Chapter 4
O ar saiu dos meus pulmões de uma vez.
— Eles sabem que estou aqui.
— Aparentemente, sim.
Adrian já estava de pé, gritando por Marcus antes mesmo de terminar a frase, a casa inteira despertando de novo em questão de segundos, o mesmo caos organizado da noite anterior tomando conta de cada corredor.
— Preciso que rastreie esse número — disse Adrian a Marcus assim que ele apareceu, ainda ajustando o coldre por baixo do paletó. — E preciso de segurança extra em cada entrada dessa propriedade, agora.
— Quem mandou isso? — perguntou Marcus, olhando a mensagem.
— Alguém que sabe o nome verdadeiro da Evelyn — respondeu Adrian, sem tirar os olhos de mim. — Alguém ligado à família dela.
Marcus me olhou com uma expressão nova, calculando informação que claramente não esperava receber daquele jeito.
— Kovalenko — ele murmurou.
— Você sabia? — perguntei, surpresa.
— Reconheci o padrão do dispositivo ontem à noite. Suspeitei, mas não tinha certeza.
Não tive tempo de processar aquilo direito antes que um dos seguranças aparecesse correndo pelo corredor.
— Sr. Blackwell. Câmeras do perímetro leste captaram movimento. Dois veículos, parados a cem metros do muro, luzes apagadas.
O sangue gelou nas minhas veias.
— Eles estão aqui — sussurrei.
Adrian se moveu na minha direção, o corpo inteiro mudando pra uma postura que eu reconhecia de longe — a mesma calma perigosa que eu tinha visto nele na primeira noite, multiplicada agora por uma urgência crua.
— Evelyn, preciso que você vá pro cofre no segundo andar, agora.
— Não. Se é minha família que está fazendo isso, talvez eu consiga falar com eles, resolver isso sem mais violência—
— Não existe conversa possível com gente que manda uma mensagem daquelas depois de plantar uma bomba. Você vai pro cofre.
A voz dele não deixava espaço pra discussão, e pela primeira vez, eu não discuti.
Marcus me levou por um corredor secundário que eu nunca tinha visto antes, apesar de dois anos limpando aquela casa inteira, até uma porta reforçada escondida atrás de uma estante de livros no escritório de Adrian.
— Fica aqui até alguém vir te buscar — disse Marcus, a voz tensa. — Não sai por nenhum motivo, entendeu?
— Entendi.
A porta se fechou, e o silêncio dentro daquele espaço pequeno e reforçado foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo som abafado de vozes e passos apressados do outro lado das paredes.
Não sei quanto tempo se passou.
Podiam ter sido vinte minutos, podiam ter sido duas horas — o tempo perdeu completamente o sentido enquanto eu ficava sentada no escuro, o coração martelando, tentando não imaginar o pior sobre o que estava acontecendo do outro lado daquela porta.
Finalmente, ouvi passos se aproximando, e a porta se abriu, revelando Adrian, com um corte pequeno acima da sobrancelha, mas de pé, inteiro.
— Acabou — disse ele, a voz rouca de exaustão. — Capturamos dois homens tentando escalar o muro leste. O resto recuou quando perceberam que a segurança aqui era mais forte do que esperavam.
— Quem eram eles?
— Um deles trabalhava, até recentemente, pro grupo que assumiu o que restou da organização do seu pai.
Senti as pernas fraquejarem, e Adrian me segurou antes que eu caísse, os braços dele ao redor de mim de um jeito que parecia, ao mesmo tempo, protetor e completamente natural.
— Ele confessou quem mandou a mensagem?
— Ainda estamos conversando com ele. Mas o suficiente já ficou claro: alguém dentro da organização que assumiu o lugar do seu pai descobriu que você está viva, aqui, em Phoenix. E decidiu que isso representava um problema que precisava ser resolvido.
— Por quê? Eu não represento ameaça nenhuma pra eles. Eu só quero ser deixada em paz.
— Talvez eles não vejam dessa forma. Talvez você seja a única pessoa viva que sabe segredos suficientes sobre a operação do seu pai pra ameaçar quem assumiu o controle depois.
Aquilo fez um sentido horrível.
— Eu nunca contei nada a ninguém. Nunca usei nada do que sabia.
— Eles não têm como ter certeza disso. E gente naquele mundo prefere eliminar riscos a confiar em silêncio.
Fiquei ali, nos braços dele, tentando absorver o peso de tudo aquilo — cinco anos de fuga cuidadosa desmoronando numa única noite, o passado que eu tinha tentado enterrar completamente agora exposto e perigoso de novo.
— O que eu faço agora? — sussurrei. — Fugir de novo não resolveu nada da última vez.
Adrian se afastou o suficiente pra olhar direto nos meus olhos, as mãos ainda firmes nos meus ombros.
— Dessa vez, você não vai fugir sozinha. Vamos descobrir exatamente quem mandou aquela mensagem, e vamos garantir que isso termine de forma definitiva — não com você se escondendo pelo resto da vida, mas com a ameaça neutralizada de verdade.
— Isso é perigoso pra você também. Sua organização já tem inimigos suficientes sem os meus somados.
— Evelyn, você salvou minha vida na primeira noite que decidiu que eu valia esse risco. Acho justo eu fazer o mesmo por você agora.
Havia algo na forma como ele disse aquilo, na proximidade entre nós, que fez qualquer resposta racional que eu pudesse ter se perder completamente.
— Por que você está fazendo isso, Adrian? De verdade. Eu sou só a empregada que descobriu uma bomba por acidente.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Você parou de ser só isso na primeira noite. E, se eu for honesto, uma parte de mim está aliviada que você seja mais complicada do que uma simples empregada — porque isso significa que talvez eu tenha finalmente encontrado alguém que entende exatamente o tipo de vida perigosa que eu levo, sem precisar fingir o contrário.
Antes que eu pudesse responder, Marcus apareceu na porta, uma expressão séria no rosto.
— Adrian. O homem que capturamos finalmente falou. Ele disse quem deu a ordem.
— Quem?
Marcus olhou pra mim, hesitante, antes de responder.
— Um homem chamado Sergei Petrov. Ele diz que é seu tio, Evelyn.
O nome atingiu algo profundo e antigo dentro de mim, uma memória que eu tinha passado anos tentando apagar.
— Sergei — sussurrei. — Ele era o braço direito do meu pai. A pessoa em quem ele mais confiava.
— E provavelmente a pessoa que ordenou a morte dele — completou Adrian, a voz sombria. — O que significa que ele não vai parar até ter certeza absoluta de que você nunca vai representar ameaça nenhuma pra posição que ele roubou.
