Eu gritei pro chefe da máfia mais temido de Phoenix não tocar no carro dele — e quinze homens armados levaram a mão às armas na mesma hora.

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Chapter 2

Não respondi na hora.

O silêncio se esticou entre nós, pesado, cheio de perguntas que eu não estava pronta pra responder e que ele, claramente, não pretendia deixar de fazer.

— Você não precisa me contar tudo essa noite — disse Adrian, finalmente, recostando na cadeira. — Mas precisa entender uma coisa: quem quer que tenha colocado aquela bomba sabia exatamente onde plantar, exatamente que horário, exatamente qual carro. Isso não é obra de amador.

— E o que isso tem a ver comigo?

— Talvez nada. Talvez tudo. Eu preciso descartar as possibilidades, uma por uma.

Marcus entrou sem bater, o rosto ainda tenso da noite inteira de trabalho.

— Identificamos parte do equipamento — disse ele. — O modelo do gatilho sem fio é o mesmo usado por um grupo que trabalhou pros Kovalenko há três anos.

— Os russos — murmurou Adrian, os olhos se estreitando.

— Achávamos que eles tinham se retirado do território depois do acordo de 2022.

— Aparentemente, alguém decidiu que o acordo não vale mais nada.

Fiquei sentada, ouvindo aquele mundo inteiro de nomes e alianças que eu não fazia ideia que existia, cada palavra deles me afastando mais e mais da vida simples que eu tinha construído com tanto cuidado nos últimos dois anos.

— Preciso ir — falei, me levantando de repente.

— Evelyn.

— Eu já disse tudo que sei. Vocês não precisam mais de mim aqui.

Adrian se levantou também, mais rápido do que eu esperava, ficando entre mim e a porta sem realmente bloquear minha passagem — só presente o suficiente pra eu parar.

— Alguém tentou me matar essa noite. E a única pessoa que percebeu foi uma mulher que, por acaso, tem treinamento médico avançado o suficiente pra reconhecer explosivos militares numa fração de segundo. Você entende por que isso me preocupa?

— Está dizendo que não confia em mim.

— Estou dizendo que preciso entender o quebra-cabeça inteiro antes de assumir que você é só uma peça aleatória nele.

As palavras doeram mais do que deveriam.

— Eu passei dois anos limpando essa casa sem nunca causar problema nenhum. Fiz meu trabalho, fiquei invisível, e essa noite, a única coisa que fiz foi impedir que você morresse. E agora estou sendo tratada como suspeita.

— Não como suspeita.

— Então como o quê?

Adrian hesitou, algo raro cruzando o rosto controlado dele.

— Como alguém que talvez esteja em mais perigo do que percebe.

Aquilo me pegou de jeito.

— Do que você está falando?

— Se alguém plantou essa bomba sabendo detalhes específicos da minha rotina, é porque tem informação de dentro dessa casa. E, se essa pessoa perceber que você viu algo que não devia, que reconheceu o dispositivo, que tem conhecimento suficiente pra identificar quem fez isso…

Ele não terminou a frase.

Não precisava.

O medo que eu vinha carregando havia anos, o medo que eu tinha aprendido a esconder tão bem que quase esquecia dele, voltou de uma vez, frio e familiar.

— Você acha que eu corro perigo por causa disso.

— Acho que você já corria perigo antes disso. E hoje só piorou.

Sentei de volta na cadeira, as pernas de repente sem força.

— Como você sabe disso? Como você sabe que eu já corria perigo antes?

Adrian se aproximou devagar, agachando na minha frente pra ficar na mesma altura, um gesto que me pegou completamente desprevenida vindo de um homem como ele.

— Porque ninguém aprende a reconhecer explosivos, a notar câmeras com defeito, a memorizar o som de um sensor quebrado, sem ter vivido algo que ensinou o corpo a ficar sempre alerta. Isso não se aprende numa faculdade de medicina, Evelyn. Isso se aprende sobrevivendo a alguma coisa.

Fechei os olhos, sentindo as lágrimas ameaçando escapar pela primeira vez em anos na frente de outra pessoa.

— Eu não posso falar sobre isso.

— Eu não vou forçar você.

— Mas vai continuar perguntando.

— Vou continuar protegendo você, com ou sem respostas. As perguntas são só pra eu fazer isso direito.

Aquilo era mais gentileza do que eu tinha recebido de qualquer pessoa em muito tempo, e por isso mesmo me assustou mais do que qualquer ameaça daquela noite.

— Preciso pensar — falei, me levantando de novo, e dessa vez ele não se moveu pra me impedir. — Preciso… processar tudo isso.

— Tudo bem. Mas essa noite, você não vai voltar pro seu apartamento.

— Adrian—

— Não é uma sugestão, Evelyn. Se quem plantou essa bomba tem informação de dentro dessa casa, e se essa pessoa perceber que você identificou o dispositivo, sua rotina normal virou a coisa mais perigosa que existe agora. Você fica aqui essa noite. Amanhã a gente decide o resto com a cabeça mais fria.

Eu quis discutir.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, uma parte de mim — a parte cansada de fugir sozinha, de calcular cada risco sozinha, de carregar cada medo sozinha — não quis discutir de verdade.

— Só essa noite — falei.

— Só essa noite — ele concordou, embora algo no jeito como disse aquilo me fizesse duvidar que qualquer um dos dois realmente acreditasse nisso.

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