele não chorou na minha frente.
Mas vi as mãos dele tremendo nas barras, e soube que por dentro ele estava desmoronando de um jeito bom.
Enquanto isso, Gabriel investigava discretamente as ligações do Dr. Renwick, reunindo provas de anos de desvio de fundos disfarçados de “gastos médicos especializados”.
“Ele construiu um pequeno império em cima da sua cadeira, chefe”, Gabriel disse numa noite, jogando uma pasta sobre a mesa. “Propriedades, contas no exterior, tudo registrado no nome de parentes distantes.”
Sebastian folheou os documentos em silêncio, o maxilar travado.
“Marque uma reunião com ele”, ele disse por fim. “Amanhã. Aqui em casa.”
“Chefe, se ele perceber que sabemos—”
“Ele não vai perceber nada”, Sebastian cortou. “Porque dessa vez, eu vou estar em pé quando ele entrar por aquela porta.”
No dia seguinte, escondi minha ansiedade atrás de uma expressão profissional enquanto ajudava Sebastian a se posicionar, sem a cadeira, apoiado apenas numa bengala discreta, atrás das cortinas pesadas da biblioteca.
Quando o Dr. Renwick entrou, sorridente como sempre, cumprimentando os seguranças com familiaridade de quem se sentia dono da casa, senti um arrepio.
“Sebastian, meu rapaz, como você está hoje?” ele perguntou, se aproximando da cadeira vazia posicionada de propósito no centro da sala.
“Melhor do que você esperava”, a voz de Sebastian soou atrás dele.
O Dr. Renwick se virou, e o sangue sumiu do rosto dele ao ver Sebastian de pé, apoiado na bengala, mas inegavelmente em pé.
“Isso… isso é impossível”, ele gaguejou. “Sua lesão era completa. Eu revisei os exames pessoalmente.”
“Você revisou os exames pessoalmente”, Sebastian repetiu, se aproximando devagar, cada passo carregado de vinte anos de raiva contida. “E decidiu que era melhor para os seus negócios que eu nunca soubesse da verdade.”
O Dr. Renwick tentou recuar, mas os seguranças já tinham fechado a porta atrás dele.
“Eu posso explicar—”
“Explique então por que existe uma anotação de 2007 dizendo que o ‘Sr. L. não deve saber’ da melhora que você registrou.”
O médico ficou em silêncio, os olhos disparando entre Sebastian e Gabriel, procurando uma saída que não existia.
“Você me manteve preso a essa cadeira por vinte anos”, Sebastian disse, a voz baixa e trêmula de fúria contida. “Usou meu luto pelo meu pai, minha dor, minha confiança cega, para construir seu próprio império nas minhas costas.”
“Sebastian, por favor, eu só—”
“Você vai devolver cada centavo”, Sebastian cortou. “E vai passar o resto da vida sabendo que eu descobri. Isso é pior do que qualquer coisa que eu poderia fazer com você fisicamente.”
Os seguranças levaram o Dr. Renwick, agora um homem encolhido e sem palavras, para fora da mansão, rumo a um destino que eu preferia não imaginar.
Sebastian ficou parado no centro da biblioteca, olhando para as próprias mãos, como se as visse pela primeira vez.
“Vinte anos”, ele murmurou. “Vinte anos que eu nunca vou recuperar.”
Aproximei-me devagar.
“Mas você tem os próximos vinte para viver de verdade”, eu disse. “Isso conta para alguma coisa.”
Ele olhou para mim, e pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi um homem — não um chefe, não uma lenda do crime — apenas um homem cansado, finalmente livre de uma mentira que o prendia havia duas décadas.
